Quarto.

Não sabe as horas, nem tampouco sabe que dia é.

Talvez seja melhor assim.

É o primeiro passo para se abstrair do hábito que nasce com a raça humana, de controlar a vida e o que vem por atrelado, nos ponteiros de um relógio.

"O pequenino é o das horas e o grande é o dos minutos."

Foi assim que, quando era pequeno, lhe ensinaram a ver que horas eram. Se a memória não lhe fala, foi ao colo do pai, no seu relógio de pulso, prostrado no pulso peludo da figura parental, a ser escrita um dia destes, que tal lhe foi ensinado. Ensinamentos vãos.

 

Caminha de um lado ao outro do quarto, inverte a direcção e repete o exercício do princípio, numa marcha lenta, como a de um cortejo fúnebre, enquanto fuma, sofregamente, meio maço de tabaco, com o torpor do calor que o faz suar.

"Maldito sol", pensa ele. "Maldito sol que não serve para escrever, nem para inspirar uma pobre alma".

"Egoísta de merda, brilha enquanto podes", grita ele por dentro.

Senta-se no colchão nu, que cheira a ranço e aos corpos que não pesaram sobre ele, deita-se, encolhe o corpo, mas não fecha os olhos. Pensa melhor com eles abertos, acha que a cabeça divaga demais quando não tem nada para onde olhar.

Da cama, consegue ver os prédios amargos, e os homens engravatados, que trabalham nas nove às cinco e lhe causam a maior repugna.

 

Dentro dele há algo irrequieto, uma voz que simplesmente não consegue estar calada. Há, por exorcizar, um qualquer demónio que ande a moê-lo por dentro.

 

Suspira. Só desejava ser louco.

publicado por Gualter Ego às 17:46 | link do post | comentar