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(Como a erva nova, tímida e reticente, nos rasgos de terra arada, se alevanta tão direita e tão certa, querendo chegar ao céu de uma vez só, tão verde e tão fresca e tão frágil; e como o orvalho lhe pesa e sem culpa de o fazer a verga, a luz fúlvia da manhã me tolhe, abraça-me e abafa-me com um luto estranho e aveludado e atrasa-me para a vida que não vejo nem posso ver. Quero demasiado para o pouco que sei. Atravesso tundras de gente todos os dias, fábulas de azar e um existir incómodo que me aborrece [e emburrece] de morte.
Não te entender é fazer amor contigo. Quero-te demasiado para o pouco que sei. Uma vontade primeva de beber da tua saliva e me esvaziar em estalos de pólvora dentro de ti. Como a tua língua me ilumina - 
Como um telefone a tocar que me desarruma por dentro, ou o fumo de um cigarro que me irrita os olhos ou um chamar pelo meu nome que me sobressalta - quando chamas pelo meu nome e me sobressaltas. Faz tanto tempo e não faz tempo nenhum e tenho-te tanta fome. Tanta, tanta, tanta, que me atrapalhas a fonética e me engasgas o que está certo. Um beijo, só.)

publicado por Gualter Ego às 23:29 | link do post