Memorial da inocência.

 Todas as noites adormecia a pensar nela, em todos os nossos beijos que eram amor, uma demonstração singular de inocente e ingénuo afecto, achego dos corpos alheios aos pecados da carne fraca. Todas a noites sonhava com os seus cabelos doirados, ondulados pelo vento do pôr-do-sol, cuja luz lhe arrebatava o perfil, enquanto sorria.

Um dia, ofereci-lhe um pendente, com uma pequena pedra de quartzo e sussurrei que a amava. Ela uso-o dias incontáveis, embevecida e apaixonada, até que, um dia, me negou os seus lábios pintados a carvão, delineados a regra e esquadro, poço de onde eu não me cansava de beber, pois da sua boca eu tinha sede, e deixou de usar a pedra de quartzo pendendo no seu peito formoso, hirsuto e pálido, no fio que lhe dava a volta ao pescoço esculpido em mármore que é carne, suave ao toque, agradável ao olhar. Consumou o desdém pelo coração que lhe tinha sido entregue em mãos, com um olhar frio e arrepiante. Tudo o que é mundo caiu sobre mim, tudo o que era amor em mim se tornou em ódio irracional e vontade pubera de cessar a existência, em vãos e infundados desabafos sobre o que é sofrer por amor, sem sequer saber o que é viver por amor.

E o petiz chorou, porque era aquele o seu primeiro amor, tornado o seu primeiro desgosto amoroso. Entretanto, ganhou barba.



publicado por Gualter Ego às 23:19 | link do post | comentar