Às vezes.

Há uma linha, um risco, uma fronteira ténue entre a sanidade e a insanidade; e há outra linha, também ténue, delgada, entre a sanidade e o egoísmo. A diferença reside em saber se estamos transpondo essa linha ou se não.

 

Coçou a guedelha sebosa de mão cheia e fez cara de desconforto, deixou cair aos mãos para o regaço, deixou cair os ombros e ficou só a olhar. Bocejou ao ir buscar ao bolso fundo das calças de bombazina castanha e gasta, tão gasta que já não faz aquele som de raspar quando se dá um passo, um isqueiro que pediu emprestado a alguém e esqueceu de devolver. Pôs o cigarro na ponta dos lábios, o isqueiro fez faísca, tshc, e acendeu o cigarro. Menos umas horas de vida não tornam o luto maior.

Diz que quando lhe apetece, quando o ar da noite está mais massudo, mais agradável, quente e denso que quase que se consegue mastigar e corre uma brisa simpática e o céu está descoberto, gosta de vir para aqui fumar o seu marlboro e ver as estrelas. Nada mais. Fumar e ver as estrelas. Ele sabe que é velho e que já não vai ver muitos mais nasceres-do-sol. Às vezes pensa no que virá depois da morte. Ou se virá alguma coisa, não é? Outras vezes pensa em mulheres nuas e às vezes gosta de ver o futebol. 

Às vezes um cigarro é só um cigarro.

publicado por Gualter Ego às 20:18 | link do post | comentar