Segunda-feira, 11.08.14

Diários de Taizé - 2014

Jaz num sono eléctrico, aqui ao meu lado, o caderno negro que trouxe de França quase cheio. A sua presença só enche-me a ansiedade. A consumação do que está escrito implica editá-lo e publicá-lo, mas tenho medo de o abrir e começar a transcrevê-lo. Porque fazê-lo é reviver o que senti dolorosamente bastante - e agora pela sua metade e a frio, como quem olha para uma cena de porrada da sua varanda. E fico num limbo de desagrado, nervoso com a goela seca, por sentir as coisas todas nos seus restos e por já só sentir os seus restos, um paradoxo infernal de martírio e luto. Talvez saiba o que fazer assim que descansar um pouco mais, assim que me entre novamente no corpo a cadência dos dias regulares - a cadeira de sempre, a janela de sempre, o olival de sempre. 

Agosto de 2014

 

 

27/7/2014

            Tenho as ideias cansadas e encontro-me só. Desabituei-me da solidão e agora sou uma cria de animal desmamada bruscamente. Não procuro, assim, culpar quem seja por ter vivido sentimentalmente acompanhado desde tão cedo (e eu sei quão tarde chegaste) e ter criado a ilusão de que me poderia balouçar no trapézio, indefinidamente e sem medo, como se agora culpasse o fogo do frio que espanta no inverno. Sinto a mais ferrugenta das desilusões dilacerar-me por dentro, por toda a ingratidão que acho representar, uma tal que nunca cheguei a sentir sequer perante a vida e querer terminá-la eu.
            Sinto não te ter dado o suficiente, sequer o aceitável, sequer o justo. Que fui sempre algo que achavas amar como se guarda um amuleto e que eu não fui capaz de te trazer sorte. Sinto, agora, a culpa irremovível de ter, distraído, achado luz em outro lado, de ter feito até o mínimo esforço para lá de ti. Nunca te soube dar o que a tua disposição pede. Creio, portanto, que te usei sem te poder oferecer algo justo em troca de me dares ânimo de vida. Sinto e conheço, agora, que vivo uma penitência e uma dívida perpétuas, e que, como tu não sabes olhar para mim agora, igualmente eu nunca soube olhar para ti conformemente.
            Turva-se-me a vista a regar estas palavras tão secas, tão usuais. Espanta-me até a mim a incapacidade de levar friamente de uma ponta à outra este assunto. Prova maior de que não passo de um falso profeta - o decalque vergonhoso de uma alma sensível num corpo inadequado. Tomaste-me como a um orfão e sinto-te verdadeiramente mais eu que qualquer parte de mim. Como se a noção minha de uma felicidade só se visse consagrada fazendo-te rir. Eu não quis nada disto. (Não me oponho, todavia, à ordem suspeita das coisas.)
            Proponho-me, por violenta imposição de uma insaciabilidade que súbito vi crescer em mim, à especulação fria de promessas de cura para este mal-estar de solidão - que eu próprio me infligi, talvez como pousio. Pior será de nada enfim se cultivar, se me acabar por ganhar urtigas por descuido.
            Eu não me sei aproveitar. Sinto como um pânico o ter que me conceder à subjectividade do que será a melhor parte. Não me tolero sozinho. Como um escultor que ficasse sem mãos, estar sem alguém é para mim dar inutilmente com os cotos no mármore. A percepção violenta de que, sem ti, seja lá quem fores já, mas especialmente tu, que o foste tanto tempo, que sem ti mais vale não ter voz, que deixe de contactar às coisas, passando tudo a um esforço ridículo de humilhação largamente pressagiada. As saudades que sinto não são só a ressaca de um uso permanente, mas a descompensação física de um sítio onde até o vexame fazia sentido.
            Não havia uma resolução pacífica. Encomendo agora todas as minhas acções futuras, decisões e o espírito todo ao perigo de me afogar em mar alto - eu que não sei rezar por nunca ter andado embarcado.
            Há, talvez, cabos que nunca se deva dobrar, por muito que se possa. E não é, queria eu que fosse, apenas o pessimismo característico a falar, a redução, ao absurdo, de uma situação pelo seu desfecho menos favorável. Quem dera que eu assumisse todas as minhas acções como certas. E se não como certas, ao menos como optimisticamente prováveis, pelo valor único de eu as ter levado a cabo.
Sinto o nojo de quem lê isto tudo, como é certo eu sentir isto tudo. Mais o pânico de ser entendido, seja por admiração, paixão ou semelhança. O pânico de existir só se confiado a alguém e o peso da escolha pesar-me a mim.
            O descaramento com que o mundo se alheia das minhas questões, sendo-o eu ele próprio enquanto (o) viver. A sobranceria com que a ordem das coisas não cessa de se desordenar o mínimo que fosse para me dar algum tempo, alguma margem de manobra, só uns minutos para recuperar o fôlego. Agir, enfim, num contra-relógio de uma paixão condenada, pela simples embriaguez de não saber abdicar - e de algo vivido só platonicamente não me parecer minimamente vivido. Aonde foi a doutrina a que me propus? Desfez-se ao mínimo fascínio num estrelajar histérico de cores e sensações infantis. Desconfio da vida como todo o mendigo deve duvidar de uma esmola grande. Corri a agarrar, antes que a vida mo tirasse à traição como parte de um jogo de troça. Seria igrato duplamente se o considerasse, agora, um erro. E mais facilmente nisto tudo escolheria que olho me haveriam de vazar, que mão me haveriam de amputar, que filho me haveriam de levar.
            Sinto a falta de um peito como uma criança de colo. A mais leve recordação de um carinho escangalha-me a postura, e se sinto fortemente que nada faz mais sentido que ceder a tais dolorosos impulsos, não poderia com mais urgência pedir à vida que me privasse de sentir o que fosse, que tirasse as cores à vida e tudo o resto, que me tornasse só interpretação sem a selvagem necessidade de emoções. Como eu desejo inutilmente deixar de sentir, deixar de danificar colateralmente só por se existir - como eu abomino a vida social e me rio de mim mesmo do estardalhaço que causo ao tentar levar uma vida discreta e de como uma vida se enche de todas estas situações e se vê assim comprometida e de como me espanto, enfim, de conseguir viver (salvo seja) paralelamente a tudo isto. Como eu gostaria de me esquecer da vida como consigo esquecer-me a intervalos das mesmas coisas nenhumas que a compõem. Somos só frágeis relações sentimentais. , como as estrelas quase invisíveis, sendo cada uma um sol.

Eu sei só como é triste não ser as sensações que vêm da tua língua, os teus olhos a olhar-me, a força difusa de formigueiro que a chuva inflige ao cair. Eu sei só como é triste sentir-me complacentemente cativo de um corpo que não pedi, que visto ajoujado, feito por um alfaiate indiferente. Estou como bêbado ou sonhando. Tudo nisto é irrisório porque não me parece fiel, antes um teatro à espera que alguém, num ataque de piedade, irrompa num aplauso que me afiance que a farsa terminou.
Cheguei hoje a um destino literal e conhecido, sem outro propósito que não o de estar sozinho. Não esperava, tolo, que fosse tão incomportável chegar já sozinho de vespéra a um sítio que se quer exílio breve. Cada vez mais me é urgente o fim da palavra para o entendimento completo. Eu quero saber inverter-me para dentro de ti, ser o dobro de tudo na unidade, deitar-me por sobre ti e deixar-me olhar-te nos olhos sem tempo e por aí me derreter para dentro da tua bondade acolhedora. É pelos olhos que me transbordo, é por eles que me denuncio por serem a única constante em mim.
            O resto trago escrito nos ossos, visível já só depois de qualquer possível julgamento e castigo.

