Quinta-feira, 18.10.12

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Sei (ou não, mas o mais provável é que assim seja) que o sol vai continuar a nascer todas as manhãs, que os rios vão continuar a correr para o mar, que a chuva vai continuar a cair para baixo e que nenhuma lei maior da cosmos se vai alterar quando eu morrer.

E essa é a piada mais nuclear da realidade - ela continua.

publicado por Gualter Ego às 23:21 | link do post | comentar

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Vendi a alma ao diabo. Agora é problema dele.

 

Os copos foram feitos para encher, ou não teriam sido feitos até ao cimo.

publicado por Gualter Ego às 23:19 | link do post | comentar

O soneto possível

Mirar rasgado,
Sob o cabelo rastejante,
De plangência etérea,
Demoníaca o bastante.

Pele fria, em cal viva,
Lividez de brilho - marmórea,
Lábios cortados, num sopro, que
Beijam e queimam e gangrenam na memória.

E se lhe acravasse, no boca, um beijo,
Num laivo de insensatez picada,
Quedaria socho, por consumado.

Amor não é, se amor sobejo,
Uma fome santa aliviada,
É, somente, haver sonhado.

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publicado por Gualter Ego às 23:12 | link do post | comentar

Piaf.

Lembrar as goteiras que vertiam, chorosas, pingo a pingo, a levada de um Outono a findar. Lembrar o cheiro da tua cama, do teu travesseiro e do teu cabelo. Lembrar todas as voltas e geometrias do teu corpo, como se me baptizasse de ti, por ti e em ti, em nome do calor e de todas as coisas, visíveis e invisíveis, enquanto Mme Piaf adivinhava que ici c’est comfortable.
Soubesse ela o quanto.

 

publicado por Gualter Ego às 23:06 | link do post | comentar | ver comentários (1)

Discurso desindirecto.

- Não nasceste num berço de ouro nem em estrume deitado; a esse intervalo demográfico que se vai arrastando pelo lamaçal das valetas dá Deus sempre uma vida longa, louvado seja o Seu nome, nem que se deixe pele e osso na farmácia.

publicado por Gualter Ego às 23:06 | link do post | comentar

Beijos à família

(Diz a populaça que os homens não se medem aos palmos, mas não dizem a direcção, se não se medem em altura e, por oposição, se podem medir por largura ou vice-versa. Certo é que a minha avó pouco me dizia sobre os lances que costumava dar no verão, de cinco ou mais centímetros para cima, parecia que ganhava figurações de ficar espigado como a raça que me adivinhavam dos lados mais paternais, mas lançava-me as mãos às costas e contava-me os palmos de margem a margem, ombrada a ombrada e dizia, ai mas este moço traz-me um corpanzil danado, e ia-me fazer mais um paposseco com manteiga, que eu não gosto de marmelada.
Portanto, e se já a sabedoria anciã mo previa, amigos, camaradas e concidadãos, agora que essas mãos enrugadas e cheias de trabalho já só têm força para se me pousar nas minhas sem pesar nem áspero, ficai sabendo que ainda mais se me agigantaram as espáduas, falai o que aprouver, tenho as costas largas. E se mesmo acham tais medidas inválidas, anacrónicas como a arroba e o alqueire ou por si só inúteis e subjectivas, olhai que já não sou nem imberbe nem tosco, já sei bem o lugar que tenho de ocupar, chamem-me blasfémio, convencido, comunista, anarquista, filho de um mocho, que seja, tenho as costas largas.
Não é uma carta aberta isto que vos escrevo, embora empregue a pessoa verbal a indicar tal, é mesmo só pelo hábito e preguiça de mudança, e a coloquialidade até é saudável e o que é preciso é saúde e em primeiro está a saúde. Tampouco me estou a blasonar, ter cá andado uma fracção singela do tempo que andarei é sorte, mas já acartei o meu devido braçado de deveres para as luas que vi passar.
Beijos à família.)

publicado por Gualter Ego às 23:00 | link do post | comentar

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vou resumir a
metafísica ao que me
compete e bater uma antes
de ir
dormir

publicado por Gualter Ego às 23:00 | link do post | comentar

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Li, num periódico de beatas,
Que é do estrume mais putrefacto
Que nasce a mais bela flor.
E querem convencer-me disso;
Que é do nojo que nasce toda a beleza;
Que mais bonito é aquele raio de sol
Que resvala na merda;
Pois bem, mas não sou estrume nem lírio,
Antes aquela mosca que vedes, incerta e tonta,
Comendo de onde sabeis, com o regalo de sempre,
Com a resignação genética dos pobres,
Quedando-se, tosca e repastada,
À mercê de um estalo certeiro.

