Quinta-feira, 13.09.12

Diário #2

00:35


Dizem as crónicas que o mundo já se revolvia aquando dos idos de Março de mil nove e noventa e cinco, já os motores desta máquina amamentada muito a sangue fazia crr e guinchavam numa violência de correntes e sufocavam em fumaças e vapores.
É quase anedótico: tudo e tão nosso menos o passado impessoal que só vem nos livros. Quão verídico poderá ser? Quanta da memória é história? e quanta da história ficou memória? Antes de nascer havia o nada, que era o meu nada. Quando morrer haverá, desenrolar-se-á um nada tão esclarecido como o primeiro e a vida, essa puta, continuará. A falta de respeito. Como é insultuoso que não recolham o pano que é o céu e desçam o sol e descolem as estrelas e tirem os agrafos às nuvens e desliguem a máquina de nevoeiro, isso tudo? Haverá vida minha para além da tua morte? Tu morres e eu te enterro e na manhã seguinte o sol, todo fanfarrão, lá vai subindo. Paraste ali, não há mais, mas a vida, essa puta, ri-se com os dentes podres na tua cara, espumando de troça, e faz o que lhe compete - continua.

*

A música é feita de silêncios e de como eles se preenchem. Depois os arpejos, os glissandos, as apogiaturas, o pianíssimo e o fortíssimo e afins gírias. É ornato, mas é parte da peça que se ouve. Ou toca. A minha vida também assim vai sendo - cheia de silêncios desperdiçados. Calem-se agora um pouco.

*

Há alegrias tão luminosas que arruínam o negativo virgem da memória. Mas nunca a evocação da dor dói tanto quanto vivê-la.

*

Escrevo, enfim, sobre Paris. Não esperava o preto-e-branco do Truffaut mas esperava a graça da tez amarelada, com verdes de poltrona, do Jeunet. Tive a realidade, que arde nos olhos. Paris cansa, pesa, como se puxasse. Paris cheira mal - a mijo e sexo pago. É bruta nas fachadas, como que tentando repelir. Os postais são hediondos. A própria Torre Eiffel, condenada desde a primeira viga, esmaga sem encantar. Porque o desejo morre quando é consagrado. Pensava estar curado disto tudo. Sou um irremediável bucólico, porra.

*

A vontade é de ignorar e ir dormir. Mas quanto mais cedo for dormir, mais cedo parecerá chegar o acordar. E é isso que me custa mais. Acordar. E dar os bons dias. Que presunção essa, a de dar os bons dias. Não quero treinadores de bancada nem cartomâncias na minha vida. Só os tolos dão os bons dias.

*

(…)
A esperança é o ópio dos tolos, anotei eu uma vez, achando que me distanciava de Marx. Tolos somos todos e a religião não passa de um compêndio de fábulas que profetizam a esperança.
(…)