Deixem-me estar aqui, a passar fome de tudo e para sempre. Esquecer tudo o que me relaciona com a vida comum: família, amizades, laços ténues, cidadania. Tornar a minha vida um álibi dela própria.

A ideia de ir dormir apavora-me mais que o desânimo de estar acordado. Voluntariamente dar o fim ao dia, apressando o próximo, inquieta-me. Saber que vivo de bem com a exigência vil de alma que te quer obrigar a não largares o sentimento que tens por mim enche-me de remorso assassino. Não tenho jeito de estar, nem no fingimento prático.

Acto de contricção:

Dói-me mais o prejuízo que causo à sensibilidade alheia que o que causo à minha integridade. Não por santificado altruísmo de calvário, mas por um insustentável remorso de implicar estragos para lá de mim, a quem por defeito me confiou a vulnerabilidade do que sente.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

28/7/2014

[omnia fui, nihil expedit]

Sinto uma angustiante secura de alma, que me inibe tanto a produção sistémica de traduções sentimentais, quando a casualidade tímida dos protocolos automáticos a que me vejo obrigado (os quais, confesso, me dão um certo sádico prazer, como Ulisses que se vestiu de trapos para não ser reconhecido, eu ajo-me de trapos para não ser entendido). Estou já abúlico de uma maneira urgente, que me impede o fingimento e me entristece, como um relógio artesanal e ornado a ouro e gemas, que se visse, de súbito, tornado chocalho de bebé. Ao menos que as metáforas mais tolas se realizassem - ao menos que sim, que fosse brinquedo de criança. Toda a minha vida me foi puramente denecessária. Duplamente: porque desnecessárias são todas, mas eu o sei.
Já sei só ter fome e sede e é já somente isso que me anima, como a qualquer bicho. Tenho já só esse pulsar primevo nos actos, mas ainda entendo tudo. Abaixo do pescoço sou todo apêndice.

Solto um pranto que me vem do quanto me espanta esta falta de conforto. Adivinhar tudo o que não se repetirá de nós. Não enxergo para lá de me sentir assim, fatalismo que floresce da cicatriz umbilical que ficou de tudo isto. Sinto-me naufragado numa noite sem lua, respirando enquanto der.

Ao olhar o céu daqui, nocturno, limpo, pingado de inúmeras ardentes estrelas, sinto, todavia certo, que me escondo por detrás de uma ridícula incapacidade. Não será, necessariamente, o reconhecimento da minha pequenez - não sinto qualquer aflição perante o universo, ele que se entenda com o infinito que é. O que sinto é, precisamente, a aparição fria da minha finitude insuficiente. Ao olhar o céu negro sinto o mesmo que ao olhar o meu entender claro das coisas. Que por mais anos que passassem nunca poderia contar os astros todos (pior, se os contasse, entender a magnanimidade do número), que a sua posição mudaria, que me engasgaria na contagem, que tropeçaria, míope, num baralhar de somas. Sou eu assim e o meu entendimento, capaz só de apreciar relativamente, nunca de chegar sequer às fronteiras do absoluto todo, tendo-lhe, todavia, a sua noção perfeita.

Relendo coisas minhas de antes, reconheço que não tenho já ideias importantes, esclarecidas, axiomáticas, como julgava ter e postulava. Seja, talvez, um humildecer de alma ou um empobrecimento do ânimo. Perdi a vontade de parecer sapiencial a todos os que me lêem, inexistentes quase. Escrevo já só como quem reza, orando para sentir o efeito temporário de tornar tolerável a ideia do porvir. Escrevo como uma eutanásia que seja só uma noite de sono tranquilo.

A chuva caiu hoje de manhã como um desmoronar. Causa-me na alma a dor inteligivelmente abstracta um transtorno menor que aquele que me causa o facto de todos os caminhos serem agora só poças e lama. É essa a verdade. Mas como escrever de poças e lama? Sinto mais o escaldar da minha língua quando bebo café demasiado quente que esta esta vontade de me anular da vida - não morrendo, mas, subitamente, e sem qualquer consequência, o destino ter-me poupado a existir. Só posso medir a dor de tudo em danos práticos. E a minha histeria lírico-pessimista nada interessa quando tenho os sapatos enlameados, as meias encharcadas e os pés frios.

Fazer amor contigo é o mais próximo que tenho de rezar sem qualquer cinismo. Ir até ti como quem se bendiz, tomar os sumos que deitas como quem consagra. Toda a boca larga e carnuda que me diz

- Tomai: bebei e comei.

Renovo a minha fé sempre que me recebes.

            Meditava muito sobre uma consideração que achava só me chegar por via de uma necessidade animal, a de ter um filho.
            O argumento, para não o ter, seria escusá-lo da vida. Mas aí privaria-o, por antecedência, de julgar por ele próprio. Depois lembrei-me que escrevo coisas em cadernos, e, tirando o esforço e as diferenças orgânicas, chega quase a ser um só mesmo. Escrever livros e ter um filho são ambas maneiras de projectar uma sombra para lá de nós, colocar alguns indícios de nós, através deles, no futuro que não é nosso, se pensarmos nisso o suficiente, e não virmos num filho mais que uma obra que se vai fazendo até que o mundo a toma por sua.

            Outro dia vi o amanhecer da janela do meu quarto. Um cobertor de nevoeiro baixava sobre o pinhal e toda a luz parecia trazer quebranto e presságio de coisas graves. A falta de vento, mas a consciência da humidade na minha pele, pareceu entorpecer toda esta hora e, lá na minha janela, senti viver-me a vida toda, abismando-me entre mim e mim, naquele cenário parado. Ouvia-se só o burburinho dos primeiros pássaros, que profetizavam mais, sinto-o agora, que muitas línguas estrangeiras faladas bem. Decidi sair dali, com um suspiro casual e um encolher de ombros - dali, da minha janela, onde percebi a vida toda - que é como tenho saído de todos os decisivos momentos da minha vida, e deitar-me na cama. Não me recordo de sonhar em todas as horas que dormi, depois.

            Sentir todos os infortúnios práticos como uma forma precoce de despachar já as ninharias da vida comum.
Sentir já as humilhações de uma traição, a angústia da perda e o martírio das saudades - tudo, com pressa.
            Calejar da vida que vivo com os outros, para mais tarde não me distrair do que vivo comigo.

