Num copo de vinho.

Ele sentia-se tremendamente cansado, saturado, daquela cidade e, mesmo assim, ela parecia, ainda, acolhê-lo por entre as ruas sinuosas e os arranha-céus.

Enquanto caminhava, olhava o chão e os próprios pés. Pensava:

- Cada passo que dou, ou foi o destino que o escreveu, ou é a acção da reacção. Só espero que os meus pés me levem onde eu quero ir.

 

Há-de saber, um dia, que não é a única pessoa assustada com o tamanho do mundo e a pequenez da alma, nem enojada com o comportamento humano.

Levantou agora a cabeça, e olha para as pessoas, apressadas, a apertar os casacos, a consertar os cachecóis, está frio, é Outono, mas ainda não cai neve em Nova Iorque. Passou por um bar, sentou-se na esplanada e pediu um copo de vinho. "Tinto, se puder ser. Se não, traga-me água."

O vinho chegou, e ele brindou.

Brindou à saúde, memória, honra e saudade, que tudo o que lhe restava era o saudoso acto de brindar. Talvez ao mundo, às pessoas, aos padrões quebrados, às letras e aos sons, até aos cabelos ruivos e olhos cor-de-amêndoa, não sabemos.

E, agora, sorri.

Sorri, porque foi masoquista demais para ir ao sabor da corrente e viver dá-lhe prazer.

 

publicado por Gualter Ego às 15:01 | link do post | comentar