*

Foi como se o gume estridente de uma naifa me tivesse atravessado carne adentro, lavrado pelo ferver do sangue - como se puxassem uma corda e se girassem roldanas e saísse uma pedra de cima de mim. O peso, como uma bigorna de pensamentos a servir de alma, tornou-se, enfim, leve, impessoal, mas tangível, como o vento. Abriram-se-me as comportas.
A criança, com o seu urso de pelúcia pendendo pela mão, cabelo loiro, muito fino, assim pela ombrada, nariz pequenino e pontiagudo e olhos atentos, como duas gemas, azuis azuis, espantados cheios de tudo sem perceber nada, tomou a vontade do pai pela mão e sentou-se-lhe no colo. Esta imagem derramou esperança, a tal dos tolos, por mim abaixo, afogou-me na graça vulgar da sua pequenez santa, senti os pensamentos a morte apodrecer de impotentes, inúteis e inconsequentes, senti toda a metafísica estilhaçar no chão do seu ridículo achar-se ser. Chorei. Não consigo explicar como ou porquê sem redundâncias ou foleirices, mas não deu para não acontecer. Talvez fosse um feliz esquisito. Mas ao mesmo tempo que havia sentido esta leveza que se condensou em pranto, sentia o esmagar de tanta beleza. Num pai que recolhe a filha no seio. Num puto desengonçado, russo de pêlos, olhos esbugalhado, também atentos também espantados, que corria de lá para cá.
Dos olhos da criança, muito abertos, como se vissem todo o esplendor luminoso de tudo o que é, plenitude. Mas não o sabe dizer, escorrer para o papel ou para, simples, palavras. Não a compreendem, sequer. São felizes. Ao máximo. Mas não o sabem. Creio não haver felicidade maior ou mais nobre que esta, inocente, que não se sabe e, por efeito, não se pode negligenciar, que não é passível de ser contrafeita.
Dos olhos das pessoas não consigo ver compaixão. Vejo escárnio. Desdém pela lágrima, como se a sensibilidade fosse sarna. Toda uma rijeza de ser e achar, como uma brisa siberiana que sopra do olhar nos olhos. Parece que fazê-lo lhes dói.
Uma rapariga que me viu de caderno e caneta na mão olhou-me nos olhos, sorriu, e bocejou um fonema indizível e inteligível, mas, enfim, sorri-lhe talqualmente, entre o espanto, a confusão e o lisonjeio. Há que ser uns para os outros. Dar a outra face é difícil e eu não sou capaz. A menos que a outra face seja ou esteja sisuda, então requeiram-me da outra. Um sorriso não maça por demais, não encanzina, não nada, mal ao mundo não virá.
Sorri ou faz por isso, que para infeliz bastas tu.

 

23:00

O fim, enfim, destes sete dias aparece pluvioso. No alto, do alto, as nuvens que se embrulham gordas, pletórica, inchadas, roliças, larga a levada de chuva que desencarde o mundo e deixa a lama onde as púrrias se lavam que nem jubilantes bacorinhos. Fica a mácula para quem a serve ao altar do nojo. A chuva, como o choro, é a lixívia da alma. Já que vamos embalados nisto do espiritual, a tempestade que se pôs tem achegas de mão divina. E a saudade de casa, e a mágoa que se põe em nós como uma carraça que é o enfim ter de voltar. Voltar para quê? Voltar ao normal, que de anormal tem que baste. Tentar mudar? Mas eu sou tão fraco. Finjo-me tanto e no fim sou tão pouco. Não posso confiar nem em mim nem no nevoeiro que me enche a cabeça. É como se tivesse uma maré vazante na consciência. Uma gana constante de dar um tiro nos cornos. Confio em desenhar-te caminhos na distância que vai entre a tua boca e o teu umbigo. Confio em ficar preso entre as grades do teu cabelo molhado. Não vás. Que me resta, se fores? Sou novo demais para novenas e rosários e a língua já se esqueceu dos padre-nossos e dos ave-marias que me obrigaram a escrever às dúzias e a decorar de boca pronta, como se fosse a burocracia de entrar no céu. Vou ficar sozinho. Farei ainda menos sentido e serei ainda mais teimoso. Com certeza olharei mais o chão. É a desordem que me mete medo. Alguém que mande rezar uma missa por mim.
Se deus houvesse não precisaria de se mostrar. Se deus há só o é porque há homens que dizem que o vêem. E gente, há por aí?
E todos os fotões que resvalam em mim e se afundam nos olhos dos outros? E a força condensada de todas as vezes em que me vim? E as memórias? E as palavras? Não valem nada? Não valem algo. Mas não valem nada. A fogueira que ardeu deixou brasedo. O fogo que me arde no pavio não há-de morrer sem deitar fumaça. E bastará alguém suspirar o meu nome já depois de estar há muito morto e ter estado vivo terá valido o incómodo.

