Todas as cartas de amor são ridículas, mas nada diz que quem as escreve também o seja.

Ridículas serão todas as cartas de amor; regra universal lembrada em versos (vénia a Ele).

Que seja assim e que o meu paleio trocado, tímido, esforçado, seja apenas um vento que sopra nos intervalos dele próprio, tentando achar a forma em que te escondes, mas que nada fale ele de amor, e nem sequer o cite.

Saberemos, então, senhores, o que serão vontades e desejos. Quero-te tanto quanto Eva queria aquela maçã, meu amor. Quero-te mais que o escravo queira o descanso, ou o encarcerado queira ver o pôr-do-sol fora de grades. Desejo cada cabelo teu poisado na minha almofada. Todos estes apetites, porém, estes quereres, desejos, meio cegos, não serão mais que medo. Todas as noções de achar algo em alguma condição ou estar, provêm do medo. Medo esse que, pelos caminhos sinuosos da metafísica que mora dentro de cada um, se acha em querer tocar.

Pensemos numa criança, que não terá mais que três anos: é o medo que a faz avançar até à lareira, é o não saber o que é aquilo tão quente e tão bonito, oh. Paradoxalmente, o medo faz-nos avançar. Foi o medo que nos levou a desbravar os mares (e digo isto chamando toda a gente para o acto de desbravamento marítimo, atentai, num acto involuntário, juro, sem querer desconcentrar o leitor, agarrando-me às réstias de gostar de chamar pátria a um bocado de terra). O medo é a forma mais fácil de chegar a algum lado, porque, tendencialmente, sem darmos por isso, se transforma em ambição, desejo puro, sem escrúpulos. E depressa se transforma o medo em toque. E o toque atrasa-se na pele, satisfaz-se, regala-se, bebe de si próprio e de quem olha, e vai-se. Tenho medo que o medo te faça desaparecer.

Julgo, porém, ser mais forte que o medo que me assombra o coração, bruma densa e matutina, frio e cheio do dor, como adagas de gelo, e teimo, sim, eu sei, não devia, mas sim, teimo, e sou teimoso, tudo o que quero, inspira, é tocar-te. Expira.

Queira Deus, então, que seja eu a excepção que faz a regra, e que eu seja alheio às tentações da carne, não essas, as de querer mais, sempre mais, não sou Alexandre Magno, não sou Napoleão, chega-me o lugar do teu coração. Se me permitirdes, se me acolherdes, quero-te, inteiramente, como o meu estar, o meu ser, o meu querer, o meu tentar.

Tento querer ser algo que existe o melhor que pode.

Não terá sido isto uma carta de amor, para quem quer que a leia, mas eu assumo, foi uma carta de amor o que aqui se escreveu, e algo me impede a despedida seca.

Repito-o, portanto: quero-te. Tanto, tanto, tanto. Mais que a vida queira a água, amor, eu quero-te a ti. Aqui.

publicado por Gualter Ego às 23:33 | link do post