00h56

- Ser é pesado. E não tem jeito.
- Mas é. Eu tenho vivido muito, e sinto tudo tão leve e as passagens vão sendo.
- Tenho ponderado deixar de viver.
- Num plano realista ou num plano romântico circundado de intransponíveis pontes?
- Realista. Niilista. Existencialista. Sôfrega mágoa. Alguma vez me conheceste como um romântico irracional? Bem me parece.
- Não como um romântico irracional mas também não como um suicida realista, embora saiba que o suicídio sempre teve sobre ti o mesmo efeito que uma palmeira ao longe na paisagem. Como podes pensar de uma forma realista na possibilidade de te retirares a vida?
- Diz-me - encontras sentido em estar vivo?
- Para que falemos a mesma língua, define sentido.
- Valor, meta, razão de ser.
- Valor sim, meta não, razão de ser sim.
- Dizei-os.
- Valor é todo o que tem, todo o que pode ter, todo o que é. Razão de ser? Ser é razão suficiente.
- Ainda bem que assim vês, só se estraga uma família.
- Então e o que te leva a não ver a beleza única de ser? Diz-me o que te leva a questionar o viver.
- O acaso. A coincidência. O sofrimento.
- Os dois primeiros não existem o terceiro é parte do todo ou ele não seria todo.
- Crente no destino? Bons olhos te vêem.
- Quem falou no destino?
- Se não existe o acaso, existe o quê?
- Existem acções e reacções, mecanismos de funcionamento universal que fazem com que a pedra role embata na outra e caia a outra no lago. Nós como todo-poderosos senhores.
- Acções e reacções, que são meras coincidências. A pedra cai porque há gravidade. Mas entre a pedra e a gravidade não há nada que se possa dizer-lhes comum.
- A existência. A tua percepção.
- Se não houvesse mais ninguém no mundo - poderias dizer que existias?
- Sim. Com a mesma certeza que hoje. E porquê? Porque só terei sempre a certeza de mim.
- Sim? Mas não é todo o conhecimento mais que comparação de realidades?
- Obviamente que, para viver, me abstraio desta certeza, mas, todo o conhecimento sou apenas eu.
- Dou por mim a duvidar bastante da realidade. As memórias começam a não me bastar. Os sonhos começam a ser demasiado vívidos.
- Mas queres ter certezas dela para quê?
- Para não enlouquecer.
- Eu não enlouqueço, aceito.
- Aceitar? Mas aceitar o quê?
- Que a realidade é só eu e resume-se a isso, que nunca terei certezas dela para além de mim nem dela em mim mas é isto e isto é.
- Lá está. Mas como podes saber que a realidade é tua? Eu posso estar a sonhar esta conversa? Posso. Quem me garante que não?
- Ninguém. Mas vais fazer o quê? Tentar acordar? E se não der? E entras num girar eterno de loucura e esquizofrenia do mundo do sonho e do real. Se quiseres digo-te que é real, que é isto, porque para mim ser real é ser isto.
- Isto?
- Isto. Seja isso sonho ou a realidade para a qual não consigo acordar, para mim isto é real aqui e agora, é aqui que estou e assim estou.
- E achas que ser fruto do acaso que se desenrola à milhões de anos é bênção ou maldição?
- É.

 

(…)

 

