Quinta-feira, 27.01.11

Do achar que se vive.

Ninguém está vivo. Nunca se pode estar verdadeiramente vivo. Rompemos a inexistência ao anulá-la no dia em que a nossa mãe nos dá à luz e tornamo-nos existentes, porque, para trás, existia o nada, nenhuma memória alheia de haver alguém que fosses tu. Existes, penses ou não, simplesmente, estás existindo. Assim como só podes saber o que é o frio, se sentires calor, ou vice-versa, é preciso morrer para saber que se está vivo. Sim, o verbo estar no presente do indicativo, então, não faz sentido, portanto, só podes clamar que estavas, pretérito imperfeito, vivo, quando morreres. Nunca estás vivo. Estiveste vivo, há as memórias que deixaste; não podes dizer que uma árvore fez barulho ao cair, se não estavas lá quando ela caiu, dizendo que as deixaste, que um grupo determinado de pessoas que te influenciaram e pelas quais foste influenciado, se lembra de ti. Para eles, tu estás vivo. A morte é tudo: paz, certeza, fado. Existir sem morrer, contrariando todas as leis que se pretendam enunciar, não é viver, é um prolongamento hipoteticamente egoísta do achar que se vive.

publicado por Gualter Ego às 23:30 | link do post | comentar | ver comentários (3)

gATO.

25 de Janeiro, 2011.

 

Hoje, de manhã, vi um gato. Esse gato, pardo, aparentemente de pelugens macias e aprazíveis ao afago impertinente, facilmente perceptível por quem mais entenda destes felinos domésticos, estava, por vários factores visuais e básicos na lógica da repetição, habituais calmarias, silêncios e pausas da mão sem carne que segura o cabo da gadanha, assim, poisado, de lado, cauda empolada esticada a longo da erva molhada de orvalho matinal que o delineava , semblante imóvel, impávido e sereno, intocável, no que toca aos distúrbios da ética e às higienes, inerte, perecido e morto, de uma vez.

Terá sido atropelado. Alguma mão com respeito ao que nos toca de luto humano encheu-se de compaixão q.b. e deu de fazer do seu pesar instintivo da consciência uma réstia de pena pelo ríspido, outrora arisco, animal, atirando-o, talvez assim tenha sido, sem delongas, ou poisando-o, pegando nele como se pegam os coelhos a esfolar, pelas patas, cuidadosamente, como se a peste estivesse em tudo o que era gato, menos ali, nas patas dianteiras.

Curiosamente, não se via pinga de sangue, quer na estrada, quer no pêlo do animal, imaculada morte, pum, já está, existias, agora eras vivo, porque estás morto. Talvez, se houvesse sangue, este discurso tivesse sido mais visceral, mais agradável de dramatismos e liricismos épicos, oh, sangue, vida escarlate, e por aí diante. Mas não houve sangue. Apenas morte. Morte, assim se diz, death, em cessarem os processos biológicos que o faziam respirar, la mort, viste a luz ao fundo do túnel? Não importa, vês no escuro, não é? Ah, pois, vias. No escuro da morte, não vêem teus olhos, bichano. La muerte, que é como quem diz um esqueleto caquético revestido de panos negros.

Sortudo gato, fado afortunado foi o teu, bons olhos te vejam, bons olhos te vissem, que não é de desejar a morte a ninguém, que morreste sem saber que eras vivo. Talvez assim se morra melhor; o ignorante morreu feliz.

 

 

publicado por Gualter Ego às 22:52 | link do post | comentar | ver comentários (1)
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