Quarta-feira, 09.03.11

O outro.

Sabendo que não há diferença empírica entre os átomos de uma entidade viva e os de uma entidade que já não é viva, ele ia atrasando os movimentos da lâmina na candura da palidez falecida, não haverá pressas, que a donzela está dormindo em função da eternidade, só a vai deitar fora quando já cheirar a podre. Segue olhando-a, e à sua rigidez de carnadura, enquanto esfregava a tesão, fumando um cigarro, lentamente, e cada travo de fumo é um suspiro pesado, a morte em cada um deles, pedaços, nada mais há que pedaços, e ele só fuma por ser demasiado preguiçoso para ser matar.

A cada piscar de olhos as paredes do quarto apertavam o espaço em largos jorros de alucinação e nada se ouvia senão um respirar pesado. Que bonito é o cessar de existir, não, eu não sou louco, acho a morte algo verdadeiramente belo, é a vida, por tanta morte a morte ser, expirar pela última vez, o último pestanejar, o derradeiro pensamento, a luz, haja luz ou não, seja um túnel ou uma escada, o cortejo fúnebre, as honras do enterro, ir deitado, hermeticamente selado, de fato e gravata, com as mãos sobre o peito, sério e sereno. E depois era apenas o caixão que oferecia resistência aos processos biológicos e químicos, e mais o que seja, da decomposição, os vermes, do pó ao pó, do buraco ao buraco, não somos nada mais que comida andante para vermes. Haja Inferno ou não, com certeza que o Diabo não me iria querer por lá. O meu avô dizia que o Diabo capava todos os homens que entravam no Inferno, para ficar com as pecadoras e as putas todas para ele. S. Pedro nunca me deixaria entrar no Céu. Talvez fique por cá, a assombrar-vos, a fingir que sou o assobio do vento das portadas da janela do teu quarto, ou o ranger do soalho quando te levantas de noite para ir mijar. Hão-de pagar pelo inferno que eu vivi. Morrer só é sinal que se esteve vivo.

Portanto, ele olhou-a nos olhos e salivou. Esfregou a sua face na dela e sentiu-lhe o gelo que era a pele, sentiu um zumbido quente no ouvido que lhe arranhava o cérebro e lhe escorria de desejo a mão até à púbis negra do corpo, que já não seria homem, nem mulher, apenas um corpo, que ali tinha prostrado ladeando-o, como um acólito de um ritual perverso.

A sua boca parece que sorria, como os cisnes cantam em júbilo antes de morrer, e ele beijou-a. Não se trocaram salivas, por só de um lado a boca estar molhada, mas nunca ele tinha beijado lábios tão sedosos. Passou-lhe a mão pelo sangue seco e quente que se fazia mostrar como um fio de diamantes, ou antes rubis, pela cor. Tanta vida houve que o sangue havia jorrado da carótida até ao tecto, podíamos pintar as paredes com esta vida escarlate, que fumegava no frio no quarto.

Tomou-a uma vez mais, fez dela o que quis, e quando se veio começou a chorar.

Ela ainda cheirava ao outro.

publicado por Gualter Ego às 19:27 | link do post | comentar

As três tentações de Cristo e a redenção de Satanás (O Evangelho Segundo Eu)

