Saudades de quando éramos putos.

Lembras-te de quando o teu, nosso relógio era o Sol, que deslizava, apressado, rompendo o céu azul?

Nada nos atormentava, nem sequer as feridas abertas, que lambíamos e esfregávamos, para estancar o sangue que nos incomodava, no jogo da bola. Corríamos pelo mato, de chinelos,descalços de quando em vez, e sorríamos. Juro-te: desde o último dia em que sorrimos juntos, depois do Sol já se ter posto, enquanto a minha mãe chamava por mim, e a minha barriga pelo jantar, nunca mais sorri com a mesma franqueza.

Tenho saudades da terra, da lama, das poças de água.

Saudades do fins-de-tarde de Outono, com cheiro a Primavera.

Tenho saudades de não ter saudades e de ser ninguém, um puto, que sorria.

publicado por Gualter Ego às 20:07 | link do post | comentar