Mais um imbecil a escrever.

Duas horas de viagem para ver o último espectáculo do Bandido na “capital do reino”.

Duas horas de concerto – uma despedida em grande, à medida do génio.

 

Já eram horas de começar o espectáculo, ainda o auditório estava a encher. Uma casa bem composta, quase esgotada; caras novas, outras menos novas, caras conhecidas e caras curiosas salpicavam-se aqui e ali na plateia, por detrás dos óculos de massa, das guedelhas farfalhudas e dos olhos atentos, postos num palco ornamentado de uma forma pouco ortodoxa: em roda, amplificadores, sintetizadores, bidões, xilofones, pedais de distorção, flautas e apitos. E os enfadonhos instrumentos normais, claro.

O quinteto entrou em palco sem alarido e pronta e levemente começou a dedilhar uma das canções mais doces do projecto, Foi no Teu Amor. Manel Cruz já não é o mesmo do Punk Moda Funk, tem mais classe, está mais cortês, mais melancólico e menos, pelo menos é o que ele canta, perdido nas lides femininas e mais preocupado em ser ele a fazer com que as donzelas se percam.

Segue-se uma arreada linha de canções que se vai desenrolando perfeitamente. Ora doce, ora bruto, os bandidos estavam a fabricar um som artesanal tão espontâneo como preciso; era algo épico que estava a acontecer à nossa frente, enquanto, ao mesmo tempo, tudo nos parecia estranhamente natural.

Canção Segredo, Canal Zero, Falso Graal e Noções Para Viver Sem Ti toldaram aquilo que se pode chamar a primeira parte do concerto. Uma entrada suave, que mostra um Manel Cruz como uma ferida aberta. E durante todo este tempo não pode deixar de se notar a incrível ordem e coordenação de toda a banda: os back vocals sombrios, o percussionista com quatro mãos, o baixista que canta em francês (Dans une autre vie misérable!), os gritos do Manel, os assobios, os estalidos, soprar num apito ali, porquê ali?, ali, porque sim, pronto.

Manel Cruz “fez-me” a vontade e tirou a camisola. Agora, sim, havia começado o concerto.

Tirem o Macaco da Prisão entrou pela sala, impetuosa, com um arranjo mais pesado e mais eléctrico, mas o melhor estava para vir. Borboleta, a canção mais esperada de todos os concertos do(s) Foge Foge Bandido, começa, praticamente irreconhecível, por detrás de uma guitarra plena de distorção, pesada, rude e cheia de energia. A noite estava ganha.

Não há muito mais que se possa dizer: era estar lá.

(Nota especial para o pormenor “A minha mulher está a secar folhas de bananeira” e para o sermão de Eleva!, replicado na íntegra, com direito a sotaque brasileiro.)

E como descrever, sem me alongar, o que se passou naquele palco? Ora, um barulhento pandemónio caótico em que tudo estava no sítio certo e soava da maneira mais perfeita.

publicado por Gualter Ego às 02:37 | link do post | comentar | ver comentários (3)