*

Dizem os românticos que toda a rosa tem os seus espinhos; os realistas que amam tanto a rosa como o estrume de onde ela cresceu; os crentes dizquem que é a criação e a Coisa e que é um pedaço de deus; eu digo - e as moscas que comem do estrume e nunca passam a rosas? Nunca uma rosa me incomodou, mas por tantas vezes me vi toscamente irritado por culpa de uma mosca. Vale-me por mais ser uma mosca e fazer da causa o efeito, que estar quedo e calado, como uma flor. Com o hálito a merda posso eu bem.

*

Procurar o teu sentido como verdade suma é procurar uma agulha só tua num palheiro cheio de agulhas.

*

Ou escreves mal ou escreves muito bem. De qualquer das maneiras só podem fingir que te percebem. Nunca te é suficiente. E nada disto importa. Tu escreves, só; sozinho.

*

Lo vedo molte cose simili a me in te, nel tuo comportamento.
Quindi hai qualcosa da dire al mondo, qualcosa di bello.
Probabilmente con la musica, o con le parole, mostra quello que hai dentro il tuo cuore, metillo nelli arte.
Si chiama “sublimazione”, tu puoi farlo.
Sublima la tua essenza con l’arte, con la musica! Sorridi sempre, di piu!
Io vi porteró nel mio cuore come un pezzo veramente importante.

Un abbraccio,
Alessandro

*

É mais custoso partir que morrer, dito que a despedida da morte é suma e não deixa dúvidas. É tão penoso despedir-me duas e três vezes de ti sem nunca saber se será a última vez. Mas a ausência como que tresnoita no fim da espera, sublima-se, desvanece. Na morte não há ausência porque a falta tão máxima de alguém não se enforma na nossa consciência. Não se aguenta na nossa razão. A morte pode doer menos que a distância, pelo egoísmo que sentimos do outro, pelo descaramento de estar a ser noutro sítio que não no nosso.
É penoso ser noutro sítios que não aqui. Quando não é aqui, tudo enfada, todas as velocidades tocam a mesma moda. O tédio, o desinteresse, o desalento. Toda a irrelevância. Mas talvez Portugal me seja necessário para fazer disto a catarse que é, como martelar um dedo para sentir o alívio da dor a ir embora. (Pena o café ser tão mau e pena que tudo isto seja construído na ideia de deus.) Guardo as saudades como um combustível. E já corroem na ideia de partir, quando ainda estou sentado em terreno sagrado. Ah, mas de que vale ao paraíso ser o paraíso se é mal frequentado? Mas isso, isso são contas d’outro rosário. Por cá ficam bocados de mim. Volto a buscá-los quando o corpo se queixar.


João Biscaia
Taizé, França
22-29 Julho de 2012

publicado por Gualter Ego às 19:07 | link do post | comentar
Quinta-feira, 23.08.12

Diário #1

 

21/7/12 
9:10 (hora espanhola)

“(A vida) é só fascinante no seu milagre absurdo de ser”
- Vergílio Ferreira, Pensar, pág. 25

22/7/12

21:35 (hora francesa)

“Escrever é orar sem um deus para a oração.”
- Vergílio Ferreira, Pensar, pág. 73

 

Nada na vida há que comova. Não existe a beleza, não existe a dor ou a mágoa, nem há mancos nem desfigurados. O que é triste não é, é feito, como a beleza está nos olhos de quem a vê (ela toda), dor e mágoa só existem para a filantropia, o mais nobre passatempo dos aborrecidos; mancos, desfigurados, para além de coitados só o são por não seres todos como eles. Cada um é seu em si, como um todo inteiro, sem cacos nem lascas. Uma pessoa não é uma cor, não tem contraste, não é tinta a secar.

