avó

Espremes o pano amarelo e a água pinga no lava-loiça. Cornucópias de espuma e restos do jantar que se escorregam pelo ralo. Os talheres sibilam num esfregar de metais. Ontem, como hoje, a imagem mais nítida que tenho de ti - e a maneira como repetias três vezes, sempre, o que mais na frase querias que se ouvisse. Limpavas as costas das mãos à bata florida e dizias para eu pôr na novela, que já estava na hora. O gato saía do meu colo para o teu, dava três voltas e enrolava-se em si próprio, entre as tuas coxas. Hoje, quando me vês, não sei que olhos são esses que me vêem, mas brilham e rasgam-se quando dizes, recebendo-me, “ai, o meu moço, tão grande!”. Foste quando me ensinaste a rezar, foste quando me mostraste como se mata uma galinha, foste todas as vezes que me disseste “come isso com um pão, ao menos”. Avó, não sei se és, mas eu fiquei e ainda estou nesses sítios todos. Se falas de mim no presente como a criança que nasceu há pouco, quem sou eu para to desmentir? Melhor assim, caibo ainda no teu colo.

publicado por Gualter Ego às 23:29 | link do post