Capitão Romance.

Sou o produto de todas os meus pequenos e destemidos eus que vão correndo atrás de mim, tropeçando e saltando, o resultado de todos os esperneios, de todas as verborreias, dos meus próprios vómitos diluídos em toda a gente, destilado pelo fumo dos dias de chuva, escorrendo em suor nas faces do meu amor; o resultado daquilo que me vejo, daquilo que me vêem, ainda assim, que tudo o que vejo eu será no espelho visto, e pelo espelho é a alma humana negligenciada, cheia de torpor, turva como a água de um lago, negra, cheia de rancores; eu sou turvo como a água de um lago.

Eu sou. Que presunçosa afirmação. Eu sou! Que nojento clamar. Eu sou? Assim está melhor. Todo eu, letra minúscula, rente ao chão, como assim me rastejo, todos os dias, saído da cama pela força da minha consciência, consequência de uma boa e determinada educação, humilde, mas eficaz, estava eu a dizer, todo eu sou chuva. Todo eu chovo, não me canso de repetir. Precipito-me em tudo, quero de tudo, alimento-me de tudo. Por fim, rasguem-me em pedaços, violem o meu corpo, tomai e comei, arranquem-me às artérias, puxem-nas como cabos de uma vela de um barco que vai à bolina, tomei e bebei, este é o meu sangue.

Não sou, se ser é ser aquilo que vós sois, fiéis e retardados seres humanos que pisam o mesmo chão que eu sem o merecer. Fatídicos animais bípedes acéfalos, nojentos. Deus tenha misericórdia de vocês. Ah, Deus, que eu tenha misericórdia de Deus. Eu!

Dispo-me até à metafísica, falo-me até à patafísica, e o veludo quente do álcool vai entrando, correndo-me nas veias, saltando de alegrias nas veis inertes e pertinentes do meu pescoço. Morro, sendo, todos os dias, um pouco, um retalho, um recorte, um acorde.

Sou alto. Tenho os cabelos pretos, como certas noites e certos céus e certos pensares. Tenho olhos cansados, castanhos, incertos, irrequietos. Sobrancelhas grossas, ajudam às expressões, atalham as palavras, assustam as impressões. De tudo o que me poderá servir e tenho medo de perder, serão as minhas mãos. Grandes, palmo de vinte e tal centímetros, dedos grossos, destemidos, carnaduras secas, porém românticas, são objecto do meu pensar, assim como os olhos e o cheiro e o ouvir. Sirvo-me disto tudo, das mãos para escrever e algo mais, e sentir as brisas que ninguém vê, dos olhos para ver e para te ver, para vos ver e vos julgar, para me ver e me encarar, duvidar, tenho o cheiro, para relembrar, e para me afundar entre o teu pescoço e o teu ombro, perder-me nas essências da tua eterna candura, nos teus eternos não saber estar, nem conseguir falar.

Olho-me e não me vejo. Saboreio-me, porém, em todos os laivos de real loucura fingida e de sanidade obscura que consigo agarrar, delicio-me com as tonturas do por-cá-andar e ser feliz por calcorrear todas estas ruas. Bebo todas estas lógicas distorcidas que enchem o discurso rudimentar e o paleio inocente, enrolo-me num tapete bordado pelas minhas mentiras, pelas coisas que de mal eu fiz, por mim agi, não foi tão mal assim, foi só achar que sabia o que era melhor para mim.

A minha anatomia é a de um cadáver esquisito. Tenho frio e ardo em gritos flamejantes. O hálito do meu último suspiro encheu a sala de nevoeiro. Encolhi, fiquei cheio de nadas, espaços vãos e intervalos. Perdi-me na amável sinfonia dos meus sonhos: tique-taque, o dos relógios.

Doo em todos os sítios que não são meus; vejo-me em tudo o que não pode ser meu. Quero o que está longe, o que está trancado, quero-o sem ter a chave, nem autorização para espreitar pelo buraco da fechadura.

Eu sou o sapateado francês, acordeão sorrindo, numa calçada molhada; eu sou um gigante, eu sou tenente e general, capitão deste meu batel que é a morte por ser tão de vida. E em mim acorda, cedo e inesperado, esta vontade de dançar. Dúbios fermentos são aqueles que me movem, mas nada se pode fazer, serei assim até morrer.

Está escuro, é de noite, dentro e fora de mim. Está escuro, lá fora, como o café. Mas a luz da lâmpada que, matreira e esguia, por cima de mim pende, como maçã de Newton num limbo danado de obrigações de ali ficar sem se desprender do tecto, vai escorrendo pelas gotas de chuva da janela do meu quarto. É âmbar que se bebe, reflectido amarelo nos meus olhos. Todo o mundo cabe ali, naquela gota de água. Então, se assim é, porque não pode o mundo todo caber em mim?

Sinto que vivo com a corda ao pescoço, inclinado sob a guilhotina dos vossos olhos, bebendo a cada respirar o veneno de existir, mas, puxando da minha veia masoquista, gosto de viver desse modo. Sou feliz, sendo triste, em meus modos de achar que vejo. E ainda agora, só, comecei eu a achar de tudo e pouco mais cada coisa que será mais nada do que aquilo que os meus dedos conseguem tocar.

Tenho um nome, foi o nome que me deram, meu nome não sei. Tenho um pai, e uma mãe, e bondoso foi Deus por mos dar, sádico foi Ele ao fazer com que eles me concebessem. Estou rodeado de pessoas; completamente sozinho. Troco o passo, troco as voltas às revoltas das línguas dormentes. Vou roubando um beijo aqui, um beijo além, roubando mais um pouco do que é ser Homem. Todo eu sou estrada, todo eu sou ranger-de-dentes, todo eu sou caos, balbúrdia, confusão. Eu sou forte de olhares, fraco de coração.

Meus amigos, agora que já sabem quem eu sou, aqui me dou, a quem me quiser.

Sou, em todo o esplendor de ter nascido, se houver vida antes da morte.

 

publicado por Gualter Ego às 21:10 | link do post | comentar