Nada na vida há que comova porque o comover vem depois. Como deus. Deus também vem depois - ele precisa de nós para ser, nós, até me provarem o contrário, nunca sucedeu pararmos de ser ao pararmos de crer, apesar desse ser deixar de ter (a) razão.
É desta maneira que o objecto manda em quem o vê: ninguém nasce para se comover com o triste acaso do desfigurado, para se embevecer com a branquidão de um sorriso ou, enfim, acreditar num deus. Isso vem tudo depois.
O homem inventou a própria vida, os planetas e o universo, já que se não houver ninguém para os ver e constatar, sim senhor, lá estão eles, os planetas, orbitando como berlindes opacos pelo vazio (cheio de quê?), é o mesmo que não existirem. Os bebés crêem que a sua mãe desaparece quando ela se esconde, em brincadeira, atrás das suas próprias mãos. Por isso o regozijo quando ela aparece de novo. Esta sensação não desaparece quando crescemos, embora se torne mais fraca. Os realizadores usam-no bastante nos filmes de terror. Tudo o que não estiver aos nossos olhos existe tanto quanto o gato do Schrödinger (mas isto já havia dito o Hume sem precisar de física quântica).
Apesar de ser a causa de tudo e de si própria, a vida não tem qualquer valor - ao mesmo tempo que causas tudo, ao sabê-lo vales nada. Se fosses o único no planeta talvez eu te desse o benefício da dúvida ou, em vez, escrevesse com mais certeza.
És o rastilho de tudo, mas rebentas numa insustentável imensitude de nada.



24/7/12


00:30

É cruel sabermos que os valores são irreais, relativos e que não importam já quando os achámos reais, absolutos e importantes.
Deus quis não dar a provar a maçã da Árvore da Vida a Adão e a Eva, pois, se eles a tomassem, saberiam do bem e do mal. (A Bíblia chama Árvore da Vida à árvore que dá um fruto capaz de fazer o homem reconhecer o que está certo e errado. É isso viver?).
Levantem-se as vozes contra esta suposta crueldade divina anticognoscismo, mas tens que concordar comigo que sem bem nem mal, nem vestido nem nu, não sendo o mal a ausência do bem, sendo o nu o resultado de quem se despe, a vida seria muito mais simpática.
Veio-se-me uma ideia. Interrompo a emissão.
Acreditar em Deus, ou não, é como estar nu. Ou vestido. Nós não nascemos nus porque nunca antes de nascer estivemos nós vestidos. A nudez adquire-se com a roupa que nos vestem. A obrigação social de ter que acreditar em Deus, ou não, não passa de uma roupa que nos vestem. Somos vestidos dessa suposta escolha e, como afirmei lá em cima, é cruel, porque um valor não se esquece.
Perguntam-me se acredito em Deus ou não, digo que não por preguiça.
Não é fácil de responder. De todo.
Primeiro é como se não houvesse opção ou bebes com açúcar ou sem açúcar - ninguém que me perguntou isso antes de me darem a provar café pela primeira vez.
A pergunta, por si só, é traiçoeira. Dizendo que sim ou que não, afirmo ou nego a minha crença nele, mas sem fazer referência à sua existência. “Eu? Ai eu não acredito em Deus”, mas ele pode muito bem continuar lá em cima a fazer o que for que os deus fazem (se bem que este nosso, salvo seja, parece andar a dormir vai para um bom par de milénios). Se me perguntarem se credo na sua existência, continuo a colocá-lo na minha equação. E a figura Deus pesa demasiada nas contas de muita gente. Na responsabilidade, acima de tudo. Fazem-se estátuas da liberdade, mas não vejo nenhuma da responsabilidade. Deuses há muitos, em contrapartida.
Tirei Deus da minha equação porque é impossível dividir por zero. Como tentar ver pela primeira vez uma estrela cadente e decidir se havemos de ficar deslumbrados ou não.

- Acreditas em Deus?

Coloco-me atrás da pergunta, porque não há necessidade de Deus, e ele não deve entrar nas nossas contas - quando ganha raiz já não larga; um valor é como uma cicatriz. Podemos não a esquecer ou como a ganhámos, mas posso escondê-la e olvidar-me dela, como da verdade, durante umas horas.

- As flores são belas.

