Quinta-feira, 20.01.11

Não vais querer ler isto.

A humanidade vem-se escondendo nas sombras da sua própria existência. O sentido da vida tornou-se descartável. Iluminemo-nos, repito.

 

Primeiro: terá sido o inalcançável firmamento cintilante do céu, aquando noite, que levou o homem primitivo (e tiremos o sentido pejorativa desse termo, que ser mais animal que pessoa nunca se provou ser mau de todo), achando que por lá vivia quem ou O que os fez, que fez com que se vá à missa aos Domingos? Tudo bem, haveriam de pensar eles, saí da minha mãe, mas de onde saiu a mãe de todas as outras mães? O ponto de interrogação chegou antes da voz, da palavra, da sílaba, até. Todo o homem é um enorme ponto de interrogação. Então, por fim, sendo o homem uma criatura cheia de ego, achou que só poderia ter sido algo grande, impalpável, incontrolável a criá-los (-nos, também), disse “Faça-se a Luz!” e nasceu Deus. Nasceu a ideia que já estava tudo escrito, do ser parido ao ser enterrado. O destino.

 

Segundo: Nietzsche só o disse nas voltas do século XIX, mas Deus, ressuscitando aquando em vez, havia morrido há muito tempo. Não que a sabedoria seja inimiga das crenças, dos ritos, das doutrinas, ainda mais estas que apelam às pacificidades, mesmo à luz da inimizade, mas algo prende o homem, agora, em querer achar-se, ele próprio, Deus. Salve seja. O saber de quem não sabe ponta de coisa alguma torna-se o Santo Graal da passagem terrena. Nasce o amor pela sabedoria. Pura, singela, imaculada e destilada sabedoria. Mas há algo que não muda; o ponto de interrogação que é o Homem. O Homem é livre, o Homem é Homem, com letra maiúscula e não queiramos ser machistas, a Humanidade, é, agora, movida a desejos. Quero, mexo, escolho. Nasce o livre-arbítrio.

 

Terceiro: a Filosofia confundiu-se com as actuais ciências. Que é isto que piso? Que é isto que bebo? A Filosofia, tem, agora, mais em que questionar. Nasce Newton, escreve a terceira lei em seu nome; actioni contrariam semper et aequalem esse reactionem: sine corporum duorum actiones in se mutuo semper esse aequales et in partes contrarias dirigi. Que é como quem diz que para todas as acções, haverá uma reacção igual e oposta. É o acto-efeito. Os meios dos fins. Expandimos isto à desconhecida e eterna extensão do Universo e tal nos diz, nada mais, nada menos, que o facto de estar neste momento a pegar numa chávena de café (pausa para pegar na dita chávena), só acontece por determinado vento ter soprado tempestade para os lados onde moro e a chuva não me ter deixado sair de casa. Imaginemos que o senhor Éolo não ia com a minha cara e o sol apresentava-se a descoberto. Poderia estar morto. É um “se” enorme, reconheço, mas é um “se” necessário. Despindo os fatalismos, nasce o determinismo.

 

Concluindo: deixando os discursos expositivos de lado, afunilando a conversa para um cenário mais pessoal, é o nosso livre-arbítrio que determina o próprio determinismo. Ou seja, e tirando o tom gasto com que a seguinte afirmação se possa apresentar, por meios desconhecidos das veias poéticas sem sal, somos nós que fazemos o nosso futuro, consequência atrás de acção.

Deus é só um termo, o que me mete medo é o factor deus, que molda e transvia as carnaduras incrivelmente moles dos homens de agora, e do ontem não muito longínquo. Não nego a presença de um deus, de algo que saiba tudo, seja o que for que “tudo” seja, algo que nos fez com um propósito (querer saber o sentido da vida já foi tão preciso como água para o boca), não clamo a sua presença, porque teorias serão sempre teorias e aquilo com que estamos a lidar é maior do que a nossa própria compreensão. Isto não é nada de novo.

Pessoalmente, sinto-me o pequeno peão do pequeno jogo de tabuleiro de deus. Talvez ele puxe uns cordéis aqui e ali, um pouco como as nossas acções, só que cientes, e faça com que o determinismo resulte em algo que nós apelidamos de coincidência. Mas “Deus não joga aos dados com o Universo”, disse o nosso velho Einstein; as coincidências não existem.

O ponto de interrogação que eu sou, vai crescendo. “Tudo vale a pena, quando a alma não é pequena”, não é, amigo Pessoa?

 

No próximo episódio, falaremos da morte.

publicado por Gualter Ego às 23:58 | link do post | comentar

A traça e a vela.

Por que é que as traças são tão atraídas pela chama de um qualquer pavio de vela que seja?

Serão elas, na condição de animal irracional, embora com tudo o que tem para viver o tempo que é ou seja suposto viver na sua génese, incapazes de saber que aquilo que desejam as queimará vivas?

Aquilo que confrontam e aquilo que as puxa, será isso tão forte que está para além de qualquer compreensão? Tanto que não têm escolha senão serem consumidas pela chama?

Ou, para ser mordaz e oferecer ao pensamento o fim desta indagação repetente, será que elas são os únicos seres corajosos o bastante para assumir que a morte é a única coisa que vale a pena correr atrás nesta vida?

 

 

Se isto se confirmar, presuma-se que a morte é uma mulher.

publicado por Gualter Ego às 22:48 | link do post | comentar | ver comentários (2)
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