O Sr. Alfredo.

-Já venho. - disse o Sr. Alfredo.

 

Levantou a roupa da cama, sentou-se, tirou os óculos e calçou os chinelos. Enquanto se dirigia à porta, D. Maria olhava-o por cima dos óculos, com as sobrancelhas em jeito de desconfiança.

Trinta e sete anos de casamento, trinta e sete anos de conformidade, dois filhos, paridos e criados, homens altos de olhos verdes e de família feita, uma camisa de noite e um pijama às riscas. Não é um casamento feliz, é um "eu já nem sei por que raio me casei contigo, mas deixa-me estar assim que estou bem". Ao menos aquecem-se um ao outro, que estas noites de Dezembro não devem ser passados ao relento nem por um cão e a cama do narrador, mesmo sendo minúscula, parece enorme por só um corpo lá dormir.

Antes de se ir deitar novamente, Sr. Alfredo tomou um comprimido para dormir, água da torneira sorvida das mãos em jeito de concha, pela goela abaixo. Depois, tomou outro. Sentou-se na sanita e fez o que tinha a fazer. Deixou-se estar a olhar para a porta da casa-de-banho, até que sentiu o peso do sono na ponta das pálpebras. Limpou-se, reparou que se havia esquecido de acender a luz da casa-de-banho e foi para a cama.

 

Onde é que foste? - perguntou a nossa D. Maria, que já havia lido sete páginas inteiras da sua revista homónima na ausência do respeitável cônjugue.

 

O Sr. Alfredo descalçou os chinelos, tapou-se com as roupas da cama, ajeitou a almofada e apagou a luz do seu candeeiro.

 

-Não me ouves, homem? Onde é que foste?

 

Ora, ele aqui poderia ter dito que tinha ido cagar, que seria a verdade, mas também podia ter dito que tinha ido à janela da sala fumar um cigarro, para ver se ficava mais tranquilo e dormir melhor, que já há algumas noites que acordava a horas impróprias e não conseguia mais adormecer, poderia ter dito que tinha ido comer qualquer coisa ou beber um copo de leite morno, à cozinha; poderia, ainda, ter dito que tinha ouvido um barulho, ah, mas isso a mulher não ia acreditar, até porque ela não ouviu barulho nenhum, e a paranóica ali é ela, e o marido é franzino, mal-achado e débil de estatura, sem falar da coragem duvidosa de um homem que tem medo até da aranha mais minúscula. Não. Sr. Alfredo não disse nada disso.

 

- Fui à casa-de-banho bater uma, enquanto pensava em ti.

 

"Amor é isto e nada mais."

publicado por Gualter Ego às 01:29 | link do post | comentar