Quinta-feira, 01.07.10

Cansaço.

Por cima de mim, sinto uma atmosfera pesada, de imagens, objectos e palavras, à espera para se precipitar sobre mim.

E há um contraste, entre mim e aquele para quem eu falo, quando falo sozinho, procurando respostas, perguntas, palavras.

 

As imagens, são puro nevoeiro, algo nada concreto daquilo que eu tenho dentro desta caixa em forma de cabeça.

Os objectos, apenas isso.

As palavras passam rápido demais, com o vento da manhã fresca e promissora.

 

Fica o cansaço, de as ver correr.

 

publicado por Gualter Ego às 18:42 | link do post | comentar | ver comentários (1)

Quarto.

Não sabe as horas, nem tampouco sabe que dia é.

Talvez seja melhor assim.

É o primeiro passo para se abstrair do hábito que nasce com a raça humana, de controlar a vida e o que vem por atrelado, nos ponteiros de um relógio.

"O pequenino é o das horas e o grande é o dos minutos."

Foi assim que, quando era pequeno, lhe ensinaram a ver que horas eram. Se a memória não lhe fala, foi ao colo do pai, no seu relógio de pulso, prostrado no pulso peludo da figura parental, a ser escrita um dia destes, que tal lhe foi ensinado. Ensinamentos vãos.

 

Caminha de um lado ao outro do quarto, inverte a direcção e repete o exercício do princípio, numa marcha lenta, como a de um cortejo fúnebre, enquanto fuma, sofregamente, meio maço de tabaco, com o torpor do calor que o faz suar.

"Maldito sol", pensa ele. "Maldito sol que não serve para escrever, nem para inspirar uma pobre alma".

"Egoísta de merda, brilha enquanto podes", grita ele por dentro.

Senta-se no colchão nu, que cheira a ranço e aos corpos que não pesaram sobre ele, deita-se, encolhe o corpo, mas não fecha os olhos. Pensa melhor com eles abertos, acha que a cabeça divaga demais quando não tem nada para onde olhar.

Da cama, consegue ver os prédios amargos, e os homens engravatados, que trabalham nas nove às cinco e lhe causam a maior repugna.

 

Dentro dele há algo irrequieto, uma voz que simplesmente não consegue estar calada. Há, por exorcizar, um qualquer demónio que ande a moê-lo por dentro.

 

Suspira. Só desejava ser louco.

publicado por Gualter Ego às 17:46 | link do post | comentar | ver comentários (1)
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