 

 

 

29/7/2014

Toda a minha vida acolitei somente. Quis a ironia exangue da vida que fosse, realmente, educado na fé católica, servindo o ofício de acólito durante alguns anos. Foi talvez presságio frio - irónico - do que estaria guardado para mim. Poderia, também, ser o Destino a preparar-me para para o que estaria guardado para mim. Mas eu não acredito no Destino. Acredito só que reconhecemos a experiência quando ela é útil. E toda a experiência é uma estafa. Nem todo o sofrimento serve um propósito e só servirá quando ele chegar. É do maior cinismo confortar o que sofre com hipóteses. Todavia, é, também, ternurento, aquele que sofre o sofrer e não o trata como produto de si. Ternurento como uma criança que suja o fato domingueiro numa poça que não previu tão funda.
            Sinto-me a segurar um castiçal perante a vida ritual de quem passa, alumiando só simbolicamente as tristes e encomendadas existências. Não tenho engenhos para a vida que não sejam a impossibilidade que é ter a glória de tudo o que não faço. Sinto que a tinta desta caneta organicamente brota de mim e que, como negra que é, só pode escrever as noções turvas dos maremotos que tenho na ideia. Tudo termina no prazer vão de ser lido. Tenho o desejo secreto de deixar este caderno perdido na mesa de uma esplanada ou num banco de jardim, mas sentiria a sua perda - apesar da nobreza estóica do gesto - como a morte de alguém querido. Sou o sacerdote de uma igreja apocalíptica que pratica o exacto oposto daquilo que doutrina.

É nestas horas mortas que constato debilmente que possuo, de facto, uma fé. É um impulso só e não falo da fé que tenho no que escrevo. Uma crença que se baseia em descrer, em duvidar sempre, não como quem aplica um método, não como quem desconfia, mas a duvidar como os teimosos - “talvez não se morra”, “talvez o amor não se dissipe”.
            Uma fixação santomeica em nunca crer absolutamente no resultado mais provável, porém sentido dolorosamente a sua inevitabilidade. (Somos imortais até morrermos.) Vivo, assim, uma iluminação desconfortável nestas horas mortas. Não as procuro, mas vivo para elas. Todas estas noções, melhor ou pior descritas, são dúcteis como um fio de cobre e trazem o sabor férreo de como quando se mordem os lábios, ao constatar que, virtualmente, tudo se pode.
            Tudo o que digo é tão pouco e como queria antes ser a chuva que vejo cair-se daqui até às colinas que me tapam o horizonte; ser assim abrangente, um manto reflectido de tudo, cuja única obrigação se reduz a cair. E saber que essa chuva tem mais efeito prático no correrio do mundo que qualquer Verdade inadvertida que eu, sem notar, escreva. E tomar cada verdade que reconheço após o ponto final como um apocalipse individual, arrebatamento só meu, levantar os olhos do caderno e a vida ainda continuar: é como se me cuspissem na cara. O descaramento de a regular existência da vida continuar impávida para lá de mim. E é aí que duvido dos que escrevem que a vida são só as nossas sensações.
            Não me sinto receber algo da vida como sente o gato que se derruba no terraço a receber sol; sinto-me, sim, incapaz de fazer os outros, todos, levar algo de mim. Imagino-os em conjunto como pequenas partes de uma grande máquina, um organismo dantesco e parasítico de si próprio, que existe inteiramente para meu prejuízo, sem qualquer distinção de partes. Vejo-os todos iguais, só com o propósito de me atrasar a vida, de me frustrar as ambições. Porém nunca me enformo nativo, sem algo que me ligue a esse sistema corrupto que o fizesse. Sou um estrangeiro em todo o lado porque em todo o lado me sinto a visitar. Os cegos das ideias coroaram-me porque vejo, mas eu sinto profundamente a minha míopia de alma como uma maior cegueira que a deles, porque a esperança é um membro gangrenado impossível de amputar.

As figuras da minha infância - sendo a maior a minha avó, depois cada velhinho que cruzava na sacristia ou no adro da igreja, também o padeiro, na sua volta diária, o peixeiro, na sua volta semanal - todos os vejo a definhar do meu sítio impotente. Se voltar à igreja, o que me vai doer não será a falta de ter um deus a quem rezar, mas todos os habituais lugares agora vazios, efígies, monumentos gelados à morte. Nunca mais ouvir o “ora o que é que vai ser?” do Sr. Acácio, quando desde que me lembro que a conta do pão era sempre a mesma, nunca mais lhe receber o troco das mãos, ter sabido da sua morte inesperada num telefonema curto para Lisboa, onde me alheio disto tudo e não tenho o sino da minha aldeia a assegurar-me, no escuro do quarto, que o mundo está intacto lá fora. O Sr. Abel, cuja falta maior se nota na qualidade do carapau, lápide que ache digna o bastante para o ofício célere que levava, caiu acamado com um tumor cerebral. A minha avó, senil já há largos anos, que no outro dia me tomou pela mão e me exigiu que a levasse ao médico, por via de agora se esquecer das coisas e dos nomes das pessoas.
            Foi o soco mais irónico que a vida já me deu. Tudo isto me lembra só que vou morrer e apavora-me só isto não me apavorar. Que frieza é esta perante a ideia tão presente da morte? E pior que da morte, da velhice humilhante que nos traz joguetes da vida quando ela precisamente nos deve tudo. Antes de vir para cá, visitei a minha avó, que me disse, ao despedir-se, num raro momento de lucidez (tão raro e mais genuíno que qualquer um dos meus), que talvez fosse aquela a última vez que me veria, que não se sentia nada bem. Senti um calafrio por mim todo. Verdadeiramente terá sido a única coisas que senti faz já largo tempo - e foi raiva. Raiva perante a haver uma tão latente noção de morte em alguém já não sabe o nome do neto que criou, que seja isso, de todas as coisas que não esqueceu, que lhe atormenta a cabeça fraca. E todos quantos vejo a seguir a sua vida sem sequer se recordarem que tudo tem um fim, é deles o meu maior esgar de asco. Não escrevo salmos à morte, nem pretendo ditar epicuristas (o carpe diem é um positivismo [em método], que dessa maneira se consome a ele próprio) a quem for que me leia, mas que o fim, não sendo o propósito, é um prazo a cumprir, e há que cultivar o nosso jardim.

Vivo tantas vidas na antecipação de pedir um cigarro. Imagino-me abordando o fumador das maneiras mais dispersas, amigavelmente, umas mais formais, outras mais toscas, a medir o ângulo do sorriso falso e a postura do corpo e a posição das mãos; talvez mentir, arranjar uma razão para evitar um não, as engenharias certas da posição dos pés e do queixo, o olhar nos olhos para estabelecer sociabilidade; enfim, imagino-me fumando o cigarro, todos os travos suaves, o sabor do fumo e da folha, a dormência nas pálpebras e nos extremos de mim, dois momentos de sonho que imagino com regalo. E a oportunidade passa ou acho que não vale a pena (como assim passo pela vida) e fico sem o cigarro que nunca tive. Volto para a ideia de fumá-lo como quem volta a casa e fico lá até o sol se descobrir por detrás de uma nuvem grossa que o vento carrega; aí acordo, de verdade, e resigno-me.

