Terça-feira, 08.02.11

1.2.3.

O que te corre nas veias é veneno,

O que vejo em teus olhos: maldade.

Eu, tu e o nosso amor, é tudo o que está mal no mundo.

Da perdição à santíssima trindade.

 

Viajo no teu cheiro,

Cenário em que poiso minha face esquerda

No teu peito.

Pego em teu corpo com a minha voz:

- Ao nosso amor, padeço por inteiro.

publicado por Gualter Ego às 21:43 | link do post | comentar | ver comentários (3)

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A real distância entre nós está na vontade, enquanto estamos ao alcance total da minha mão e da tua entrega, quando o que nos separa é maior que uma utopia.

Será por falta de forças, será por falta de mim, de juízo, de saúde, de qualquer coisa, menos de dignidade. Sou uma besta.

publicado por Gualter Ego às 21:22 | link do post | comentar

O 25 de Abril de setenta e 4.

O dia amanheceu com mais cheiros de noite que todos os outros dias. O lento derramar da luz do sol ia trespassando os ramos altos e os troncos grossos e cascudos, de resinas fartas, esperneando por entre fetos e giestas, descendo à terra um novo dia que, por ser já nos fins de Abril e a Primavera começar a dar de si as voltas em brisas de estio, seria dia de semear o milho.

Não que o galo ainda sirva de despertador, que quem por cá vive sabe que ele canta até de noite, mas nesta terra acorda-se pouco depois do nascer do sol e do cantar do galo, desde que seja dos assíduos, pontuais e fieis. Servirá uma caneca de café de chocolateira e uma talhada de queijo no pão até à hora de almoçar. Pega-se a carreira até à vila, para comprar coisas para o almoço, que hoje o Ferreira vem cá com o tractor fresar a terra e almoça lá em casa e a miúda, eu, amanhã vai a Lisboa numa excursão da escola e precisa de levar farnel.

Está o milho semeado, cá por casa, o sol vai alto e os homens suam em bica, intervalando os golpes à terra com golfadas de vinho do pipo; voltam as mulheres da vila. Ouviram por lá que houve uma revolução na capital, que o governo caiu e os militares tinham assentado arraiais nas praças da cidade, que havia muitos mortos, ou então nenhuns, perto disso, e que agora ia ser tudo diferente. Por enquanto pouco se sabe e o rádio diz ainda menos. Só se sabe que não se pode ir a Lisboa.

Eu não sabia o que era uma revolução, ou o que era um governo, depois disseram-me que era quem mandava em nós, talvez por isso houvesse a fotografia de dois homens por cima do quadro da escola, com o senhor crucificado no meio, se calhar aqueles homens eram o governo, mas eu só sabia o que se passava cá em casa, e cá em casa, na taberna e nas coisas, mandava o meu pai, o resto não sei. Só sei que por causa da revolução, não fui ao jardim zoológico, por isso não deve ter sido coisa boa.

publicado por Gualter Ego às 19:25 | link do post | comentar

Despertador.

Como árvore não é floresta,

Por ser homem não sou pessoa,

Sou a sobra do que de mim resta,

Sou-me sem saber, dou de mim à toa

 

Se de dia se faz a vida

E se a vida é trágica,

Miserável, rouca e se em mim se arrasta,

Então a noite é mágica:

Noite é tanta luz quanta me basta.

 

Só não estou morto,

Porque o Diabo não me quer,

E só não estou mais perto,

Porque não sei ao certo

Onde te perdi,

Se eu não vi,

Que todo eu era torto,

Torto demais para morrer,

Ou deixar de viver,

Por ti.

 

E se por tudo isto

Acordamos todos nós,

Amarei, então, o despertador,

Por adição é isso que ele faz,

Despertar a minha dor,

Tenho frio quando tenho calor,

Sinto ganas de fugir quando sinto amor.

 

Tilintar estridente que me acorda,

Ténue torpor de recém-mortos sonhos

E as pálpebras pesadas,

É o vulgar repetir dos dias medonhos.

Acordo sem conseguir pensar,

- Tenho que ir mijar...

publicado por Gualter Ego às 18:27 | link do post | comentar
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