Isto não é ar, o que se respira. Sente-se o calor da terra, a terra do deserto, na língua que bate como papel velho, amarelo e saboroso, no céu da boca. Jesus por aí vai, pelo deserto, caminhando lentamente, fustigado pelo sol que lhe bate na face pela esquerda, que o sol vai por nascer, foi parido pela terra, ainda agora se acredita nisto, suando tanto que as gotas lhe pingam da ponta do nariz ao evaporar antes de tocar o chão. E o chão está seco, morto, solúvel. No chão sente-se a poeira na ponta do pés, o calor de respirar o pó da terra castanha que não faz nada, não se mexe, não faz nascer erva, nem corre horizonte para que os olhos se alegrem. Jesus está ali, a andar em círculos, vai para quarenta dias que por ali anda, comendo gafanhotos, dormindo ladeado de pedras, achegando-se em posição fetal para conservar o calor. Calor, frio, fome, calor frio fome, és mais homem que filho de Deus, aqui submetes-te a tudo, hás-de te arrastar pelo chão, sujar a tua pele de Messias na lama seca e gretada, que já não é lama, hás-de morrer, aqui. Do Espírito vieste, ao pó tornarás, do pó te levantarás, mas foi o Espírito que te trouxe aqui, que teu Pai não sabe ao certo pelo que te vai na cabeça, não sabe se te tornaste mais filho da tua mãe, que filho Dele.

Ofegante, Jesus caminha, não tem nada mais que fazer senão caminhar, arrastando as solas dos pés, os dedos, a fome, o cansaço, a barba por fazer que só lhe traz comichão. Caminha, é o que o corpo lhe diz, nada mais se pode negar senão o que o corpo pede, mas ele não o faz. Não é de corpo, isto que o faz andar. Não vê mais nada que não a distorção ondulante do calor que mergulha na terra e dela se levanta. Deserto, para sempre. Ao fundo, porém, algo, ou alguém, caminha em sua direcção, vestindo preto. Aproxima-se a cada piscar de olhos. Agora, sim. Que figura horrenda, pálida como a neve, fria, também, vestindo uma toga negra, grossa, com os dentes podres, pontiagudos, lambendo os lábios secos num esgar neurótico de quem se sabe carne faz pouco tempo. Era Satanás, olhando Jesus nos olhos, rindo, sorrindo, que homem feio que Satanás é, cheira mal, cheira a mortos e cheira a enxofre. Jesus caiu aos pés de Satanás. Faz dez dias que Jesus não sabia o que era pôr algo à boca, nem mais a saliva se lhe sabia no goto, nem saliva mais ele tinha, ou então evaporava-se. Satanás, o tentador, disse-lhe, pegando-lhe no queixo barbudo: "Se tu és o filho de Deus, ordena que estas pedras se convertam em pão".

Jesus ficou calado. As pedras que por si tinha à frente escaldavam que nem fogo do Inferno, postradas ao sol eterno, que nem vida tinham nem vida tiram, ilusionismo do tempo e dos calores da terra, nada mais que objecto de matança ou de matar a fome, segundo Satanás.

"Está escrito" - respondeu-lhe Jesus, de olhos fechados, mas de queixo levantado, a meio de um suspiro - "nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus".

Uma tentativa falhada, mas Satanás sorria, como quem dizia que a batalha estava perdida, sim, muito bem, mas eu vou conseguir torcer-te.

Então, Satanás, começou a andar na direcção a que Jesus virava as costas, como quem ignora o Filho de Deus perante si curvado, mas Ele seguiu-o, tinha fome, tinha sede, era curioso, queria saber, embora já soubesse, estava a divertir-se, a brincar com o negro da alma e dos dentes de Satanás. Digo-vos que Satanás só é Rei das Trevas porque escolheu cara e saiu coroa, e assim se faz o homem acreditar que tudo é uno e bom, quando tudo é apenas uno, bom e mau, lícito e ilícito, justo e injusto, tudo Teu pai fez, meu Jesus, dele saiu a fonte do Mal, negro como a noite, ardente como o fogo.

Enveredaram para o cimo do templo, flutuando na leveza do ser mais que Homem; uma lufada de ar fresco, pelo menos não tão quente como o que se arrastava pelo chão do deserto, fazia os cabelos crespos e longos, deslavados, feitos palha, de Jesus, tentar o ar e o vento, dançando timidamente. Jesus cerrava os olhos em intervalos de cansaço. Virou-se Satanás para Jesus e disse: "Atira-Te daqui, se és o Filho de Deus. Sei bem que não Te acontecerá mal algum, mal Tu te entregues à queda, virão os anjos e segurar-Te-ão em suas mãos, e ficarás sem concluir a queda, e não ferirás nenhum pé em nenhuma pedra, nem sentirás tua face bater no chão duro que te esperaria. Sim, vai, se és Filho de pai que dizes ser, atira-te. Manda-te!"