Discuti, hoje, amigavelmente, com um desses cristãos de espírito sitiantemente missionário, que abertamente me denunciou a impossibilidade prática das minhas escolhas políticas. Nada de novo. Denunciei-lhe, porém, a mesma coisa, todavia acrescentando que, ao contrário dele, o carácter utópico do comunismo vem, sobretudo, da preguiça, enquanto que o do cristianismo não provém de um pecado, mas da própria falibilidade da natureza humana. Amar o próximo, inquestionavelmente, como a nós mesmos, quando amar-me a mim mesmo é (seria) doloroso, visto que não me confio. “Amai-vos uns aos outros” - possível só se toda a humanidade acordasse amanhã, e perpetuamente, levemente embriagada. O próprio fim do cristianismo é aborrecido, porque é colectivo. O do comunismo também, mas esse é prático. O fim a que o cristianismo se propôs só faz sentido individualmente, como as crenças pagãs e budistas, mas a religião organizada tornou-o num ideal de massas. No comunismo é a vida que se partilha - e essa não vale nada. O esforço prático deve ser usado no sistema melhor. Na religião (vulgo espiritualidade, misticismo, superstição, o que seja) e no pensar, é o que resta do que é prático na vida que importa - e isso vale tudo. E não se pode partilhar.
            Falei mais do que ouvi. Depois comentámos a chuva e os filmes melhores que vimos desde a última vez que estivéramos juntos. Penso que fiz sentido e deve ter sido disso que me exaustei.

Nunca fui sincero e quase tenho vergonha naquilo que escrevo - como teria de algo escrito com quinze anos, mas logo após escrevê-lo. E quando sou sincero não é comigo, porque comigo não consigo fingir ser sincero. Não digo que minta, pois não minto, mas o que é sincero em mim é só o sentido prático de despachar a situação da maneira que menos ondas cause ao pequeno charco da minha vida, usando de todas as noções de moral, ética e ontologia que fui acumulando (alguma coisa se leva da vida). As decisões maturadas nunca são sinceras.

Vou dormir como quem perdeu um o dia, não havendo como ganhá-lo, da maneira mais discreta. Adormeço, de novo, não só subordinado às leis naturais, inevitáveis, como subordinado às vontades femininas, perfeitamente evitáveis. Culpo o ser-me tão jovem não haver mais vontade. Mas é isso que sou, algo que só existe, praticamente, se engrenado em algo, se não mais forte, mais enérgico ou mais distraído. Sem quem me leve pela mão estou na vida como uma criança que se perde na multidão de uma gare.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

30/7/2014

O meu pensamento está irrequieto de ideias inúteis, inundado de um caldo morno e turvo que sinto causar ondas ao caminhar. Não consigo um sofismo claro, uma metáfora limpa. Não estou para a substância nem para o estilo. Tenho em mim a vontade de uma bebedeira e de avulsos cigarros em larga companhia, sem a dita sombra pesada da substância e do estilo nos meus ombros, que agora sinto sair a ferros. Sinto os olhos por detrás dos olhos moverem-se como moscas no ar, num flutuar impesável de movimentos brutos, a intolerância da calma numa efeméride perpétua. Sintos os olhos de facto inundados de cansaço físico que me assalta de nojo. A incrível necessidade de dormir e o prazer que tenho nisso. A clareza de espírito que só me traz o deitar-me ao comprido na cama, cada vértebra estalando num susto, os olhos, abertos, que descansam no escuro. Tudo isto me repugna na manhã seguinte, como se tivesse tomado a amante errada. Flagelo-me destas distracções, mas se me penitencio é a mim próprio, que a minha disciplina é castigar-me por ser indisciplinado, outra vez como as moscas, que cabeceiam contra a janela. Quando lá poiso a cabeça, a almofada lateja-me sussurros infernais de desafio. A cadência dormente da chuva, como eu queria ser só ela e não ter sono, chegar como um vento de norte e não entender nada.
            Vou-me bastando a lama espessa que fica das primeiras abertas, a inconsistência estética que é uma rua molhada num dia de sol.
            Veja-se como tudo isto me sai a custo dos dedos, como estas ideias são destiladas de um produto velho e sem efeito; o achar-me de uma estirpe superior e cometer a volúpia de me odiar. Devenir immortel et, puis, mourir.

Tudo em mim é por preguiça. O ateísmo, que teimo anterior à ideia de deus, é só uma maneira de ignorar todas as complexidades da ciência com a própria ciência, guardando-a para os outros, e um jeito de simplificar a minha descrença num sentido para a vida. O meu estoicismo medíocre, para além de preguiça, é uma mentira em que se vive de peito cheio sem realmente chegar a um fim. O meu pessimismo é um contra-optimismo: achar o pior para não ter que justificar o melhor. O meu comunismo é ter nascido pobre e sem engenho nas acções, tendo a capacidade de tudo, para enriquecer.
            Ofereci-me ao que me desse menos trabalho (quase tudo teorias). Cultivei uma indiferença à vida e achei-lhe os nomes certos para os outros me chamarem intelectual em vez de calão. Faço-me mais incapacitado do que sou e escrevo pelo pouco incómodo que isso me causa.

Cada vez que escrevo é como se fizesse a tradução obscura de um autor estrangeiro, pátrio de uma língua complexa com poucas equivalência na que falo. É quanto se perde nesta tradução possível do que acho espalhado por dentro de mim. E não sei se será pela minha incapacidade, se pela nata insolubilidade do que me povoa. Ambos, talvez, que da vida já nada se espera.

Aquela piada do tolo que martela o polegar para sentir o prazer do desinchar da dor, nela mesma a resposta toda à mais profunda dúvida teológica. Haver mal no mundo sendo deus perfeito, por defeito, não é prova da imperfeição dele mesmo, mas da sua competência. E procurar uma resposta na dúvida é dos fracos - os fortes procuram um martelo.

Sentir o choro chegar e só conseguir pensar em como o descrever na página. Que parte ridícula da minha vida me encontro vivendo.

A poesia é uma forma inferior - ou fraudulenta - de dizer as coisas porque se submete a regras - a não ser que consista em prosa com parágrafos na vez de vírgulas. Não lhe chamo forma de arte inferior, atentem, mas de dizer as coisas. Porque a alma não tem métrica, caramba. As minhas ideias são demasiado urgentes para me demorar a pensar na rima.

Ah, eu e a minha neurasténica mania de fazer das verdade minhas as verdades gerais. É a minha alma impreparada que não consegue poesia. Mas é claro. E o poeta é todo o que queira, desde que saiba domar as ideias. Vejo agora e acabo assim por assinar um desmentido de um parágrafo para o outro.. Obrigado e boa noite.

publicado por Gualter Ego às 00:26 | link do post | comentar

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31/7/2014

O aperceber-me extático do escaravelho na parede, do morcego que voa em roda do candeeiro alto, do gato meigo e com fome que não me presta atenção, da existência enigmática, independente de mim, de tudo isto, e também da mulher-símbolo que chora ao meu lado lágrimas de mim.
            Somos o único organismo que escolhe e a única escolha sensata, digna do nosso cume na hierarquia biológica, seria parar de escolher - ter todas as condições e nunca usar delas, todas as noções e jamais as pôr em prática, gozando o orgasmo de saber que poderíamos, numa febre de hipótese.
            Queimar ao nascer do sol a obra que se produziu durante a noite em horas de suor e dentes cerrados. Deixarmo-nos adormecer nas ideias de versos e frases perfeitas na total certeza de que ao acordar não nos recordaremos delas. Aplicar isto à vida - ignorá-la como a um mendigo, ou remediá-la como um analgésico remedeia. Saber que poderia, se quisesse, ser como a preguiça, o animal, na parábola para crianças, agindo não por preguiça, mas por indiferença, suicidando-me de sede, num esforço menor. A minha alma é medíocre, mas não se fez: deram-ma assim.