Dobra a meia-noite.
Pende-me solta a alma.

publicado por Gualter Ego às 22:57 | link do post | comentar

Bocejo

A ideia vem e passa e não larga semente. A palavra vem e passa e não transborda tinta. A mão vem e toca, mas só leva despojos. E eu bocejo, porque não há nada mais que eu possa fazer. E não será a vida mais que um bocejo; um longo, enfadonho e vergonhoso bocejo sem mão à frente.

publicado por Gualter Ego às 22:55 | link do post | comentar

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Penoso é acordar sóbrio
E suspirar
Ah, realidade.

Isso sim,
Dá-me cabo da alma.
Ao fundo das costas.

publicado por Gualter Ego às 22:53 | link do post | comentar

...

Certas vezes vem-me à ideia que a minha vida não foi feita para mais que um triste escanhoar de barba, sempre de contra-mão, sempre contrariado, toda a hora insatisfeito, o enredo de um daqueles romances tristonhos que vinham por fascículos, quando a história aquecia acabavam-se as palavras e tinha que se esperar às vezes três-quinze-dias para retomar a linha de prosa. Triste ladainha é a vida (a minha, que da vossa não saberei nem quero fingir que sim), que não chega a triste o suficiente para se tornar em engenho poético. Triste, triste.

publicado por Gualter Ego às 22:39 | link do post | comentar

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- Isso, coca-cola é da pior merda que podes meter dentro de ti, a pior merda, digo-te eu, essa porcaria metes aí um prego e fica aí uns tempos e desaparece, imagina o que isso não faz ao estômago de um gajo

 

ladrou o do boné azul, chupando mais um bafo ingénuo de Português Suave. Ao menos que lhe vá sabendo bem. A morrer andamos todos, jovem.

publicado por Gualter Ego às 22:38 | link do post | comentar

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Não mando nas vontades nem nos apetites, mas de que vale ao paraíso ser o paraíso se é mal frequentado?

publicado por Gualter Ego às 22:34 | link do post | comentar

2011

publicado por Gualter Ego às 22:23 | link do post | comentar

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Quando a minha mãe deu de me parir,
Com certeza já eu vinha cansado
De outras lides.


Só assim se explica a dor que é,
No pescoço, a rir,
E corpo tão novo e já tão moído.

publicado por Gualter Ego às 22:18 | link do post | comentar

Das pequenas coisas quase nenhumas

Fiz um bolo.
Podes cá vir comer uma fatia
E fingir que queres conversar.

Posso fazer chá,
Também, e fingir, por um bocado,
Que não penso em me matar.

publicado por Gualter Ego às 22:16 | link do post | comentar

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- Zé, mas tu não tens frio?
- Frio eu tenho, não tenho é casaco.

publicado por Gualter Ego às 22:15 | link do post | comentar

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Ter poder é ser-se omnipresente e ficarmos escondidos. Se Deus existisse nós não o saberíamos e isso não nos incomodaria.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

(Há dois mil anos que ele não nos aparece, estará a maturar?)

publicado por Gualter Ego às 22:12 | link do post | comentar

12 de Outubro

Deram o Nobel da paz à União Europeia. À abstracção que é a União Europeia. Ao polvo mercado-crático que é a União Europeia. Deram o Nobel da paz à União Europeia, por unir o continente. Se há necessidade de união é porque não nascemos colados. Se nos unimos é porque somos diferentes. E à união de povos diferentes sob o signo de um poder absoluto dá-se o nome de império. Os Césares tinham um império. Hitler tinha um império. Bruxelas tem um império A União Europeia é um império sombra, sem czar; a casa de um ferreiro onde o cavalo não tem ferradura. A União Europeia é um dantas. É o seu próprio parasita. A União Europeia é a Desunião Europeia. Se Saramago estivesse vivo, mandaria derreter o seu galardão.

publicado por Gualter Ego às 22:11 | link do post | comentar

8 sem tirar

Anda aqui um gajo a escolher as palavras com mãos de cirurgião, a medir os versos à régua e a calibrar a prosa com fio de prumo, a ler contos, recontos, novelas, noveletas, histórias e lendas e mentiras, compêndios, enciclopédias e dicionários disto e dicionários daquilo e romances deste e daqueloutro, a ler o que é bom para aprender e o mau para saber porque se aprende, a ver se fica mestre nas artes do falar por escrito; e ela chega, desinstruída e desinteressada destas lides, e fala, ainda tenho as pernas a tremer, e juro que sinto mais coisas que as coisas que os meus leitores, se os há, podem ou poderão sentir das coisas que eu (lhes) escrevo.

publicado por Gualter Ego às 22:06 | link do post | comentar

Suíno

Ó, suíno feio inchado,
Bruto de ser (de estirada),
Jaez lâmina
Através
Da papada,

Tez
E jeitos de besta imunda,
Que grunhes à maneira vil infame que é
Essa maneira de morrer tão fecunda:

Diz-me só porque esperneias,
Com a faca pela goela
Se não sabes do norte nem da Morte,
Ou do que mais vem com ela.
publicado por Gualter Ego às 22:06 | link do post | comentar
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