Tudo no sítio certo - catarse.

Não é que eu perceba muito da máquina que é o Universo, lembro-me de me falarem do Newton há uns anos, mas ninguém leva a sério uma professora com a alcunha de Pata Choca, que arregalava muito os olhos e cuspia medo e tinha o cu de um tamanho de uma 4L, porém já fui lendo, por aí, qualquer coisa a dizer que o tempo não é uma linha, que é todo um emaranhar de coisas, de acontecimentos, de sucessões e repetições. Isso faz-me acreditar firmemente que estarei, algures em destaque nos mistérios do continuum espaço-temporal, em Algés até à eternidade (here I'm alive, everything, all of the time), a receber como uma bênção o incrível resultado de todas as somas do acaso que são os Radiohead. São os filhos mais bonitos que a 3ª lei de Newton já pariu.
Ainda sinto no palato o agridoce sabor que é a irrealidade hipnótica do que se passou. Divido-me entre o this is really happenin', ha-ppe-nin' e o I'm not here, this isn't happenin'.

Eu sou crismado. Besuntaram-me a testa com azeite benzido nos jeitos da cruz de Cristo, mas a modos que a ligação deve ter falhado e eu não senti Espírito Santo nenhum descer-me pelo corpo, mas anteontem, enquanto o Thom se desdobrava em exorcismos e encarnações, eu ensimesmava-me em júbilo, sentia um borbulhar parecido a um refluxo gástrico a bulir entre o esófago e o duodeno, para cá e para lá, ao mesmo tempo que me sentia estar em todo o lado e em toda a gente, as luzes frementes eram como as línguas de fogo que desceram sobre os apóstolos, lá a páginas tantas. A brisa chorosa do Tejo que não via cantos tão sagrados desde as invocações às Tágides era como um sopro divino no caldeirão de gente que se acotovelava. A música desceu sobre os impuros como a cal cai sobre os mortos, limpando, desencardindo, destruindo toda a mácula ácida que arde nos infiéis. Não havia sinal de quebranto ou melancolia, mas a lágrima caiu. Chorei porque não me podia vir.

 

E deus achou que tudo estava bem, então rasgou um glissando e começou a tocar a Everything In Its Right Place.

 

Que se espalhe e se cante no universo,
Se tão sublime preço cabe em verso.

 

Invocação às Tágides, Canto I, estrofes 5, Os Lusíadas, Luís Vaz de Camões.

 

publicado por Gualter Ego às 13:30 | link do post | comentar