Eduardo, filho do taberneiro.

Às dezanove horas, treze minutos e dezanove segundos do dia treze de Maio de mil novecentos e sessenta e oito, no exacto momento em que se lançavam à cova, pelos jeitos infiéis da vida que se termina sem ai nem ui, uma dúzia, mais que dois punhados, de pessoas aleatórias, umas boas, outras más, umas verdadeiras, outras malévolas, no absoluto momento em que uma pedra da calçada de uma rua parisiense acerta no focinho de um polícia fascista e o mete sangrando de nariz, em Paris, claro está, entre dois-cavalos virados de pantanas e montras partidas, nascia Eduardo José Silva Louro, chorando, cheio de gosmas e fluidos maternais e líquidos amnióticos e sangue, numa cheia berraria a plenos pulmões, entre dores e contracções e espasmos e forças sobrenaturais de mãe que pare pela primeira vez e jura que nunca mais. Mas as vontades do homem ainda se fazem ouvir mais que a da mulher, nestes tempos, e Eduardo terá mais irmãozinhos.

Nasceu a chorar, como outro bebé normal, salvo os que precisam de uma palmada doutorada para dar sinal de vida. E somos os únicos animais que nascem chorando, porque sabemos, inconscientemente, ainda antes de nos sabermos e de sabermos falar e de sabermos escrever e de alcançarmos tudo aquilo que nos faz crer sermos humanos e racionais e perpetuamente correctos, que ao nascermos somos atirados para uma pocilga, farta em merda, em lama, em nojo e em podridão.

Cresceu, o Eduardo, chapinhando, garoto, em largas e inocentes poças de água lamacenta que a chuva de Fevereiro deixou ficar, fazendo em lume a cabeça da mãe, que lhe engraxa imaculadamente os sapatinhos e lhe ralha. Mas não se importa, Eduardo, porque é petiz. E por ser petiz joga à bola e anda à porrada, e perde dentes e suja o fato, e come broa para marcar golos e para não perder dentes.

Uma vez, era sol posto, acabara de levar uma enxerto de porrada do filho do alfaiate que vivia no cimo da vila, ao lado da igreja, e pôs-se dizendo:

 - Amanhã a minha mãe faz uma broa de milho e eu faço-te o cu num oito, filho da puta.

Era pequeno, mas as asneiras sabia-las melhor que o Credo, cuspia na água benta, tirava macacos durante o sermão do padre, para se entreter, queria lá saber dos mansos bem-aventurados, queria era espetar um enxerto de porrada no filho do alfaiate que andava sempre de camisa lavada, a cheirar bem, e que diz-se que tomava banho todos os dias e ia passar da quarta classe e ia para o liceu.

Seu pai, Mário Guilherme Louro, tinha um negócio de taberna, vinhos, aguardentes, ginjas e outros que tais, e toda a freguesia por lá passava. Era Eduardo um moço ainda de leite, exagero claro, hipérbole intencional para os mais instruídos, mas sim, ainda tinha dentes de leite, já servia os homens na taberna, cheios de barba e olheiras e calos na mão, e queria, sabia que sim, ser assim, um dia. Acordava antes das galinhas para lavar copos e ia deitar-se, rezando ao deus menino, entretanto, ajoelhado ladeando o colchão duro da cama, antes de os bêbados do costume beberem demais e começarem a gritar, como o Palhaço, chamado assim por se embebedar por tudo e por nada, aos mandos da sua aguardente velha de sempre, companheira das noites frias, que falava muito alto, alto demais, porque a mãe era surda e ele assim se habituou a esses tratos. E depois, o Palhaço, nunca lhe soube Eduardo o nome verdadeiro, nem no seu enterro, começava por não dizer coisa com coisa, e tentava pegar-se à porrada com o que mais próximo lhe estivesse.