Até este meu ermitério é só uma ínfima parte disso; nem sequer deveria pensá-lo com esse nome. É uma pausa muito curta, cada ano mais, porque isso o meu ânimo tolera, todos estes sabores de coisas sem alguma vez chegar a tomar alguma, só beber da vida com a ponta amedrontada dos lábios, com a um café muito quente. Não é método, é ter sido uma criança a quem permitiram ficar o tempo todo em casa. Tentar mudá-lo é inútil e a glória é a verdade dos brutos. Não, não faço do que escrevo glória minha. Será, somente, o relato demasiado detalhado de todas as maneiras que usei para abdicar de todas as glórias.

O cansaço que tenho faz franzir a expressão e adquirir feições rudes. É cansaço real e temperado pelo desânimo de não conseguir preencher mais páginas deste caderno. Fiz, estes dias, uma amizade - que ainda pereço ter (ou cultivar) esse trato amigável de me ser muito fácil a introdução social,  com uma jovem estudante de economia, italiana, falante de português por ter passado tempo em Coimbra, num sotaque pronto e irremediável, já com a sua quantidade certa de histórias vividas. Ora, o ofício dela, parece-me, é exactamente o de viver na vida. E isso ela fá-lo irrepreensivelmente e com desenvoltura. Quero com estas inutilidades nem levemente biográficas dizer que ela enche páginas e páginas de caderno no ofício dela de activamente estar na vida. Invejo essa destreza, porque sou medíocre naquilo para que nasci e não poderei sequer tentar a vida como ela a constrói. Resta-me vê-la fazê-lo, e até em mim, e eu deixar-me conduzir, como um pequeno cordeiro no pasto da vida. Ah, essas pessoas que vivem; que conseguem tirar mais dos infortúnios que relatá-los. Que têm, verdadeiramente, um estofo prático. Invejo-os, dá-me prazer sentir que entrarem-me na vida é a caridade de um deus, que não podendo dar o fogo, abre pequenas execpções.

Tenho a vida como tenho a coluna vertebral: funcional mas dorida. Tudo se resolve com uma noite de sono, tudo se desfaz num dia de esforço. Foi a confimação da minha rescisão com uma vida prática, as circunstâncias do corpo a mimetizarem a incapacidade da alma. Ah, que porra, finalmente alguma coerência.

Ouvi uma voz que cantava um salmo ortodoxo e apaixonei-me. Não olhei para ver de quem era o corpo que usava dessa voz de mulher, não procurei saber da cor dos olhos, do cabelo, da cor de nada. Procurei tornar aquela a voz mesma que pensa por mim por detrás dos meus olhos, mas ela fugiu-se-me. Ficou depois um silêncio de tosses e gestos e folhas de papel, a crispação dos lábios e dos suspiros. Foi-se a voz e a memória dela e o dia, também.

O olhar vidrado e pálido com que olho o chão ao caminhar é um pleonasmo da minha alma, como a miopia é uma antítese irónica do corpo para com a alma.

Emburreci e os dias parece-me demasiado curtos para o que não sei, demasiado longos para o que não faço.

[Um gafanhoto poisou-me no braço. Reparo nele que, para fora de mim, as coisas se mexem, interagem sem qualquer necessidade das minhas sensações as reconhecerem. O gafanhoto saltoum, esvoaçou de mim para a grama. Reparo que a mais vil das existências é uma que não tem escolha senão perturbar outras.]

Quero viver sozinho num estado ébrio e sem desejos.

[Enumero coisas que quero como uma criança pelo Natal.]

Acabo todas as noites por me revoltar contra mim. Com sono são dois que escrevem, o idealista e o pessimista - e o pessimismo do idealista, junto com o idealismo do pessimista, porque nada em mim se consegue medir ao absoluto, impede qualquer um de ganhar vantagem sobre o outro. E é nestas horas que me deixo ir dormir, para me poupar a um desfecho que não posso prever e também por cansaço. Sobretudo isso, cansaço. Tanta gente. Há tanta gente e é a mim que não me suporto.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1/8/2014

Troquei dois discretos olhares com uma mulher, entremeei um sorriso e ela também, de duas vezes distintas mas consecutivas que nos cruzámos. Não sei que língua falaria, nem a que nome responderia, mas no que imagino ela fala num dialecto só meu e dela, onde ninguém responde a nomes. Essa dupla troca de reconhecimento, com mútuo distúrbio da musculatura facial, valeu-me mais que muitos anos de amizade fortuita partilhada com muito boa gente. É nestas mínimas interacções que sinto, verdadeiramente, e não sabendo mais de física que a certeza de que tudo acabará por se quedar no chão, a necessidade obsessiva que o universo tem de causas e efeitos. Mas os átomos de mim não tocaram nos dela e o efeito todo, sem causa física, foi maior que aquele de um soco. Senti-me egoística e carnalmente reconhecido.
            Engano-me pensando que quem me nota ao passar o faz para lá das minhas aparências, que por si são medíocres, como eu tento adivinhar o corpo pela roupa que o veste. Vivo, enfim, para ser reconhecido só por quem passa, a nunca ser descoberto a fundo e a não me descobrir com medo do espanto e do escândalo perante o âmago infernal.
            Troquei olhares com ela e imaginei-nos a fazer amor. Aí morra toda a filosofia e se põe à prova o estofo das palavras que largo. Foi a melhor noite da minha vida e imaginei-a só, mas juro que lhe sinto o sabor na boca.
Todas as minhas sensações são emprestadas - devolvo-as, nestas páginas, como quem devolve enrugado e dobrado nos cantos um livro que lhe foi confiado intacto.

O riacho alimentado pela fonte de St. Étienne está seco, apesar de ter chovido forte a semana inteira. Não me atrevo à analogia descarada, porque o riacho não quer saber de mim.

[Pesa-me, só, não poder molhar os pés, como quem os tira da vida, num ânimo de drogas e outras distracções.]

O calor do sol é impotente perante a forte orvalhada que tomou as ervas espessas. Descalço-me e sinto até aos tornozelos a água fria que a noite deixou, caminho na grama como quem acaricia o pêlo de um grande animal. Tropecei eu numas urtigas como na aparição súbita de o corpo ainda sentir para lá da minha dormência de espírito.

[Cocei-me, como não posso coçar a alma.]

Atrevo-me: estou seco como este riacho apesar de me ter chovido forte a semana inteira. Como me enervam todas as metáforas toscas que me servem como um fato à medida. Que rísivel me sinto de todos estes paralelos.

