Inspiração e uma noite despida de crónica.

A inspiração é um mito. Está cá tudo dentro. É pólvora, só precisa da achega de uma fagulha e puff!, tanta chama faz que parece que nos vai consumir inteiros, uma avalanche de palavras sem nexo e sem sentido, uma chuva torrencial de versos sem rima, e pensa, pensa, pensa. Não existe inspiração, a inspiração é um mito.

 

Eram perto das três da manhã, uma madrugada fresca de fim de Junho e já me estava a passar para o lado de lá com o cansaço das cerimónias básicas do metabolismo, que fazer nada e transformar oxigénio em dióxido de carbono em piloto automático, todo o dia, mecanicamente, inspira, expira, também cansa. Rebolava-me no escuro do quarto, e na leveza dos cobertores. Facto engraçado sobre a minha vida insignificante: mesmo que esteja um calor infernal tenho de dormir sob um cobertor, ou então não durmo e fico a revolver-me na cama até ser de dia.

Todo nu, dedos entrelaçados atrás da nuca, olhando para cima, para a penumbra da sombra das sombras, um chirp-chirp de um pássaro com insónias, um ru-ru de um mocho qualquer, como eu, à procura do mito da inspiração, lentamente piscando os olhos, as pálpebras como pesados portões de quinta, ferrugentos, a chiar, falta de óleo e de horas de sono. E nada. Nada, absolutamente nada, apenas pensamentos aleatórios, invasores de uma mente pura (cof!), mulheres nuas num film noir francês e sou personagem principal, a menina dança? e suspiro.

Súbita, uma palavra, depois outra, depois um ponto final, uma vírgula, um porra, que isto é bom, clique no interruptor do candeeiro e procuro uma caneta. Bic ponta fina, vermelha, vai ter que ser, e um papel, raios, não há papel, vai na contra-capa do livro do nóbel. E o conto que estava há semanas para se entornar em matérias, é ali transbordado numa escrita frenética, como quem come para ninguém vir comer do que é dele, não me vá escapar esta e aquela palavra. E pronto, já tenho o primeiro parágrafo, agora é tudo de empreitada.

 

Babies don’t sleep this well.

publicado por Gualter Ego às 15:58 | link do post | comentar