As flores são. E é isso. Não podem ser mais do que isso, porque nem elas próprias almejam ser algo mais que isso.
O bem e o mal são limites, mas só existem porque não somos perfeitos. Ou isso ou andamos em ignorância sem o saber, como o gato brinca sem saber que vai morrer e não sabe que não o sabe. Mas nós comemos da árvore da vida, ficámos condenados ao bem e ao mal e a sabê-lo. Apesar de não termos escolha, tomamos decisões; e o bem e o mal são os nossos pontos cardeais, os da consciência.
Condenados à liberdade, como disse o Sartre, condenados a só poder desejar a ignorância depois de a perdermos.

 

1:04

As melhores cuecas têm o mesmo tempo de glória que as mais medíocres. (Afirmo mesmo sem ser perito em cuecas.) Às vezes nem vale a pena vesti-las.
Todo o requinte é capricho. Nascemos animais e não morremos muito mais que isso, porque tudo o que aprendemos é porque decorámos (o Platão era um supersticioso, qual relembrar qual porra!); melhorarmos quem somos é uma punheta triste.

 

1:20

Sem a arte a humanidade seria uma pocilga e saberia-o sem dar parte fraca.



25/7/12

00:10 (?)

Dizem-nos, quando amavelmente nos metem à frente a gramática racionada, que há diferentes tipos de espaço, entre eles o psicológico. Esse era aquele de ser um fanfarrão rude de meter nojo aos cães, digamos, no tasco e em casa ser a mulher a vestir as calças. Dizem-nos que mudamos quando entramos num espaço diferente, o físico, com pessoas diferentes, o social. Esqueceram-se do papel.
Do papel, onde as palavras ficam, porque é das palavras que sai tudo - nem roda nem lâmpada, o que nos difere dos macacos é a literatura, a mania de dizer mais do que o necessário.
Escrevo, escreve-se, para construir uma estabilidade. Abrir amanhã este caderno e ver cá esta gatafunhada trencosa. Destruir o efémero. Tentar, tanto pior. Atenuar o que fica. Construir o que ficou. Destilar toda a gota de suor. E é neste caderno que posso ser. Rude, maricas, queixinhas, o que for. Mas tudo o que estiver aqui esforça-se por ser genuíno, mesmo que seja inestético. A incepção. Lá fora vou tecendo ramagens de mim, para me esquivar, para me camuflar ou, antes, para me notar. O papel também é um espaço.
O poeta, por exemplo, pode andar ao soco e ser um incorrigível libertino quando anda por aí à procura de “inspiração” por esquinas e valetas e gargalos, mas metam papel e tinta à sua frente e têm uma fera amansada, um gatinho autêntico.
Toda a mácula e caralhice desaparecem quando o poeta escreve, dando lugar à fraqueza e ao lamechismo. Um homem feito menino, pronto a contrapiar tudo o que for sentimento de desagrado para cima. Mas ele sabe-o e usa-o a seu favor - daí ser poeta.
A mariquice metódica é para o poeta o mesmo que a dúvida era para o Descartes e ele usa-a como a principal arma para atacar o desconhecido. A mariquice do poeta, embora metódica e provisória, é a força do poeta. “Todo o poeta é um fingidor”, lá está.

00:35

“E se o melhor dela (a viagem) é o regresso, é porque a ilusão se pode assim recompor quando retomada a distância.” V.F.

“Mas o tempo é de uma dimensão quantitativa e não qualitativa.” V.F.