[E nem posso molhar os pés na vida a sério.]

Releio agora coisas que escrevi faz um ano e noto que sentia já franjas daquilo que hoje me cobre todo. Fico, porém, com os pés de fora, ao frio. Se puxo a manta das verdades impostas com os pés, descobre-se-me o nariz. E estou sempre nesta indecisão que é escolher onde ter frio.
            Na altura em que escrevi o que releio não me recordo de sentir indícios de que tal fosse acontecer. Lembro de, soberbamente, querer que acontecesse, com muito ânimo. Como quem se apressa a abordar o barco para o exílio. Espanta-me. Não me é hábito tomar a iniciativa da vida. Qualquer que seja. Sucede, reparo, em situações muito específicas, decidir escolher um trilho que sei incerto e com resultados que poderão, na sua maioria, ser desfavoráveis. Não será por aventura, sadismo, nem penitência. É por tédio. É um contra-tédio a que me obrigado - ou a que sou conduzido pelas forças inconscientes dos fantasmas que me operam - fruto de um animismo primordial, para não vegetar. Complicar a vida para lá do resolvível, só porque tenho sono dela. Torná-la, vá lá, minimamente interessante, ainda que não interesse a ninguém.

Aperceber-me, numa cólica fria, da vã glória opiácea da felicidade a meio de uma gargalhada histérica. Uma luz baça que se acende num arrepio quente de remorso, como se a tristeza, a quem me houvera prometido eterno esposo, me flagrasse na cama com a felicidade. O sexo, como resposta à exaustão da tristeza, é menos vergonhoso, em dependência directa, que a felicidade. Mas reduz-nos às ressacas mais irrisórias. Sinto mais necessidade física de contacto que de água. Náuseas maior ao olhar um corpo fortuitamente que ao recordar-me da inutilidade da vida. A busca pelo sexo e pela felicidade é uma estaca enterrada, onde está atada uma trela que nos prende de esgana e nos impede de pastar onde está mais verde.
            Um amigo confessava-me que a melancolia sentida num momento de meditação, porque honesta e pura, disse-o, havia sido o sentimento mais feliz da sua vida; que tudo parecia simplificado como uma fracção que se reduz, palavras dele, matemático, inerte como nós desatados, palavras minhas, imbecil, e que se o tempo houvesse parado naquele preciso momento, ele poderia ser, na sua tristeza, porque honesta e esclarecida, feliz.
            (A tristeza é a compreensão, porque o entender entristece. Ciclo espiral. Ah, é fácil e inútil como a vida o elogio da tristeza, o desdém intacto por todos os quantos conseguem nutrir-se da mais reles das felicidades, que não passa de inveja, tóxica inveja de não ser simples, de não ter já opção à tristeza e criar nela uma admiração doente que nos permita o gozar algum prazer [sempre o prazer] no senti-la. Ao tentar explicar-me numa conversa, ainda com esse amigo referido, italiano, calhou-se traduzir-se “elogio da loucura” para a língua dele, onde loucura é folia. Folia, claro, na nossa língua é pândega. Influência talvez medieval do cristianismo sisudo, onde qualquer indício de festa e entusiasmo seriam sinais de loucura. Mas folly, na língua inglesa, é um tolo, the fool, o mesmo de Shakespeare e Gil Vicente, aqueles cuja sabedoria reside em a terem sem a reconhecerem. A mais sã das loucuras é, portanto, a mais honesta das felicidades - a que não se conhece. A etimologia não engana. Resta saber: haverá em mim algo que eu não conheça? Provavelmente, sim. Mas é, obviamente, e será, fatalmente, indizível, enquanto for. Quando chegar, chegará num júbilo de iluminação, mas eu entristecerei por manchá-lo com o reconhecê-lo, como um jogo que só se poderá ganhar se não o jogarmos, sendo de o jogar exactamente onde nos vem o ânimo para a vida. Até lá, atinjo uma felicidade medíocre por meio de uma tristeza que aprendi a amar como um cativo fugitivo sente falta da vista para o mar que tinha da sua cela no exílio - um método que a vida me obrigou, indevolvível, e que recebi, incrédulo, como quem recebe uma piada má, depois de uma prometedora narrativa.)
            Depois

Percebi, há pouco, alegre e entusiasmado, que me consigo explicar em conversa, se nessa direcção, com paciência, dirigir o meu esforço. Senti, todavia, que me prostituía, e também o pesado desinteresse carregado por cada palavra.

Não me mato porque, como tudo se goza posteriormente, não poderei gozar da minha morte. É aí que Epicuro, não errando, acerta ao lado, quando justifica que não se deve temer a morte, por ela significar o fim de todas as sensações más. Não poderei gozar o fim de todas as sensações más. A vida é um filme que peca por ter um final tão fraco. A morte é medíocre, comparada com a vida. Não me mato.

Há dias em que acordo e acredito em deus. Saio do fundo dos sonhos com resoluções felizes para a vida, um idealismo epicurista que à hora de almoço já desdenho com uma gargalhada de vexame próprio. Ao amanhecer é mais fácil suportar o mundo; compartimentar a vida em horas felizes é algo possível de manhã. Cada noite de sono é como dois passos em frente e um para trás. Sim. Como uma pequena morte, acordar reencarnado e ir reaprendendo, ao longo da jorna, as ideias inatas; efémeros somos nós, que morremos todas as noites, e não as pequenas libélulas, que vivem a eternidade entre o alvor e o crepúsculo.

Esta gente fala como quem cospe. Sinto os seus risos animais como um insulto. O meu humanismo é abstracto, ideal - talvez ingénuo, talvez fruto só de uma empatia inata indelével - porque o que eu quero mais é que vá tudo para a puta que os pariu.

            Cada vez mais acho que a existência dos outros é em detrimento da minha. Só peço da vida que não me incomodem. É óbvio que me sinto o centro de tudo, é óbvio que me sou ensimesmado, que o mundo gira em minha volta. Mas como é óbvio, óbvio de me fazer usar pontos de exclamação! É-o, tão certamente, se não posso sair de mim, caramba.
            E já nem compaixão sinto, nem curiosidade das vossas existências todas, porque compaixão têm-na os santos e para tédio existencial basta-me o meu. Sou intolerante da disciplina anárquica da existência avulsa de outros sentires no mundo que não se ocupem de sentir; tenho asco, verdadeiramente.

            A consciência num corpo, como um messias nascer num curral, sem ser símbolo tosco de humildade, mas da inadequação da realidade e dos erros genitivos da criação. O desperdício da consciência num corpo, tão bruto, tão finito, como a única coisa que, não fazendo, me quer fazer acreditar na vida após a morte, para que se possa fazer esse arranjo justo.

