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Quiséssemos ou não, não havia tresmalho. Sequer tentativa de nos negarmos à confissão e devida penitência. Um a um, a petizada mais parecia um rebanho de ovelhinhas de carnadura jovem e tenra, cada um, maquinalmente, a benzer-se ao pai, ao filho e ao espírito santo, com as rótulas moídas a raspar no soalho, a confessar como pecado o não ter ajudado a mãe a fazer a cama, ou o ter dado umas chapadas àqueloutro que trapaceou no jogo da bola. Debitava-se de um gole repentino o acto de contrição, sem sabermos o que dizíamos - que importa?, as noções mais puras são as ingénuas, que o caminho para o inferno está calcetado de boas intenções e ideias de desvario - e púnhamo-nos a dois a dois à frente do cristo na cruz, com a pose habitual, os braços estendidos até às pontas, pregados cada um com cavilhas de oito polegadas de roda, pés sobrepostos também martelados, pedaço de pano a tapar as singelas vergonhas de deus-filho, coroa de espinhos a voltear a testa e a face disposta sobre o peito, num ar muito sorumbático, o de sempre, de quem está cansado de estar ali, para sempre, e de ter que ouvir os miúdos rir no meio dos padres-nossos que lhos fazem repetir três e quatro e cinco vezes, para lhes salvar as almas não sei do quê.
A minha avó sempre me disse que enquanto fosse miúdo e não soubesse das mulheres não havia ruindade que me tirasse o lugar no céu.

publicado por Gualter Ego às 22:41 | link do post