#16 (ou 00:00h)

 

O horário da meia noite – três da manhã, é, para mim, o mais produtivo.
 É um novo dia, mas os momentos, os pormenores, os olhares, os sorrisos, os gritos, os inultos, as luzes, as cores, os contrastes e as palavras do dia anterior ainda estão bem presentes.
 Não há dias mais cheios ou mais vazios, mais interessantes ou menos interessantes, todos os dias estão cheios de pormenores, quer a pessoas os veja ou não. Eles estão lá, eu acho é que é preciso ter uns olhos diferentes para os ver, mas eu juro que não é por isso que preciso de usar óculos.
 Chegado o fim do dia, depois do nascer do sol (quando o vejo), das pessoas que passam por mim durante as horas de luz solar, depois do pôr do sol e do jantar, da ceia e das doze badalas do sino da igreja, que ecoam pelo escuro adentro, as vivências estão lá todas, guardadas, muitas vezes a batalhar para não serem esquecidas pela memória afectada pelas hormonas deste adolescente pseudo-tudo, que acha que sabe escrever, pintar, cantar, e mais não sei quê...
 Há uns dias aprendi uma lição importante: nunca é tarde demais para escrever, principalmente quando sentimos essa necessidade, pois que está ao nosso redor ou não pode, não quer ouvir ou eu não sinto confiança em o dizer.
 Raramente escrevo antes de se fazer escuro e raramente escrevo sentado a uma cadeira, apoiado numa mesa, assim como gosto de tocar guitarra dentro da banheira.
 Escrevo de noite, porque quero aproveitar ao máximo e ter o máximo de vivências num texto só, porque quero assimilar tudo o que sinto e relacionar cada olhar, cada cor, cada reflexo.
 A noite tem algo de mágico, macabro e misterioso. A noite abraça-me assim como eu abraçaria quem olhasse para este texto com olhos de ver, a noite ressoa-me nos ouvidos como a mais bela melodia de Chopin ou o grito mais rouco do Cobain. A noite beija-me como ninguém alguma vez me beijou ou, quero eu acreditar, beijará.
 De noite as imperfeições anulam-se e tornam-me perfeição imaculada. De noite as cores esbatem-se e tornam-se reflexo da lua pálida, pálido como eu fico no Outro e no Inverno. À noite, eu, de vez em quando, vou para a minha cama, que está no meu quarto, e adormeço por lá. Gosto de abrir os olhos e não ver se não a pura ausência da luz. Tudo escuro, como eu me sinto de vez em quando.
publicado por Gualter Ego às 21:57 | link do post | comentar