            Recordo com alguma nostalgia carente que comecei muito cedo a ter namoradas. Ainda que soubesse pouco de tudo aos oito anos, escrevia já pequenos bilhetes, não sei com que impulso, em que descrevia, recontam-me, coisas de amor com palavras difíceis. Não me lembro de as sentir, mas lembro-me de as escrever. Quero com isto chegar à conclusão de que sempre, desde que me posso recordar, me senti agir, melhor ou pior, sinceramente ou não, em função de uma leve sensação de bebedeira trazida pelo sexo oposto. Que o vício a que cedo são as mulheres e que, adianto é a mulher, apenas na condição de ser a ela que me sinto atraído, podendo ser o homem, podendo ser ambos, falo, enfim, da atracção encarnada, é a mulher, retomo, que me impede de me considerar superior eu próprio, por incapaz de quebrar essa dependência. Não culpo - isso é próprio dos gregos clássicos e dos idiotas contemporâneos - a mulher, em sim, por nada disto, não fazendo isso sentido. A culpa é só minha e ter nascido assim, com o fervor da procriação poética e das curvas de um corpo que se ofereça. Não vejo, porém, como crescer para lá da necessidade de mulher. Poderá, muito bem, chegar a mulher que me faça ver que o prazer carnal não tem, necessariamente, que me distrair do que seja.
            Tudo hipóteses, como todas as conclusões a que chego. E nesta equação não coloquei sentir-me, sem conotação sexual, só metade de algo - também muito próprio dos gregos. A solução parece-me que seria a assexualidade das duas partes - problemas da arquitectura fundamental do mundo - duas existências que se unissem em acordo o melhor possível (sem impulsos carnais, nem os mínimos), que duas cabeças, dizem, pensam melhor que uma, e pensar em muito se parece, se bem feito, assim a dois, com foder.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2/8/2014

O cigarro que fumo de vaidade, o álcool em excesso, o pão que molho na fritura ou no azeite, todas essas indisciplinas da saúde do corpo, liricamente chamo-as de suicídios demorados, com vergonha de admitir que realmente me dão prazer e que as pratico com o fim último, não de morrer de uma morte evitável de incapacidade orgânica, mas de me sentir bem. Guardo apenas a santidade do café, que tomo amargo - memento mori, memento saeviti.

Sou um espírito incapaz com muito vocabulário e entendimento para o usar. Sem isso, passaria na vida tímido, inconsequente, trabalhando inutilmente, procriando, contribuindo e enlutando por obrigação. As minhas palavras são a minha redenção, a tábua de um náufrafo. Por isso o meu discurso é pensado, num banho-maria de sentimentos, e uma folha mínima me pode demorar uma hora, na escolha aparentemente irrelevante da melhor sintaxe.
Poderá ser a manifestação do meu carácter fingidor, mas não considero que forje o que relato da alma se demoro a escrevê-lo. É que trato com reverência as palavras, a única coisa por que dou graças; elas me assistirem; e sinto o dever de ter as mãos de um cirurgião ao escrever. Enfim, tolices. Fingimentos por sobre fingimentos. Perco o tempo com justificações vãs de actos desonestos porque analisados. Faço tudo por caprichos de imortalidade, por maior que seja a noção que tenha da morte.

Olhar para a vida e prever a morte, como quem olha o céu e prevê chuva - não a ignorando nem rezando pelo sol que virá depois, mas preparando, com veemência, guarda-chuva e gabardina.

Daquilo que sei e reconheço é o que mais estranho, e por isso me custa escrever, a súbita aparição da outra pessoa a meio de uma conversa. A ideia impessoal que ela se torna em mim, as palavras que oiço e ela diz e o não serem minhas, mas falarem de mim; reconhecer, nesse aperceber-me do ser de outrém, que também sou um outro (je est un autre? não tanto.), que há existências a quem me torno enigmaticamente invasivo quando com elas interajo. Que o corpo é, sonhadoramente literal, a jaula de uma besta faminta que nunca definha se mal alimentada.
            Estas ideias chegam-me aos solavancos, porque sinto até o anonimato súbito de quem me teve longotempo. Sinto-me mais inútil ao não conseguir decifrar isto tudo, que ao não conseguir fritar um ovo na vida a sério. Vou tentando, com palavras custosas. Estranho, nestas horas, haver outros que não sou eu e os meus olhos, e a sua necessidade. Haverá quem o tenha descrito, e melhor, se superiormente tenha sido sentido. A mim resta-me ir sentindo-o, um súbito limpar de olhos, como um halo que delimita em torno do semblante oposto. Pergunto-me se será mútuo.
            Conceber uma existência alheia é diferente de conceber todas: não me causa um sobressalto na respiração como a segunda, causa-me, sim, um expandir peitoral de calor infantil. Tramado é escrevê-lo, porque está para lá da praticalidade do sexo; é algo que sucede as palavras, que as persegue, uma coisa inenarrável que não deve ser coisa e a melhor palavra que encontro é aparição.
            "Apareceste-me" na vez de "amo-te".

(Quase que quero que sejas infeliz, por já não ser eu quem te faz sorrir. Não suporto este egoísmo indomável e sinto-me só, mortificado.)

Perguntam-me quando escreverei um livro. A reposta é ridícula de tão simples: quando estiver preparado. A preparação, por sua vez, não é tão simples quanto a resposta.
            Terei de dirigir o que escrevo como meu para a escrita de romance, criar personagens dignas com pouco de mim para não boicotar a diversidade e acontecimentos fulcrais que marquem a cadência da narrativa; terei que colocar no papel as tribulações que não conheço e as singularidades das coisas que jamais nomeei. Todavia, isto são apenas pormenores técnicos, facilmente contornáveis, se não resolvíveis, com prática e leitura. Pior será escrever um livro sob o ideal épico e neurasténico em que concebo a produção literária com estatura de romance, numa mania teimosa: sem pausas. A verdadeira obra é feita sem pausas. Se passar um dia sem acrescentar algo ao que produzo, deixo acrescentar algo à alma e a obra sairá desigual, maior no seu fim que no seu início. Escreverei um livro quando estiver preparado (para produzir, numa febre, sem comer nem beber nem dormir, de uma ponta à outra, a obra, como um trabalho de parto).

Em mim, queixar-me a alguém, apontá-lo na sua conduta por, a exemplo, passar à frente numa fila, teria o mesmo efeito renovador em mim creio que aquele que acredito que tenha sentido Alexandre quando venceu em Gaugamela. Não fui feito para as coisas grandes, mas elas não deixam de o ser em proporção.
            Saber desatar-me da minha gaguez mental seria a minha glória maior. Mas para quê? Sempre que penso fazê-lo cresce um tédio húmido por mim todo. Para quê tentar eu estabelecer alguma justiça mínima? E para quê querer a glória?
            Só tu, agora, mulher, te queixas das minhas incapacidades. Sinto-o, toscamente, como um ataque à masculinidade minha que achava domada e quase posta de parte. Num alarme de me achares desadequado, tento pelo máximo todos os esforços que o meu temperamento abúlico de fatalista incorrigível sempre abomina. Sempre soube - quero crer que sempre soube - que acabaria assim: em função de uma mulher (primeira das glórias, última, também, se formos sensatos), como nos livros dos românticos que detesto e que teimas em comparar a mim, só para me veres chateado - ah, o fatalismo. Não te aflijas, porém. Sabe apenas, mulher, que nunca agi tão cegamente, tão para lá de mim, como quando decidi que faria o que fosse para não ter que abdicar de ti. Ainda não sei que forças me socorreram nessa hora e ainda hoje recupero desse esforço. Tudo o que espero é a consideração justa como pagamento. Pelo menos que me poupes a qualquer desnecessária humilhação. Tens nas tuas escolhas a maneira definitiva de como abordarei a vida em diante. Se porventura te fores precocemente, saberei que tinha razão, porque espero sempre o pior e não por não crer em ti, e que todo o esforço é vão. Se não, deixar-me-ei enganar apaixonadamente por mais um pouco, até te ires, numa hora lá longe o suficiente de hoje para eu achar que é o produto bom natural das coisas. Resigno-me. Não há proveito significativo em estar comigo, portanto creio verdadeiramente que sintas amor. És demasiada esmola para o mendigo da vida que sou. Perdoa-me, portanto, desconfiar acima de tudo. Não é por mal, é pura incredulidade dormente. E se eu te admiro, então estou cativo de ti; tens-me de verdade. Estou à mercê. Dou-me, também, e tu que me carregues, ajuda-me, que eu já me peso demasiado.

