Anónimo.

Estou cansado de mim e deste mal-viver.

Por mim acima sobe um arrepio com sotaque francês e arrogância niilista, um formigueiro agudo que nada mais me traz senão a nostalgia de um tempo que não vivi, como se culpa fosse minha, e só minha, por ser a mais serôdia criatura na máquina do mundo. 

Será, talvez, audácia extrema o sair da cama todos os dias, lavar-me, vestir-me, pentear-me, aperaltar-me, enfim, cair no regaço da vaidade. Vestir o que está nu apenas porque o pudor existe nos olhos do espectador e nada a mim me traz mais tristeza que me ver em indiferença nos olhos dos outros. Porquê, mãe?

 

E depois, que o mundo rode à minha volta? Ahn?! E então? Não há-de vir mal algum daí, julgo eu. Vós estais apenas invejosos. Invejosos, sim! Filhos de uma grandessíssima puta. E a vossa mãe sem ter culpa nenhuma de vos ter parido, seus pedaços de carne avulsos que não merecem o polegar oponível que o Darwin vos deus. Sacanas de merda. Abortos falhados, punhetas com a mão esquerda, é o que vos sois!

E eu que nunca uso um maldito ponto de exclamação, porra! Porra, porra, porra! Digo as asneiras que me apetecer, caralho. Sim! Digo-as todas de boca cheia. Deixem-me dormir, porra. Ah! Fo, da, se.

Quem tento eu enganar é o próprio canalha. Roubar ao ladrão não são cem anos de perdão, mas cem anos a sentir que o seu peso é inteiramente estrume a preço de armazém. E lá vem o bêbado franzino com a barba por fazer e o sobretudo de cinquenta paus a raspar pelo chão, com um Dostoievski debaixo do braço e um cigarro de enrolar nos lábios entreabertos, a piscar os olhos com muita urgência e muita fatalidade. Cuidado que ele é mau. Cuidado...

 

 

 

 

 

Quando eu morrer, façam flautas de meu ossos e da minha pele façam tambores; para que alguma alegria saia de mim, que não aquela com que eu mascarei toda a minha vida.

publicado por Gualter Ego às 23:09 | link do post | comentar