- A morte é o fim de quê?
- Tem de ser fim de alguma coisa?
- Claro. Então a vida seria o quê? A sucessão sucessiva de acontecimentos, como marca cronológica, tem que ter um fim.
- Mas a morte em si não é um fim, é uma coisa com independência. É mais um dos eventos da, como lhe chamaste, “sucessão sucessiva de acontecimentos”
- Não é fim? A morte, cada morte, é o fim do mundo!
- De cada mundo assim como é hoje.
- Há pouco dizias que a realidade és tu, não foi? Que dela não podias sair e que de fora dela nada podia entrar. Então cada morte é um apocalipse.
- Não percebo o silogismo aí.
- Se eu acabo para o mundo aquando da minha morte, então o mundo acaba para mim. Se eu sou eu e mais ninguém e enquanto vivo só eu posso afirmar com certeza que o mundo existe, isso deixa de poder ser possível quando o meu coração pára. Assim, o mundo acaba quando eu morro.
- E então?
- Então? Ah, queres ver-me vermelho de cólera? A morte é a forma mais gloriosa de brindar à vida.
- E o ódio a forma mais gloriosa de amor? E a guerra a forma mais gloriosa de paz? E a fome a mais gloriosa forma de comida? E a sede a forma mais gloriosa de água? Serem opostos não lhes dá o atributo de serem a mais gloriosa forma da sua antitese. A morte é a forma mais gloriosa de brindar à morte. A vida é a forma mais gloriosa de brindar à vida.
- O que era feito do valor da vida se não houvesse a morte? Diz-me! O que era o calor se não houvesse frio? O que era o prazer se não houvesse desejo? Ah!
- O valor da vida seria então, finalmente, o valor mais puro da vida! O calor seria isso mesmo calor, e chamar-se-ia provavelmente apenas temperatura pois não existiria então o pólo oposto.
- Exacto! Então a vida era simplesmente estar e não viver. Porque viver implica fim. Se o conceito de fim, a vida humana não tinha valor. Um objecto tem valor quando é raro.
- Os objectos têm o valor que tu lhes dás. Não acho um diamante mais raro que uma flor. Viver implica fim, e não consigo colocar-me de fora o suficiente para analisar como seria viver sem a possibilidade de fim.
- Ora, como seria; um tédio de morte! (Agora fiz-me rir.)
- Mas nem tu podes dizer que sem o conceito de fim a vida humana não tinha valor porque simplesmente a caixa mental em que vives não to permite, nem a ti nem a mim.
- Por que é que os homens vão fazem seguros de vida? Porque viver lhe aparece como um valor. Sem a morte, não haveria seguros de vida. É a forma mais simples que tenho de explicar.
- A existência de seguros de vida não é suficiente para me provar a visão da vida como um valor porque tem um fim. Se tem um valor é por ser.
- Achas sinceramente que darias valor à vida se não chegasses a morrer?
- Não consigo saber, consegues? Não acho que seja verosímil qualquer resposta que possamos dar a essa questão.
- Por morrer, a vida não me tem qualquer valor, agora já.
-Por favor, explicita.
- Se não morresse, a vida não tinha valor porque nunca findaria. Como morro, a vida não tem valor por isso mesmo, por acabar. O pináculo da perfeição seria viver para sempre, mas conhecedor da mortalidade. Assim, a vida podia ter todos os sentidos que lhe quisessem dar.
- Concordo; parece-me que resolveria a questão essa imortalidade mortalosciente.
- Mas “como morro, a vida não tem valor por isso mesmo, por acabar”, novo silogismo que não entendo. Como morres, a vida tem todo o valor por ser enquanto.
- Por ser efémera a vida é uma obrigação. Um fardo. Viver é um peso. E se assim é, então não lhe vejo qualquer sentido de ser.
- Consegues explicar tal lógica?
- Não. Estou demasiado cansado. Mas cá dentro sei que faz sentido. Ou quero que faça. Porque com todas as minhas forças o que mais almejo nesta vida é morrer. Saboreá-la toda, destilá-la. E só me dá pena não poder voltar depois de morto, para escrever um epílogo. Ah.
- Escolhe saboreá-la, escolhe destilá-la. E quando for, sem pressas, saberás que será e a janela da percepção vibrará com a luz da verdade.
- Ah, como eu te amo, minha besta!
- E onde andavas tu?, meu ordinário, nunca mais te vi!
- Ando perdido, muito perdido.
- Essa consciência basta para que te encontres.
- Para me encontrar preciso me perder.


(…)

publicado por Gualter Ego às 00:57 | link do post | comentar