Se retornar a ti, Taizé, será sozinho, para me poupar a sentir-me só. Se retornar a ti, Taizé, sei que terei discretamente de passar por ti, mudo e quedo; fazer de ti o exílio possível se não houver outro melhor. Tanta gente, tanto bulício. Quero voltar a casa.

A capela, agora de noite, quase não tem luz. Alguma dela esfuma-se pelo vitrais, altos e verticais, muito fundos parede dentro, deixando que a lua tímida em crescendo, escondida por detrás de um véu fino de nuvens, entre sem cerimónia na capela e lhe ilumine vagamente o tecto nu e rugoso num azul de sombra. O sacrário singelo quase não se vê, na penumbra de uma escavação em concha. Em frente, um altar, que sem o pano e as duas velas curtas seria só mesa. O ambão, ao lado, pouco mais servirá que para poisar as mãos. Dois grandes castiçais em ferro trabalhado, pregados à parede, seguram duas altas velas por queimar. O ocaso cai e, com ele, a luz que chega da pequena porta aberta vai tremendo como um lume que se consome. De cada lado, em frente, uma figura. À esquerda, na parede, uma Virgem de Vladimir e três velas e alguém que reza sob elas. É o ponto mais brilhante deste cenário. Os dedos da devota vão saltando o rosário, os seus lábios sussurram surdas ave-marias. À direita, a poucos palmos do chão, um Cristo em estanho no martírio da cruz é iluminado por uma lâmpada amarela que o projecta numa sombra tenebrosa.
            A capela alonga-se por três arcos românicos e finda aqui, onde me sento. Acrescentam-se as duas figuras que rezam de joelho. À mulher, de costas direitas, percebo-lhe a magreza e as linhas frágeis da face. O homem, de bruços, inspira decididamente e as vértebras abrem-se-lhe como um leque. Neste acto final, levanta-se, guarda a Bíblia encapada a pele, coloca o relógio no pulso, calça as sandálias e veste o casaco. Ao aproximar-se de mim, saindo, noto-lhe o invulgar cabelo fulvo, a barba idem, e os óculos redondos de aros claros. Sai em silêncio. Toda esta cena, aliás, se passou em silêncio, tirando o estalar crocante dos ossos do ruivo que orava.
            Deixei-me estar por mais um pouco. Ninguém se havia movido. Apenas o rosário ia já adiantado. A tranquilidade verdadeira de um silêncio que não se faz símbolo de nada mais. A sua existência enquanto remedeio do burburinho da criação, nirvana dos pobres atentos. Deixo a capela para os que crêem, cheio de abandono por não ter em quem confiar  a minha alma.

Míope da vida, alheio-me como quem nega o dia ao não abrir as portadas das janelas. Anulo-me no escuro do meu quarto com medo selvagem de magoar a vista na claridade com que a verdade só pode chegar. Quando lhe vi indícios deu-me só para chorar e nos meus olhos turvos tive saudades do sol.
            Não enxergo qualquer luz no ponto de fuga a que me levam todos os traços geométricos da vida. Não vejo, honestamente, futuro para mim, da maneira que vivo. Ironia violenta, o contexto inexplicável em que esta constatação fira me chega. Aos outros não parece faltar luz nem pavio. Vejo a minha vida em relâmpagos, fotogramas pálidos de movimentos sem relação necessária. Onde peço o reembolso desta farsa má?

Tenho medo de, ao cultivar a indiferença das coisas e dos sentires menores, desfaça, ao ignorá-los, os pilares que sustentam as coisas e os sentires maiores. Tenho medo de vulgarizar o meu discurso, com palavreado que apelidarão de pedântico, desfazendo, ao ignorá-la, a verdadeira essência do que sinto.
            Tenho medo, enfim, de ficar sozinho. Mas até esse pequeno trágico desterro me anima, se for para sentir coisas maiores e me proporcionar material para discurso pedante. Fazer da vida toda matéria bruta; sociopata humanista.

Dei-me a um pôr-do-sol cinzento alaranjado, que me tomou nas colinas de nuvens que iluminava e fez o meu peito fraco rebentar em fagulhas de pólvora surda. Senti a pequenez de tudo na arte efémera desta ocaso oportuno. Senti o fim da minha estadia aqui e o retorno a casa. Sou o sítio em que estou e serei outro, não outro transformado, mas outro retomado, ao chegar a casa e abraçar a minha mãe. Não mais o orvalho de cá, não mais os sinos, não mais as cadências dos cânticos ortodoxos que gelam a alma. Vou daqui sempre estrangeiro para poder voltar e saber-lhe o valor. Repito-o, há sítios a que se pode apenas voltar. Criei imensos, mas este é o único, ex nihilo, fora de mim.
            Agrada-me a ideia de independência de mim, de nada terminar ao terminar-me eu aqui. Mas há um eu que cá fica e que só eu poderei vir cá buscar.
In memoriam ou algo que o valha, deixo estas palavras sentimentais à revelia do meu temperamento céptico. Há que saber ser supersticioso com a vida, porque quase sei de ler constelações.

Prevejo a solidão cancerígena até com algum entusiasmo. Algo de novo, enfim, algo de novo. (Espanto-me pela rapidez com que me desaparece o sentimento certo que me faz chorar. Se quero sentir a catarse do choro por um pouco mais, tenho que fazer um esforço de memória - onanismo sentimental.)


Parte da minha indiferença, da minha mecânica frieza, vem da crença amoral de que os fins justificam os meios, não só nas acções directas e imediatas, mas também na minha vida cronologicamente disposta. É esta a minha fé.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

3/8/2014

Caiu uma tempestade tenebrosa, de relâmpagos largos de explosões de magnésio fotográfico, ventania desembraiada, chuva grossa e diagonal, assim que entrámos no carro para partir. Fica só este apontamento do dia de hoje, em jeito de fim, porque o é realmente.
Não sei que tempo faz em Portugal, nem que tempo fará em mim. Aqui chove, à despedida - como de outro jeito não poderia ser.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

João Biscaia
27 de Julho - 3 de Agosto
Taizé, França

publicado por Gualter Ego às 00:24 | link do post | comentar | ver comentários (1)
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