O defunto.

O defunto estava morto, ou não seria defunto, e esticadinho no caixão, a fazer inveja a quem gosta de se apresentar com palidez de tez cutânea e a quem gosta de dormir sonos profundos, de pálpebras cerradas e expressão sisuda. Estava morto, e bem morto, e nada se mexia.

Chorava a viúva e os filhos, agarrados uns aos outros, num pranto prolongado e silencioso, tirado de um filme mudo, quase. Morreu morte santa, acamado, de velhice; parou-se-lhe um rim, depois o outro, depois os pulmões, coração e puff, deixou-se morreu ali e entregou-se ao Senhor.

Deixou cá dívidas por pagar e um par de botas de biqueira de aço e algumas coroas valentes que os filhos vão gastar em vinho e putas. A viúva vai ter frio todas as noites e nunca mais vai conhecer homem na sua cama. Triste fado, que por morrer um se fodam os outros, uns por se emborracharem e partirem os cornos numa pedra dura da calçada, outros por nunca mais irem foder na vida.

Que descanse em paz.

publicado por Gualter Ego às 22:08 | link do post