Se uma criança morrer com 10 aninhos terá vivido o mesmo tempo que a viúva do 3º esquerdo que morreu aos 95. Soa ridículo, mas é a verdade. Tanto quanto uma hora na missa aos 10 anos dura mais que uma hora a jogar à bola quando se tem 10 anos. Tanto quanto um ano me parecer mais tempo do que ao meu pai, porque um ano é 1/17 do que vivi, mas é 1/49 do que ele viveu. Ao morrer com 10 anos, ter-se-ão vivido 10/10 anos. Ao morrer com 95, ter-se-ão vivido 95/95 anos. Tanto quanto sei de aritméticas básicas, ambas as irredutabilidades das funções dadas são 1/1, que é 100%, o todo, o inteiro. Terão, portanto, vivido o mesmo tempo, melhor ou pior, porque o tempo é uma sensação e não um aparelhómetro.
O tempo faz-se e nunca muda porque não é divisível. Se formos ao norte do Brasil não encontramos a linha pontilhada a marcar o equador da Terra. É isso com o tempo. O passados e o futuro são quimeras. Distracções. Tudo é o presente.
Com o espaço é talqualmente. Estou sempre no mesmo sítio (mas movo-me), porque não posso sair de mim. Tudo o que eu não vejo é memória ou ansiedade. Como posso quantificar a saudade que sinto de casa se não tenho um olho lá e outro aqui, em França? “O caminho faz-se caminhado”, ou lá o que é. Sei que estou longe, mas como posso prová-lo? Telefonando, eu sei. Ou qualquer outra coisa. Localização por satélite e essas mariquices. Mas a distância é tão irreal. Como a eternidade. Conceito-puta, que passa por canções e obituários e lápides (eterna saudade até não haver alguém para a sentir), mas não cabe em nós porque nunca alguém a conheceu, à eternidade. Ou talvez a eternidade seja o absoluto do tempo e a possamos conhecer ao morrer.
Até morrermos andaremos às voltas na mesma rotunda, em contra-relógio, porque certa é a morte, mesmo sem data marcada. Quando fazemos anos, perdemo-los, na verdade.

00:50

Choramos a morte dos outros porque nos lembra a inevitabilidade da nossa. Tal imbecilidade.

00:55

O homem pode medir-se em graus de humanidade através dos seus contraceptivos. Ser civilizado é renegar ao animalesco que é ter filhos sempre que se fode. Só o desconforto que isso daria. Depois do suicídio, enrolar um preservativo à volta da pila é do mais humano que se consegue, como que dizendo, não, não me apetece multiplicar-me.
O homem vem sendo mais humano, desde a tripa à pílula.

01:03

“Todo o vento é vento a favor. Quando soprar dir-te-á a favor do quê.” M.C.

É como escrever. A primeira palavra é a primeira golfada de ventania e o resto é embalo. À bolina não resulta, porém.
E se a vida não tem razão de ser e incompreensível, então até o menor sopro, todo o bafo, qualquer suspiro, talvez um espirro, pode servir de vento.
Porque é sempre a favor - não há mais para onde ir. O arrependimento não te leva a lado algum, muito menos para trás.

01:11

Se morresse agora é provável que morressem verdades inéditas, perdoem a presunção. Não se saberia, portanto não viria grande mal ao mundo. Estou com sono. Dormirei e esquecerei. Mas se nada se cria e nada se desvanece, então eu tenho em mim todas as verdades, não sendo minhas nem acabando por morrer em mim. Posso ir dormir descansado, que sou só uma boca do acaso. Posso ir dormir descansado, que na balança do mundo peso um nada muito confortável e resignado.

01:21

O sermão do sacerdote pode ser bom mas não é a mim que me apanham na missa. O cerimonial romano é obsoleto. O rito é tão servil quanto ridículo. O levantar e o sentar, o balbuciar protocolos, o dar a patinha. Mas, sim, às vezes os sermões são bons, mas afastam-se da fé. Vivem do controlo da conduta. E se é rebanhos que eles querem, serve-lhes mais o cajado que a palavra.

01:37

O que eu digo não se escreve, era o que a minha mãe dizia a um “mas foi o João que disse!”. E, realmente, o que eu digo não se escreve porque não importa.
Se o digo, sujo-o, torno-o impuro, o que digo, aquilo que digo. Se o escrevo, somente, guardo-o; como num relicário.

*

Pensa numa flor, uma qualquer, mas lembra-te do estrume de onde brotou. E não te esqueças das moscas à volta do estrume, mesmo quando te tornares a abelha em torno da flor.
Se todo este cenário bucólico não te anima ou agrada, bebe um café, porque um dia vais morrer. Porquê um café? Não sei. É demagogia minha.  Mas a resposta é sempre café. A pergunta, ah, a pergunta é irrelevante.

