Domingo, 21.11.10

Um beijo igual a três.

O teu olhar pediu e eu, gentil cavalheiro, beijei, levemente a pálpebra do teu olho direito. Depois, descobrindo-te dos lençóis, beijei o calor do teu pescoço. Parei e olhei-te nos olhos, provocando-te. Leste-me em todas as línguas, sorriste e beijaste-me o canto da boca. Isto, meus senhores, é mais do que amar, é brincar com a insignificância do amor.

 

 

 

 

 

 

 

publicado por Gualter Ego às 22:34 | link do post | comentar | ver comentários (15)

Subitamente.

Há muito tempo que não batia à porta de alguém. A tinta azul que se ia soltando da porta de madeira, a lembrar as escamas de um peixe, arranhou-me levemente os nós do dedos da mão direita, quando fiz o que é, por norma, feito ao chegar à porta da casa de alguém. Bati duas vezes, que só o carteiro é que deve bater três. A chave rodou do lado de dentro e a porta abriu-se.

Tal como não havia resultado em som nenhum o meu chamamento percussionista, também quando os teus lábios, pintados a carvão, se mexeram, som nenhum de lá saiu. Apenas no cinema se vêem tais silêncios, assim tão prolongados, porque a arte não tem, graças a Deus, que imitar a vida e todo o seu ruído natural e imponderado. No silêncio continuámos, esboçando sorrisos, sorrindo com os olhos, com as sobrancelhas, com o nariz, com toda a face; ali podia-se sorrir livremente, porque não havia chão para arrastar o corpo morto de um mal afortunado apaixonado sem amor à vida.  Pegaste-me pela mão e conduziste-me pelas escadas. Era tudo tão branco... as paredes, o ar, tu, e o teu vestido, alegremente desconfiando das cores do teu cabelo, que mais pareciam folhas de Outono, ao vento.

Levaste-me à janela. Havias cravado, com uma navalha, alguns versos meus no parapeito da janela. Abracei-te e os meus braços envolveram completamente a tua silhueta.

Subitamente, acordei.

publicado por Gualter Ego às 00:38 | link do post | comentar

Pela garrafa.

És a perfeita contradição

Em que todo o pintor se perderia,

Por quem todo o eterno poeta beberia

Aguardente, para acalmar o sonho demente

De te ter, paixão doente.

 

E por não saber com que olhos te olhar

Vejo-te em meus sonhos sem te conseguir tocar.

 

Soubesse eu, ao menos,

Em que copo te beber,

É que esta noite não pára de chover,

E eu teimo em querer fazer o meu coração parar de bater.

 

Deixemo-nos de fatalismos irreais,

E entreguemo-nos às paixões surreais:

Bebo-te pela garrafa.

publicado por Gualter Ego às 00:06 | link do post | comentar
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