Até o padre da paróquia por lá parava, na taberna do Mário, e bebia o seu tinto sagrado, que ali, mas só ali, era néctar de uva e não o sacro sangue do crucificado, e pedia atenção aos pobres que por lá se arrastavam e perdão aos que desgraçavam a alma do matrimónio santo em cada copo que enchiam.

Eduardo servia, recebia o dinheiro e dava o troco, nunca dava fiado, nem tinha ordem para isso, lavava as garrafas espanholas e enchia garrafões, raspava o pipo, quando era tempo, mexia-o, cheirava o mosto, enxotava mosquitos, engarrafava o vinho caseiro. Enjoou-se-lhe de tal forma o cheiro do marufo que nunca mais na sua vida de bom samaritano tocou num copo de álcool.

Um dia, num Julho quente, que transpirava cansaço e poeira, em que um corpo de ar quente se abatia pela rua da taberna do pai do pequeno Eduardo, garoto, que vinha transpirado e mal-cheiroso do jogo da bola no arraial da festa da Senhora das Dores, e chamava a sede aos que viviam pelas bolhas na palma da mão e pelo trabalho à testeira do sol, Eduardo, moço, chegou-se atrás do balcão, beijou o pai na face e pediu-lhe a bênção, o pai esfregou-lhe a guedelha sebenta e mandou-o ir trocar de sapatos, que havia vinho para dar a matar a sede. Eduardo, digno e dado ao respeito, mas que nunca acabou a quarta classe nem deu pelo vinte cinco de Abril, que tinha um pequeno transístor, uma vela e Os Lusíadas, do Camões, na mesa de cabeceira, que sabia o hino e o pai-nosso, que ia à missa, ensonado, todos os domingos de manhã, mais a mãe e a irmã bebé, que jogava ao peão com os colegas no alpendre das escola, um bocado redondo de madeira curada com um prego ao fundo, a maior filosofia (há tanta metafísica no jogo do peão...) e alegria que alguma vez viveu e o maior sentimento de orgulho que já teve: partir, ao meio, o peão do Zézito, nono filho da D. Maria dos Anjos, numa lançada perfeita, com o baraço bem preso ao peão e os lábios arregalados e o braço puxado atrás que nem o discóbolo, e zás, toma lá que já almoçaste, parti-te o peão; e que também jogava ao berlinde, Eduardo, cachopo, e sujava os joelhos das calças, agastava-os e levava, nas orelhas, da mãe, uma vez, fatídica vez, lavava copos na pia da taberna, nessa tal tarde de Julho quente, entrou o coveiro da aldeia, sacudindo o cu das calças e a camisa, tirando o chapéu e penteando-se, assim-assim, como quem espanta o suor que lhe pinga nas pontas do cabelo, numa golfada de ar quente que entrou, num súbito clarear de ambiente que arrebatou quem afogava as mágoas que sabem nadar, desceu os degraus da taberna fresquinha, bateu com as botas e tilintou-se-lhe as fivelas, para tirar o pó da estrada e pediu um copinho de tinto, para lavar a goela.

Cheirava mal, o coveiro, Manel do Adro, Manuel de nome, Manel de fonética e hábito, do adro porque lá perto vivia, sabia cavar e assim foi escolhido para cavar últimas moradas, um cheiro que fazia Eduardo, gaiato, coçar o nariz num esgar nervoso de lamber lábios e fechar os olhos. Manel do Adro contava quem havia morrido, as ossadas que transladou por se fazer hora, as viúvas que consolou, de morte e de saudades da carne com quem se haviam casado, malandro era este coveiro, cava-covas de profissão, consola-viúvas quando lhe apraz.

Virou-se, então, o coveiro, Manel do Adro, para o filho do taberneiro e assim lhe disse, tomando gozo da cara do menino, Eduardo, petiz infante, príncipe deste antro de bêbados, e lhe falou:

- Ouve lá, rapaz, não queres vir comigo? Tenho lá para ti uns sapatos novos que eram de um moço que morreu de bexigas.

publicado por Gualter Ego às 00:54 | link do post