*

Esqueci-me da saudade. Quer dizer, ao falar do tempo, esqueci-me de falar na saudade. A linguagem é uma invenção do caraças.
A saudade transborda do púcaro do passado para a estabilidade imóvel do presente, desenrola-se como uma passadeira desde lá longe do já quase inatingível. Mas só nós, os da língua portuguesa, sentimos a saudade porque é só na nossa língua que ela mora.
Somos, então, nós, os portugueses, viventes assíduos do passado. E isso explica tanta coisa.



26/7/12

00:45

Haverá sempre curiosidade e vontade em experimentar se a pele alheia nos serve. De nos olharmos como os espelho nos vê.
Quem inventou o espelho afogou a humanidade em ilusão. A ilusão de se estar para lá do que há. E isso nunca acontece. Tirando os fenómenos celulares, a pessoa que nasces é a pessoa que morres. Não podes jamais fugir de ti. Sair de ti. Será, talvez, um infortúnio eu ter nascido eu e não tu, mas sabê-lo, nunca saberei. Talvez andasse distraído com ninharias e encantos em vez de desenrolar filosofias vencidas. Nasci eu e ninguém mais.
Estamos sozinhos sempre porque as consciências não se misturam. Mesmo quando estou dentro de ti, a minha carne não se apega à tua.
Estamos sozinhos, não nos movemos - tanto no espaço como no tempo. É como se cada pessoa fosse uma parede. Ou demónio, que l’enfer sont les autres.
Não vou poder mandar este corpo para trás e mandar passar mais um bocadinho pela brasa. Não vou ter mais algum que não este, mais vale resignar-me com a carne que me foi dada e lavrar a consciência, estrumá-la, debulhá-la e, enfim, o repasto. É como estender o meu corpo. Cada palavra é um pedaço disforme de pele. Têm suor e outros líquidos. O código genético e afins. Talvez não tão genético, mas terminando no mesmo.
O melhor de não ser alguém mais é ser inédito. Isso não me tiram.
O pior é não poder ser mais alguém.


1:06

praesentia invidia, praeterita admiratione prosequimur

 

*

 

Liberdade é escolher não escolher. Ficar quieto e calado no canto mais recatado da opinião, longe do buliço e da estafa que é o debate. É o mundo a acabar e eu sentado. E, já depois, quando todos tiverem chegado ao fim das opiniões e espremido bem a liberdade em fé e gritaria, poderei levantar-me sem cansaço e falar, sem rouquidão nem fôlego tropeçado. E então direi que o que me apetece é não dizer a verdade que pensei, deixá-la morrer comigo, que ela é só minha. Gritem quanto quiserem. Vão-se foder.

 

1:29

Os sofistas do nosso tempo são aqueles realizadores de cinema que cortam para negro a esconder o fim ou aqueles romancistas que acabam o livro sem acabar a ponta de um corno. Para mim, acharei sempre que não foram mais longe porque não sabiam ou não tiveram coragem. Preferir mutilar uma obra na tentativa de a mistificar? É o fim que dá sentido à viagem, porra. É a morte que te faz estar vivo.
Há mais utilidade num rolo de papel higiénico (e a aventura que ele se acabar) que num romance que quando termina não termina. É um perder de tempo. Pense quem escreve, que a mim só me mandaram sentir.

 

*

 

(…)

As palavras medem-se aos palmos. São mais pequenas que as suas sombras. Não conseguem chegar nem com a pontinha dos dedos frementes ao indizível. Por isso o é, não é? O ênfase, o verbete, a sílaba tónica. Uma palavra é uma parede rebocada. E a porta que está só no trinco…

(…)



