Segunda-feira, 18.04.11

Choveu.

Junte-se a terra seca de um desatino divino em relação às meteorologias em tempos em que a fecundidade dos montes se está a abrir à chuva tardia dos provérbios, antigos e cheios de pó, e é este o cheiro que daqui se tira, como se a terra se tivesse cozinhado a ela própria.

Cheira a bichos e a erva e cheira a chuva e a terra.

publicado por Gualter Ego às 22:01 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Carta à Sara.

 No exacto, certeiro e fértil minuto daquela tal e tão longa hora da aleatória tarde de estio, em que a luz pálida, fosca e opaca das coisas ejacula as sombras de dentro das sombras para o suor das carnes terrenas, como que polindo toda a matéria e fazendo dela cintilar toda uma transparência de palavras, tal que se conseguia mastigar e saborear, apanhá-la com as mãos e deixá-la escorrer por entre os dedos até ao chão que parecia não existir, porque flutuávamos, transbordaste-te sobre mim.

E escorreu em mim a ânsia do desconhecido aquando o estalar seco e metálico da fechadura escura e fosca da porta de madeira tenra e forte e uma vendaval ali se montou quando deixou de haver apenas ar e nada, e passou a haver vento, arrepio e tu. (O mundo é o que é aos olhos de quem o vê, assim como uma besta de carga possa ver o mundo em sombras, ou um podengo o veja a preto e branco, ali eu só te via a ti, o meu mundo.)

Lembro-me, agora, que ouvi todas as trombetas do Céu, a vibrar firmamento abaixo, todo aquele fôlego conjunto, esforço divino de anjos e arcanjos e outros bichos-homem alados sem sexo, como música de fundo de todo este cenário. E, depois, na maior simplicidade que pode haver na poesia do teu amor e no lume imaculado do teu sorriso, assim me sorriste tu e terás dito olá. Não sei, porém, se o disseste verdadeiramente ou não, não por culpa tua ou minha, nem por distracção, antes porque mal teus lábios, que nem os portões de marfim do jardim do Éden, se abriram às pérolas do teu sorriso divinal e envergonhado, ressoou na minha cabeça o mais belo nocturno de Chopin, de um lado para o outro, fiquei tonto e confuso, e a música continuava, superlativa a todos os outros sentidos, menos à vista, que satisfazia a fome do amor à primeira vista.

 

Amor é isto, direi, mas não há dicionário que suporte o peso dessa palavra, em sua real génese e seu inteiro significado, por o amor assim se achar mera palavra, que é puta em toda a boca que esteja a passar pela puberdade.

Se o amor se anda assim a rastejar pelas valetas da Rua da Amargura, então terei que separar as águas: o que sinto por ti não é amor, é Amor.

 

Será amor eu dar de mim absoluto, e me entornar no teu cântaro até onde me deixares verter a minha paixão e as minhas cansadas palavras. Será amor deixares-me beber-te sempre que tenho sede, e quando a sede é só fome. Será amor? Amor será, com certeza.

 

(Digo que te amo sempre com visível desconforto, não que não o sinta em todas as palavras que te dedico, mas porque as palavras são fracas e eu idem, voláteis, elas, sensíveis, deterioráveis, e não te merecem chegar perto com voz segura.)

 

Escrevo-te isto e é tarde, devem ser umas três e meia da manhã, tirar ou pôr, e o cão da vizinha não me deixa dormir, ladra para este lado e ladra para aquele, corre em latidos, e eu aqui a rebolar-me nos lençóis sem conseguir adormecer. Um dia destes dou-lhe um tiro. Talvez isto seja uma carta e, se for, se assim tiver que ser, por forças maiores e leis universais, então, será ridícula de todas as formas e isso não me incomoda.

Amo-te. Simples assim, como quem diz pão, ou nuvem; amo-te, porque quero, posso, mando e preciso. Amo-te, apenas porque sim, porque que se digo tenho sede é porque sim, tenho sede, então se digo que te amo é só porque te amo e todo o mundo terá que se consolar com esta justificação: amo-te porque te amo e basta.

Amo-te e repeti-lo-ei quantas vezes forem as vezes precisas.

 

Pausa.

Enrolo-me em pensamentos e começo a desconversar comigo próprio. O cão parou de ladrar.

 

AMO-TE.

Ou je t'aime, para variar, I love you, para relembrar.

 

Chiu, que há gente a dormir... E eu aqui, tolo de febre, acordado em efémeras declarações de amor juvenil.

 

Mas não serão essas mesmas declarações de amor que nos têm vivendo? Como que a essência do mundo for viver em função do amor de outra pessoa.

Homem não chora, diz-me meu pai, a não ser que seja por fêmea.

E eu não sou fêmea, tanto quanto sei, pelo menos não o era da última vez que apalpei, pronto, não sou, e choro por mim.

 

Queria levantar uma revolução contra o que sou, despedaçar cada bocadinho de mim e baixar o corpo à terra, mas como posso eu fazê-lo quando me assegurar que amas este cobarde depressivo?

 

(Senhor, tendo piedade d'Ela e dá-lhe algo melhor que eu.)

 

Vou dormir, agora. E o cão já se pôs a ladrar de novo.

publicado por Gualter Ego às 20:58 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Trovoada.

Choraram-se as naturais lágrimas.
(…)
João Francisco Mateus deixou um quintal e uma casa velha. Tinha um cerrado no alto da Vela. Levou anos a limpá-lo do pedras até que a enxada pudesse cavar em terra fofa. Não valeu a pena, as pedras já lá estão outra vez, afinal para quem vem um homem a este mundo.
 

— José Saramago, Memorial do Convento

publicado por Gualter Ego às 20:56 | link do post | comentar | ver comentários (1)
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