A vida aborrecida de um serial killer I

Ele não sabia porquê, nem que força estranha era aquela que lhe arrepiava a espinha e o impedia de mexer sequer um músculo, mas sabia que a queria. Era pouco daquilo que, achava ele, o podia atrair numa fêmea: cabelo negro, apanhado, nariz pequeno, olhos quase verdes, pouco peito e, talvez, magra demais, mas com um sorriso imaculado.

Como é que sabemos do sorriso dela? Porque todo o caixa de supermercado que se preze, sorri depois de dizer "Bom dia." ou "Boa tarde."

 

E ele estava ali, quieto, imóvel, com os óculos quadrados meticulosamente direitos, enfiados na cara fina e magra.

Ela foi passando as compras e metendo-as nos sacos de plástico e ele continuava ali, sem se mexer, só a olhar para ela.

 

- São dezanove euros e cinquenta e três cêntimos. Vai pagar com dinheiro ou cartão? - perguntou.

Ele esticou-lhe uma nota de vinte, recebeu o troco, agarrou nos sacos e caminhou até casa, em passo apressado.

Ele suava, tremia, esfregava os olhos, puxava o cabelo para trás.

Não sabia se a queria matar com a mais sensual das mortes, se queria morrer por ela, se estava era morto de amores.

Por enquanto, mete água a ferver para o chá, senta-se na poltrona e acende um cigarro.

publicado por Gualter Ego às 22:02 | link do post