Segunda-feira, 01.08.11

Vive la France.

E então, o homenzinho pequeno, redundância proeminente mas não menos necessária, visto tratar-se de um homenzinho, por eu ter ganho por ele afeição momentânea de caridade pelo espírito de novidade e no diminuitivo isso se poder espelhar, redundando por ele ser realmente pequeno, mas um pequeno francófono que é uma pequenez singela, sem complexo de inferioridade - é um pequeno francófono, ostentando uns largos óculos de massa na ponta do nariz delgado, vestindo um horrendo fato-de-treino branco e azul-escuro, com um cabelo salpicado de branco e cinzento, são as fatalidades da idade, e um bigode farfalhudo e imponente, ondulado, quase atrevido, a desenrolar-se-lhe no lábio superior, esticado e também acinzentado, tendo pacientemente esperado sua vez, disse, naquele tom agudo natural da língua francesa, uma das suas muitas singularidades, meio disfarçado pelo cortejamento vão da empregada-de-balcão:

 

- Une baguette, s'il vous plâit...

 

E o senhor disse aquilo com tal ternura, proferiu uma frase que me pareceu ser-lhe trivial - era uma padaria simples, entrar e sair, fila pequena, troco na hora, numa vila recatada entre os vales húmidos da Borgonha - com tal humildade e certeza na voz, o francês bem dito é como veludo a passar na epiglote que se derrete na língua, que eu próprio me senti arrebatado, quase que num filme, perdido na tradução, sei lá, naquelas ruas direitas de tão tortas e cheias de curvas, velhas e cheirosas, a cheirar a pão e a manteiga e a café e a histórias e a pessoas. Era um cheiro que quase se podia mastigar e degustar, quase que se podia entrelaçar na língua e sentir o paladar; é a sinestesia, creio eu, típica dos sítios novos.
Era como se as ruas elas próprias falassem o francês em passos e as paredes me quisessem beijar, puxando juntos os seus lábios metafóricos como quando se vai para beijar alguém à moda antiga (a mocidade de agora pouco tem que ver com a do meu tempo), ou como quando se vai para falar francês. Toda a gente sabe que o francês se fala como que estando prestes a beijar alguém. Sabes isso, certo?

Cada esquina que dobrava sentia um aperto no peito, porque não tinha sido ainda ali que a Amélie saltava para o meu lado, me dava o braço e me levava a passear, dizendo que la chance, c’est comme le Tour de France. Que on l’attend longtemps et ça passe vite. É a vida...

O homem virou-se, com a baguete debaixo do braço, quase que como segurando uma espingarda de uma maneira pouco formal, ou pouco ortodoxa, podemos dizê-lo assim, disse excusez moi e saiu por onde entrou, o sininho por cima da porta fez derlim-derlim. 

Un pain au chocolat, s'il vous plâit, disse eu, tendo sido chegada a minha vez, tentando acertar no sotaque e sorrindo ao mesmo tendo, e acho que tive sucesso que a menina sorriu para mim também, deu-me o saquinho de cartão com o pão de chocolate quentinho e crocante lá dentro, mais os vinte cêntimos do troco, disse-lhe merci beaucoup, que sou gaiato mas sou educado, sorrindo durante este gesto inteiro, o meu humilde contributo para a economia francesa, em especial para a indústria da panificação, a menina sorriu-me outra vez e acenou positivamenta com a cabeça uma vez, como que me saudando e dizendo, vai em paz, homem, país de gente simpática, este, e eu saí por onde entrei, o sininho por cima da porta fez derlim-derlim. Vive la France.

Corta.

publicado por Gualter Ego às 22:02 | link do post | comentar

A Canção do Américo Baltasar.

Américo Baltasar,

Farto da sua vida de azar,

Farto de porrada e mal-viver,

Saturado do escárnio e do mal-dizer,

Concentrou toda a coragem

E nadou prá outra margem.

 

Ia na sinistra esperança,

De encontrar amores perdidos e fiança

Para todos os crimes de paixão;

O perdão de todas as donzelas

A quem partiu o coração.

 

Quando lá chegou estava descalço

E aconteceu-lhe este percalço:

Pisou cardos e espinhos,

Pedras e calhaus,

Saiu de lá roto, nu e despido,

Como um mártir desvairido.

 

Queria, depois, encontrar donzela decente,

Das que cozinham, lavam e são boas de dente.

Talvez casar e acentar,

Construir uma casa e procriar.

 

Mas deu-lhe a sede e desceu à tasca,

Começou a beber e viu-se à rasca.

Ganhou fama de gandim, devedor e caloteiro,

Bêbado, borracheiro!

Deixou de ter fiado e agora pesa-lhe o coração,

Só bebe água... nem sequer prova o carrascão.

 

Voltou para a sua terra natal,

Onde nunca ninguém lhe quis genuíno mal

Diz que lá envelheceu e ganhou cabelo branco,

No alpendre de casa a tocar harmónica sentando num banco.

 

Outros dizem que se enforcou,

Enrolou a corda no ramo de uma azinheira,

E de lá se tombou.

Outros ainda que morreu de caganeira.

 

Mas ninguém sabe ao certo,

O que aconteceu a Américo Baltasar, 

Que era homem de pouco vocabulário.

Dizem que nem teve direito a carro funerário.

 

Na lápide ficaram gravadas as datas fatídicas,

O nascimento fortuito e a morte dicreta,

Fosse a vida como a morte, estreita e directa

Não tinha Américo Baltasar sofrido tanto,

E não estaria eu aqui, a dedilhar sofrido canto.

publicado por Gualter Ego às 14:40 | link do post | comentar | ver comentários (3)
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