A velha da hóstia.

Entraram os acólitos antes do padre. Olharam-no de esguelha para ver a que momento é que ele se ajoelhava perante o altar, muito atentos, para não lhes faltar a sincronização divina, que ter medo sempre foi muito bom, não vamos nós parar aos infernos por vergar o corpo mais tarde que o padre, não seja isso levado como desrespeito ao cerimonial divino. Lá continuaram, muito sérios e hirsutos, eles e os fiéis, acolitando, os acólitos, obviamente, olhando o padre e rezando, por sua vez, cantando, falando da blusa espampanante da Amélia da rua do café, uns e outros fiéis. Podeis sentar-vos, ora levantai-vos e orai, ora ajoelha, que é o corpo do Cristo, parecem cães, e o biscoito é a salvação.

Os homens, aqueles que cheiram mal e usam boina e suspensórios, sentam-se lá ao fundo, nos bancos corridos que ladeiam o corta-vento, na esperança que Deus não os veja e, assim, se esqueça das maldades que fazem, e dos copos que bebem, e dos patarrões que assentam, quando já vêm com a narsa para casa, nos corpos débeis das inválidas e trabalhadoras mulheres e, assim, lhes seja dado o visto de entrada no Paraíso, dado o benefício da dúvida. Uns deles, aqueles que têm o vício de fumar, saem para puxar um bocadinho no tabaco, durante o sermão, que estes já sabem tudo, já fizeram de tudo, menos ir ao mar, isso nunca foram e, por isso, não sabem, facultativamente, ou por achar que isso lhes tira virilidade, rezar, mas boa parte deles foi à guerra da Guiné e homem que já segurou as tripas de outro, sob fogo inimigo, não precisa de ouvir sermões de padre noviço.

As viúvas sentam-se nos bancos corridos rasgados pelo corredor da igreja, cá à frente, para poderem ver bem o padre que hoje lhes celebra a missa. O que pouca gente sabe é que isto de missas repete a todos os três anos, ou seja, a missa a que fores no próximo domingo, será a mesma que ouvirás daqui a três anos, se lá voltares por mesma altura. Acredito que não, que isto de português é gente de só entrar na igreja para aqueles rituais de marcação da carne ingénua, têm outro nome, mas agora não me recordo, será... é... baptismo, isso, e para casório e funeral.

Toca a sineta, ribombam na torre os sinos da igreja, que morreu Jesus e lembramos a sua morte.

Fazem fila, as senhoras e algumas crianças, alguns homens, também, mais calmos, porém. A última senhora da fila há mais de dez anos que faz luto e anda de bengala. Arrasta-se com alguma dificuldade até ao padre, para ir tomar da redenção eterna, mais hábito que questão, é o que se faz deste provar o pão que é corpo, que isto de missas é despachar que eu ainda tenho que ir pôr a roupa no estendal e fazer o almoço, que hoje tenho cá os primos de Lisboa, assim, um rito take-away, instantâneo como o chocolate para o leite.

- O corpo de Cristo - levantou o padre os olhos e mostrou a hóstia redondinha à velha do luto e da bengala.

A velha abriu a boca desdentada, e os poucos dentes que tinham estavam podres, estendeu a língua esbranquiçada para fora da boca e lá levou ela de mais uma dose de salvação às prestações...

- Argh - grunhiu a velha, fazendo uma careta esquisita, a caminhar, devagarinho, pedindo licença a um pé para dizer ao outro que já se pode poisar a bengala no soalho velho e carunchoso - com que então, isto é o corpo do Cristo, parece-me que hoje me calhou um rim!

publicado por Gualter Ego às 20:54 | link do post