Retrato de um louco normal.

"Sem a loucura que é o homem

Mais que a besta sadia,

Cadáver adiado que procria?"

- Fernando Pessoa

 

 

Julgavam-no louco. Dormia no chão, escrevia nas paredes, comia com as mãos, deixava crescer a barba por tanto tempo que lhe poderia servir de suspensórios, se às calças ele as vestisse. Acendia fósforos, só para os ver arder. Falava com os gatos. Tinha-os como amigos próximos; mais de uma dúzia. Gostava de gritar e de dançar com as vassouras. Nada sabia, nada quis saber, nada lhe ensinaram. Morreu sorrindo, sabendo mais que todos os homens.

Homem respeitável, de tratos delicados, palavras comedidas e timbres profundos. Repetia o ritual automático de dar o nó na gravata todas as manhãs, excepto Sábados, Domingos, Feriados e Dias Santos. Dava um beijo na testa da mulher e saía para o trabalho, de pasta na mão. Homem impecável, prestável, bom-falante, diziam os vizinhos. Trabalhava das nove às cinco. Não bebia, não fumava, não comia por comer, nem exagerava no sal, nos molhos ou nos açúcares. Antes de apagar o candeeiro da sua mesa-de-cabeceira, dizia "amo-te" e aconchegava-se nos lençóis. Pagava a putas para ser amado.

publicado por Gualter Ego às 03:52 | link do post