27/7/12


00:08

Num dos evangelhos, não me lembro qual, talvez venha neles todos, tanto se me dá, há a parábola do pastor, tão bonita que é, aquele que perde uma das suas cem cabeças de gado ovino e deixa as noventa e nove no deserto à mercê das coisas e dos bichos para procurar essa uma que se perdeu. Volta com a ovelhinha de braçado, ou deposta ao pescoço, agarrando-a pelas patinhas, mé mé, todo sorridente, faz grande buliço entre os seus, quase que levanta arraial, e em verdade Jesus, o cristo, diz que haverá mais alegria no reino altíssimo por um pecador que se torne bom na palavra e na lei do pai, que por noventa e nove justos e bons que não precisam de contrição.
Crendo na gradação individual da contagem pecaminosa, posso só imaginar a pândega e a rebaldaria que não se faria lá no cimo se eu tomasse consciência do que faço e cumprisse penitência.

 

*

 

Eva, carrasco sempiterno, com o seu quanto-baste de feérico, para não querer ferir a moral com o mitológico, deu a maçã a trincar ao seu respectivo e condenou a humanidade ao discernimento. À capacidade de efectuar um juízo sobre as coisas. Que grande porra.
Sabia-se então o nu, "quem vos disse que estão nus?", o nefasto, o errado. O mal só se faz se o reconhecermos. O Wilde dizia que a guerra vai ser praticada enquanto por vista como nefasta, quando a tratarmos como vulgar deixará de ser popular.
Inventaram-se os limites. A ética e a moral. A ontologia. Os romanos esforçaram-se bastante. A lei e a norma, enfim, como garante da liberdade suprema, responsabilidade e segurança - de cada um e para cada um. Porque o homem é ruim de nascença. Creio profundamente. Porque o mal do homem na natureza é inconsciente. O bom-senso não é suficiente. Depois os códigos de valores e as utopias.
Taizé é uma aproximação à utopia. Uma aproximação porque não instaura o dever por dever - fazer enquanto afirmação anterior ou posterior, ao bem universal ou ao melhor resultado absoluto. Fá-lo através de uma religião, que é, que são todas elas, códigos morais com histórias e amuletos metidos pelo meio. Ser bom porque alguém nos diz que isso nos trará conforto eterno é não matar porque será impossível aguentar os remorsos e não porque matar é errado. (O altruísmo é uma farsa.) E o café também é uma merda. Mas é o mais próximo que conseguimos chegar. E não me estou a queixar.

 

*

 

O homem é uma peça a quatro mãos, composta pelo próprio deus, antes de tempo, e pelo diabo, num ensejo quase eterno de tédio que a razão humana não compreende. Cada um deu o melhor de si, que contrastes fantásticos temos em nós, nunca pintor romântico conseguiu reproduzir gradações assim, são outras tintas. Acharam, lá eles, que estava bem, a máquina do mundo, bem afinada e oleada, com os pistões e as correias no sítios, as válvulas bem calibradas a expulsar o devido, tudo brilhando, a cheirar a novo, e atiraram uma moeda ao ar, enfim, a ver qual deles seria o bom e qual seria o mau, que destes equilíbrios há sempre necessidade; são os rigores diplomáticos.
Há alguns rumores, correm boatos, que já se sabe qual é qual, mas em verdade, em verdade vos digo, a tal moeda ainda está hoje a revolver-se no ar, balanceando-se na própria leveza do estanho, muito em câmara lenta, como na TV. E desconfio que isto é plano para cortar para negro em vez de fazer fade-out.

 

*

 

Somos um pavio. Mas eu não sei dizer, sabendo que sou uma vela acesa, o que vem a ser a minha chama. Mas ilumino.
E ter pena de um morto, quão egoísta não é isso?

 

*

 

Andamos sempre esquecidos que andamos sempre na busca da razão, por mais efémero, imediato, nefasto ou mesquinho. Se o Pessoa dizia que a única razão para amar seria amar, então eu digo que viver é razão suficiente para viver.
Portanto, se me permitem, vou dormir.

 

19:33

"A nuvens alaranjadas do poente iluminam tudo com o encanto da nostalgia; mesmo a guilhotina."

- Milan Kundera

 

publicado por Gualter Ego às 22:22 | link do post | comentar
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