Jesus olhou para baixo, nada se passava mais que a monotonia de passos apressados, tilintar de moedas na madeira velha. "Não tentarás ao Senhor teu Deus", levantou Jesus o tom, olhou Satanás nos olhos, agora sou eu que mando em ti, traste, besta, nada me vai rasgar, nada!, ouviste bem?, nada!, e ficou um silêncio aterrador, como quem acha que nada mais se pode dar de ambas as partes. Satanás disse: "Anda, preciso de mostrar-te uma coisa". Jesus foi com ele, de mão dada, olhos pesados e lábios secos, sem vontade de estar, sem modo de estar, que assim seja, vamos, não tenho nada mais que fazer, não ouvi nenhum cego chamar por mim. Subiram a um monte muito alto, e Satanás abriu os braços, sorriu a Jesus com aquele hálito negro, que cheirava a merda e mortos e tripas, e disse: "Olha" - mostrando-lhe todos os reinos do Mundo, de Constantinopla ao Mar das Tormentas, longe para sudoeste - "tudo isto Te darei, se, prostrado, me adorares". Mas Filho de Deus só se ajoelha perante homem, igual, do pó ao pó, pão e água, tanto que nada o move, menos algo que move todos, e os faz perder algo mais que a cabeça e o discernimento. "Vai-te embora" - disse Jesus - "nada quero de ti, Satanás. Ao Senhor teu Deus adorarás e só a Ele prestarás culto!".

Ah, se os joelhos na terra seca trouxessem o pão à boca. Ah, se o suor fosse água! Mas não, nada disto demoveu Satanás, sorriu como um bom malandro, um ladrão que vê a janela aberta. Estalou os dedos e mais não fez, mais não disse. Jesus parou, de respirar, de ser, de estar. Não estava morto, não, Filho de Deus nunca morre, verdadeiramente, e não é só da memória que se faz clamar, é da carne e do Espírito que se eleva, apenas parado, cismando naquilo que Satanás havia feito, apenas num estalar de dedos. Nada dizia Jesus.

À Sua frente, duas mulheres, nuas no calor do deserto, sedentas, tão apetecíveis, Jesus é homem, não é?, pois é, e Satanás não é burro, são se deixaria vencer assim, não iria sem mais nem menos, ficar-se pela fome, o poder e mandar, tinha de jogar o seu trunfo, criação do Pai de todos, a melhor arma do Diabo. Duas mulheres, virgens de nascença, idênticas até ao útero, morenas do sol, imóveis, como se as vertigens do monte e o calor do deserto não lhes tocassem. O olhar de Jesus aguçava-se, de cima a baixo, como a chuva tocada a vento, mirava as curvas da tentação e mordia o lábio. Ao fim, apenas pedia por forças, não para aguentar, mas para conseguir dar-se inteiramente.

E, Jesus, a Satanás pediu: "Dá-me água, Pai."

publicado por Gualter Ego às 19:13 | link do post | comentar | ver comentários (1)

D. Pedro.

Pela Graça de Deus, Rei de Portugal e dos Algarves, d'Aquém e d'Além-Mar em África, Senhor da Guiné e da Conquista, Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia, etc., decreto que quem mais que morra neste país seja condenado à morte, por neste país nunca mais se morrer.  Será assim, por minha régia vontade, que eu, que mando em toda a terra que for do Reino de Portugal e em toda e qualquer alma que nela se encontre, daqui em diante, até a Morte se resignar e me devolver Inês.

publicado por Gualter Ego às 01:49 | link do post | comentar | ver comentários (2)
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