Na caravana espanhola: uma espécie de diário.

23/7/2011

 

O sol está prestes a nascer em terras castelhanas. As nuvens grossas lá do fundo, na linha mais parada da paisagem, confundem-se com os montes que as apoiam. Não consigo ler o que escrevo, por estar ainda tudo meio na penumbra.

Será isto que agora toma o meu corpo, esta espécie de sentimento quente que me embrulha em vontade de calcorrear estrada e comer pó, um contratempo genético, uma renúncia emancipada ao conforto sedentário de ter um tecto ou a herança nómada a querer tomar-me sorrateiramente?

Não sei. Tenho, já, algumas saudades de casa, porém.

Tenho de passar a mão pelo vidro para ver a paisagem; chama-se condensação.

(Quero borralho e estrada; não quero um colarinho branco.)

Deixando atrás a Lusitânia do porto quente, já devo ter passado, pelo menos, a linha de Madrid. Viajo em direcção ao Mediterrâneo, que é como quem diz Catalunha, que é como quem quer dizer Barcelona de morenas atrevidas.

Há, por aqui, neste caminho que faço e as rodas vão percorrendo, e até pus as lunetas, interessantes acidentes orográficos, socalcos e protuberâncias geográficas (e não, não estou a fazer jogo de palavras para me referir a mamas em termos da Geografia, que é uma ciência digna), relevos esquisitos, morros, montes, montinhos, pedregulhos, e assim por diante.

As luzes das ruas ainda estão acesas; pequenos pedacinhos cintilantes, brilhantes, de paisagem. É tudo muito bonito, sim senhor.

Também a música que oiço é a apropriada. Sou homem de preparos, gosto de me prevenir, sabia para onde vinha, então trouxe banda-sonora apropriada.

Dormi meia-hora, se tanto. Os olhos puxam-se-me para baixo.

 

 

Os mais preguiçosos diriam que é uma dádiva transcendente, isto do nascer do sol, o problema está em ser em horas indecentes, desapropriadas ao fiel e burocrático descanso necessário a cada indivíduo, sem excepções. Eles que se fodam. Não há melhor espectáculo (e não se paga coisa alguma) que ver subir, lentamente, em diferentes reflexos, nas nuvens, nas neblinas matinais, por entre os pinheiros densos, atrás dos montes, aquela estrela teimosa e quente, que alumiou Cristo e alumiou Galileu e Pessoa e que agora me alumia a mim. É um privilégio.

Ah, pensamentos patéticos. É a privação do sono, perdoem-me.

A poeira das estrelas está a assentar. Olha o que me deu agora, seis e tal da manhã, pôr-me a falar em metáforas, arre foda-se. A linha do horizonte clareia-se sem pressa. Já vejo o que escrevo. O nevoeiro parece algodão, disfarçando o frio que deve fazer lá fora.

Tantos anos, tantos séculos a investir e a gastar dinheiro e forças na construção de edifícios, na compra de camas e sofás e máquinas e sanitas, tantos anos a dizer que estamos aborrecidos - que hipocrisia ultrajante, quando há mais metros quadrados para ver, tocar, cheirar, pisar do que minutos que nos falta viver. Ah!

 

 

São 6:22h, menos uma em Portugal, menos duas nos Açores. 

Venho em paz, em nome d'El-Rei e do Jim Morrison e do Eddie Vedder, desbravar montanhas húmidas, ouvir os ventos, falar-lhes, mirar as estrelas e conquistar, o quê não sei, mas conquistar.

Com estas baboseiras escrevi, já, quatro páginas de caligrafia confusa e quase-hieroglífica. 

Já não é noite, mas ainda não é manhã. Que bela metáfora para me explicar-me.

 

6:57h

O sol de Espanha é surpreendentemente igual ao de Portugal. Que desilusão. Vejo lebres a saltar, também, lá ao fundo, por já começar a terra a aquecer.

publicado por Gualter Ego às 15:35 | link do post