Nem chaga, nem cura.

Há uns anos

Aprendi na escola,

Não sei explicar,

Não cheguei a me importar,

Que a energia,

Quando transmitida,

Deixava-se escapar,

Um bocadinho para aqui,

Outro para ali,

Já disse que não me lembro bem,

Mas isso acontece, também,

Quando me apetece passar

Uma coisa qualquer,

Um devaneio,

Um verso, dois,

Uma história, uma lamúria,

Um conto, um reconto,

Nem que seja para acrescentar um ponto,

Para o papel:

 

Há sempre uma palavra que escapa,

Na caótica aleatoriedade dos pensamentos.

Um conceito, um laivo de loucura que,

Se não é entornado por hora ao papel

Se desvanece na metafísica das coisas escritas,

Como vapor.

E há sempre algo que escapa,

É inevitável,

Alguma coisa mínima que fica por falar,

Seja por pieguice ou exigência de quem escreve,

Seja o etanol que prega as suas partidas.

 

Estou conformado e resignado, desta forma,

A estas lides e a estes destinos:

Nunca sentir o dever cumprido,

Andar sempre a sentir-me roído

Por não conseguir vomitar tudo o que se passa lá/cá dentro.

 

E fico com um comichão dúbio dentro do crânio,

Como se fosse um calo, ou uma verruga,

Que incomoda e que só desaparece se deixarmos de o importunar.

 

Que faço, então?

Deito-me, sozinho, na cama,

E destilo.

Há-de sair mais suor que arte,

Indubitável verdade,

Mas alguma coisa há-de sair,

Nem que seja mais do mesmo.

 

Hei-de derreter,

E dar de mim, todo,

Absoluto,

A mim próprio.

 

Um dia...

 

Um dia as peças caem todas no sítio,

E eu vou ficar aborrecido.

No fundo (no fundo),

Sou um animal que nunca está satisfeito,

Nem com a chaga,

Nem com a cura.

publicado por Gualter Ego às 17:12 | link do post