O 25 de Abril de setenta e 4.

O dia amanheceu com mais cheiros de noite que todos os outros dias. O lento derramar da luz do sol ia trespassando os ramos altos e os troncos grossos e cascudos, de resinas fartas, esperneando por entre fetos e giestas, descendo à terra um novo dia que, por ser já nos fins de Abril e a Primavera começar a dar de si as voltas em brisas de estio, seria dia de semear o milho.

Não que o galo ainda sirva de despertador, que quem por cá vive sabe que ele canta até de noite, mas nesta terra acorda-se pouco depois do nascer do sol e do cantar do galo, desde que seja dos assíduos, pontuais e fieis. Servirá uma caneca de café de chocolateira e uma talhada de queijo no pão até à hora de almoçar. Pega-se a carreira até à vila, para comprar coisas para o almoço, que hoje o Ferreira vem cá com o tractor fresar a terra e almoça lá em casa e a miúda, eu, amanhã vai a Lisboa numa excursão da escola e precisa de levar farnel.

Está o milho semeado, cá por casa, o sol vai alto e os homens suam em bica, intervalando os golpes à terra com golfadas de vinho do pipo; voltam as mulheres da vila. Ouviram por lá que houve uma revolução na capital, que o governo caiu e os militares tinham assentado arraiais nas praças da cidade, que havia muitos mortos, ou então nenhuns, perto disso, e que agora ia ser tudo diferente. Por enquanto pouco se sabe e o rádio diz ainda menos. Só se sabe que não se pode ir a Lisboa.

Eu não sabia o que era uma revolução, ou o que era um governo, depois disseram-me que era quem mandava em nós, talvez por isso houvesse a fotografia de dois homens por cima do quadro da escola, com o senhor crucificado no meio, se calhar aqueles homens eram o governo, mas eu só sabia o que se passava cá em casa, e cá em casa, na taberna e nas coisas, mandava o meu pai, o resto não sei. Só sei que por causa da revolução, não fui ao jardim zoológico, por isso não deve ter sido coisa boa.

publicado por Gualter Ego às 19:25 | link do post | comentar