Despertador.

Como árvore não é floresta,

Por ser homem não sou pessoa,

Sou a sobra do que de mim resta,

Sou-me sem saber, dou de mim à toa

 

Se de dia se faz a vida

E se a vida é trágica,

Miserável, rouca e se em mim se arrasta,

Então a noite é mágica:

Noite é tanta luz quanta me basta.

 

Só não estou morto,

Porque o Diabo não me quer,

E só não estou mais perto,

Porque não sei ao certo

Onde te perdi,

Se eu não vi,

Que todo eu era torto,

Torto demais para morrer,

Ou deixar de viver,

Por ti.

 

E se por tudo isto

Acordamos todos nós,

Amarei, então, o despertador,

Por adição é isso que ele faz,

Despertar a minha dor,

Tenho frio quando tenho calor,

Sinto ganas de fugir quando sinto amor.

 

Tilintar estridente que me acorda,

Ténue torpor de recém-mortos sonhos

E as pálpebras pesadas,

É o vulgar repetir dos dias medonhos.

Acordo sem conseguir pensar,

- Tenho que ir mijar...

publicado por Gualter Ego às 18:27 | link do post | comentar