O Ti' Zé.

O Ti' Zé era um homem como já não os há: cheirava a quem só se lavava em vésperas de festas sagradas e dias santos e deitava um bafo a vinho da boca que, de tão azedo que era, seria capaz de trazer as tripas à boca de qualquer menino. Era homem que nunca bateu à mulher, nem sequer ao filho, e sempre que chegava a hora da refeição ia-se pentear para não ir mal arranjado para a mesa. Falava muito alto, porque a sua mãe havia sido surda e aquilo ficou-lhe de jeito e feitio. Gostava de chapéus, 58 de volta, tinha a cabeça pequena, e de suspensórios.

Não conheceu outra vida que não aquele de estar debruçado sobre a terra, de enxada nas mãos cheias de borregas, com os pés encardidos até ao osso, cheios de calos, dentro das botas de couro com fivelas de aço, que ramalhavam quando ele batia o pé. Ia à missa todos os domingos, para dormir o seu bocado durante o sermão. Dava uns tostões para a caixa da esmolas e sempre se achou muito limpo de consciência, porque era um escravo da terra e das obrigações e andava sempre de crucifixo e Jesus ao peito, sempre protegido.

Nunca soube o que era corpo de mulher se não o da sua respectiva. Pudera, coitado, aos 17 anos já estava casado e pouco depois já tinha emprenhado a mulher um punhado de vezes. Não me parece que alguma vez a tenha encornado e creio que nunca ela o encornou a ele. Uma vez, o Farinha embebedou-se na adega de um vizinho e meteu-se-lhe na cabeça que queria matar o Ti' Zé, contaram-me, mas nem conseguiu subir os degraus da porta, tal era a bardascana que tinha apanhado.

Era homem que passava muitas tardes de Verão a navalhar o seu bocado de cortiça até o sol se pôr, ou a desfolhar feijão mais a mulher, para se entreter, enquanto escutava um miguelho de telefonia, para saber das notícias e do seu Benfica.

Um dia, faz agora uns poucos anos, depois de um último copo de aguardente do cardaço, pôs um nó de corda à garganta e pendurou-se do tecto da adega.

 

O Ti' Zé era um homem como já não os há.

publicado por Gualter Ego às 18:53 | link do post | comentar | ver comentários (2)