Voltei.

Às vezes a terra lavrada húmida enche-se de caroujo no desenrolar da noite e parece que alguém andou a espalhar farrapos de algodão pelos minifúndios familiares que se repetem de ladeio. Nessas noites, as tinas da vindima, que quando não é tempo dela esperam ao fundo do alpendre por uso e lavar, estando cheias de água, ganham uma ténue superfície de gelo opaco, quase listrado, redondo nas bordas, da grossura de uma unha - às vezes do pé - e com jeito se põem a girar.
Então, quando era pequeno e se davam essas noites de invernia que amanheciam no despontar de um sol tímido, agradavelmente tépido, sobejamente melancólico, ia lá com o atrevido dedito gordo raspar na tal camada de gelo sobre a água imóvel; arriscava na traquinice e, com o garruço enfiado até aos olhos e o casaco de bombazina maior que eu dois ou três tamanhos a atefogar-me o bafo, um traje xoto mas certamente adorável, meio a a medo, tic, partia o gelo: e do âmago da água vinha uma gentil agulhada morder-me a ponta do dedo.
Agora que cresci, por mor não sei bem de quem, é assim que sinto a vida. Uma agulhada fria e invisível, que se opõe ao toque.
A jactância dos outros pouco se me dá como se me deu. O uivar dos parvos e dos descrentes só me irrita nos calos dos pés. Essa ráfia que para quem compreende não passa de blague não me alivia o mourejar e as dores nas espáduas. É tudo inútil. Tudo termina nas mais impávida demonstração de inutilidade que é morrer. De quanto vale a morte - se pusermos de lado o pensar como existir - se não me lembro de ter nascido?
Sinto a vida a dois passos do vazio, a um dedo de furar o gelo, mas não sei se algum dia o gelo irá quebrar.
Fumo para matar. Há coisas cá dentro que precisam morrer, castelos de areia construídos sobre a cólera que ferve na minha garganta e que precisam ser tomados de cerco, com catapultas e canhões. Fumo porque tenho preguiça - sempre demasiada preguiça - para me matar. Não findo tudo de uma vez, porque espero que o gelo quebre e o sol vibre de verdade na janela mais imaculada do pensamento.

publicado por Gualter Ego às 17:44 | link do post | comentar