A morte. (Ou "A Morte")

O seu olhar convenceu-a. A fogosidade dos olhos dele, Morte, nome pelo qual respondia, apenas arranjava rival nos seus cabelos ruivos, labaredas em cascata pelas suas costas.

Ficaram bastante tempo olhando-se nos olhos, como tentando decifrar o que as palavras tentavam dizer através do olhar. "Je t'aime, je t'aime pas! I love you, I love you not!", como se o amor importasse ao que o desejo concerne. Mas a corte continuava, e a Morte, que lhe passava a mão pelos seios, fazia desaparecer todo o pudor da carne humana, como um espelho que se parte, e o nu passa a ser vestido, porque a carne é a nossa genuína roupa.

Beijou-lhe o frio dos ossos e disse "Amo-te". Morreu sorrindo, porque se entregou ao quente amor da cova que a entregava às larvas que lhe comerão a carne e lhe limparão os ossos. Morreu amando, porque a Morte a seduziu no quente amor do vinho e da chuva.

publicado por Gualter Ego às 01:04 | link do post | comentar