Do achar que se vive.

Ninguém está vivo. Nunca se pode estar verdadeiramente vivo. Rompemos a inexistência ao anulá-la no dia em que a nossa mãe nos dá à luz e tornamo-nos existentes, porque, para trás, existia o nada, nenhuma memória alheia de haver alguém que fosses tu. Existes, penses ou não, simplesmente, estás existindo. Assim como só podes saber o que é o frio, se sentires calor, ou vice-versa, é preciso morrer para saber que se está vivo. Sim, o verbo estar no presente do indicativo, então, não faz sentido, portanto, só podes clamar que estavas, pretérito imperfeito, vivo, quando morreres. Nunca estás vivo. Estiveste vivo, há as memórias que deixaste; não podes dizer que uma árvore fez barulho ao cair, se não estavas lá quando ela caiu, dizendo que as deixaste, que um grupo determinado de pessoas que te influenciaram e pelas quais foste influenciado, se lembra de ti. Para eles, tu estás vivo. A morte é tudo: paz, certeza, fado. Existir sem morrer, contrariando todas as leis que se pretendam enunciar, não é viver, é um prolongamento hipoteticamente egoísta do achar que se vive.

publicado por Gualter Ego às 23:30 | link do post | comentar