Sentado.

Sentar-me, sossegado, encostado à pedra caiada e olhar. Nada mais. Expirar tudo o que é veneno púbere e pus de acne, arrear os cabelos, coçar as barbixas moles ao jeito do Don Corleone e deixar-me estar, a ver. Um cão, um carro, um moço. Uma Famel, um Renault 5, um par de sapatilhas, pela envergadura de quem os usa acima do 40 de pé.

Passou uma preta, teimosa, digo eu, por ir fora do passeio, sem razão aparente que não seja não ir fora do passeio, ou, por seu lado, ir na via pública, sem pressas. Era atabafada e calçava chinelos. Deixei de olhar para ela para olhar um Mercedes classe C, cinzento metalizado, com menos de três anos, em excesso de velocidade, guiado por um jovem senhor engravatado e de óculos escuros na ponta do nariz. Tanta coisa para esconder o pesar de uma pila pequena.

Depois de muitos carros, muito ir e muita pressa de chegar, passou um velho. O sol batia pelas minhas costas, acertando no velho de fronte, brilhando na sua amável e digna careca, delimitada pelos cabelos profundamente grisalhos, que nem neve em farrapinhos, na nuca e na lateral, citando esse grande poeta de bigode e concertina. Vestia uma camisa rasgada em ambos os sentidos, horizontal e vertical, por listras azuis e cinzentas, respectivamente. As calças vincadas, de um azul de quase noite, haviam de ter sido engomadas por algum querubim, tal era a minúcia do trabalho. Carregava uma pasta azul.

De súbito, um carro travou bruscamente. Amaldioçados cachopos que não olham para lado nenhum antes de atravessar a estrada.

(Por que é que o menino atravessou a estrada?)

publicado por Gualter Ego às 00:31 | link do post | comentar