No barbeiro.

- Boas tardes, meus senhores

dá um certo jeito de masculinidade e formalidade à coisa, afinal de contas é com cerimónia que se entra em qualquer santuário e isto não é mais nem menos que isso mesmo, um santuário de homem, até onde todos os presentes somam mais anos em cada dedo que eu inteiro, portanto mostrar respeito e cordialidade fica sempre bem entre irmãos e a ocasião é sempre tomada com solenidade.

 

- Oh, João, como é que isso vai?

 

e não tive tempo de responder

 

- O teu pai?

 

e não me deixou falar

 

- E a tua avó? Na mesma, pois, como haveria de ser, estas doenças que dão numa pessoa e logo a tua avó que foi sempre uma santa, enfim, é a vida, não é

 

sorriu com humildade e resignação, curvando o lábio inferior, em sinal de moderada tristeza, e continuou a cortar cabelo, assim é que se despacha  conversa, havia de ser sempre assim, os protocolos diplomáticos todos tratados em retórica, ao menos só haveria a culpa de um e um só, a conversa de chacha em monólogo bem ritmado para não maçar nem ofender, prever as respostas do destinatário, quem trabalha assim coloquialmente não pode perder tempo, é raro o aperto de mão, mas lá ma apertou, afinal sou de família, continua a falar, sempre a falar, enquanto lavra pelas laterais de mais um careca que continua a vir ao barbeiro só para dizer que foi, não se aguenta em se conciliar com a realidade, está em negação e teima em negar que está em negação, há muitos assim, perdem o cabelo no cocuruto e acham que são menos homens por tal, como se cabelo fosse picha, e o barbeiro, marido da irmã do meu falecido avô que era pai da minha mãe, célere, corta e fala, com arte e engenho, fala e corta, com destreza, ainda dizem as mulheres que o homem é bicho que não consegue tratar de dois assuntos ao mesmo tempo – ora pois tendes aqui a prova em contrário cavalheiras, este senhor que aqui se apresenta já fala da política, do futebol e da vida em geral enquanto corta o cabelo a metade da população da vila – a metade masculina: do moço ao velhote – vai para mais de cinquenta anos e não se vêem jeitos de parar

 

- Nem nunca pensar nisso, a reforma da minha mulher não me chega e até que os dedos me deixem, ninguém me tira daqui

 

justifica-se ele. Ao menos é trabalho que não falta, estão guardados até ao fim do mundo dois ofícios: barbeiro e cangalheiro.
Haverá sempre homem com cabelo a mais e homem com saúde a menos, que não falte a força e o talento a nenhum deles, que haja tesouras afiadas para cortar quaisquer guedelhas e braços robustos para cavar quaisquer últimas moradas.
O senhor que está sentado na cadeira toda de ferro e estufada em pele está a meio das patilhas, sempre tive medo desta parte, desde o tempo em que vinha com o meu pai, comecei a vir muito novinho, com cinco anos, não mais, e lembro-me que tinha de me sentar em cima de uma caixa onde eram guardados produtos para engraxar sapatos e mais duas listas telefónicas, para chegar cá acima e me poderem cortar o cabelo em condições, aos sete anos tiraram-me uma lista telefónica, aos nove tiraram a outra e aos doze tiraram-me a caixa, deve ter sido a primeira vez que me achei um homenzinho. Ia a dizer que sempre tive medo desta parte, ajeitar as patilhas, temos de ficar quieto, muito quietinhos, temos de ignorar aquele cabelo cabrão que faz cócegas no nariz, pediam-me para eu não me mexer e eu cumpria, respirava apenas o necessário e o meu pai, que me levava pela mão, punha-se divertido a contar piadas à traição e eu fazendo uma força sobre-humana para não rir. Piada não tinham, sejamos honestos, nem muita nem pouca, mas fica mal um filho não rir da piada do pai. Mas cumpria sempre, não me mexia e nunca me cortei nem me cortaram a ajeitar as patilhas, aquela navalha que parecia mastigar os pêlos pequeninos, que parecia obra de cirurgião, metia os óculos na ponta do nariz, segurava a navalha com severidade e fazia-a deslizar pela minha têmpora abaixo. Depois ajeitava-me a linha do cabelo na nuca. Gracejava sempre com os meus remoinhos, que tinha este atrás que não ficava quieto e era impossível de pentear e mais dois à frente, então esses da frente assemelhava-se aos que os cabritos têm quando são realmente pequeninos acabados de nascer, sendo eu também um recém-nascido bebé parco em cabelo e assim se notavam mais, onde se lhes vão nascer os corninhos, portanto houve quem me chamasse cabritinho. Dizem até que a minha irmã, ela que brincava com os cabritos como se fossem cães de pastoreio, pequena quando eu nasci, achava realmente que eu teria corninhos.
Está um homem à minha frente e este já está a aparar as patilhas; mais conversa menos conversa, meia hora para mim, daqui a uma hora estou despachado, não contava com menos

 

- Então e essa escola?

- No mesmo sítio

 

mesmo sítio, sempre as mesmas piadas sem piada, tentativas de piada sem piada, calar sem ofender, não me quero alongar, pego num jornal e começo a ler as gordas, ele que se entretenha com a demais clientela, sem ofensa, estou com pouca paciência. De repente o ar alargar-se, como que se abrisse, e entra um calafrio sem pedir licença e os olhos viram-se todos para a cabeça que segura o corpo meio-fora, meio-dentro

 

- Está um frio do caralho, ou entras ou sais

 

penso eu.

 

- Estamos cá poucos, ainda bem, boa tarde

 

repetiu-se a mesma conversa retórica, sem substrato nem polpa, um desinteresse disfarçado de boa educação, mas um método infalível para não perder tempo sem parecer rude. Afinal, qual de nós quer realmente saber do outro quando pergunta como estás? Os tolos e os padres.
Só se pergunta tal para ter a pergunta de volta e desbobinar o que nos apoquenta. Tenho de adoptar este ritual, vomito todas as perguntas necessárias ao entabulamento de uma conversa sem segundas intenções e à fundação de uma saudação inicial de qualquer relação social, a qual com certeza me obrigado a alimentar para não ter que beber sozinho e ficar a vida toda na punheta, despacho logo tudinho, e levo-te para a cama. Parece-me bem. Odeio falar, abomino falar, falar é para fracos, deram-me dedos para falar, não preciso de boca, deram-me rimas e música, não preciso de boca, deram-me nariz para respirar, não preciso de boca, ponham-me no hospital a soro, não preciso de boca.
O homem sentou e disse

 

- Está frio

 

ah, pudesse eu dar na cara com uma cadeira a cada um que diz que está frio em dias de Inverno.
Nem tinha olhado bem para o homem, arrependi-me dos pensamentos violentos assim que o fiz, não parecia mau homem, não senhor, teve o cuidado de fechar a porta atrás dele, arrastar os pés no tapete castanho cheio de pó e cotão e outras porcarias inomináveis e dizer o já referido, depois sacudiu-se e expirou com força. Tirou o casaco e pô-lo no cabide. Depois de já sentado e afirmar o óbvio, olhei para ele

 

- Não parece mau homem, não senhor

 

pensei. Era um homenzinho pequeno, redundância de facto, mas necessária, era ligeiro de corpo e pequeno de estatura, um homenzinho pequeno, podia ser gordo e baixo e ser só um homem pequeno, mas não, era mesmo assim; contudo não deixava espaço a qualquer complexo de superioridade alheia, visto ostentar um faustoso bigode, farfalhudo e imponente - coisa que mete respeito - ondulado quase atrevido, a desenrolar-se-lhe no lábio superior, esticado e grisalho, salpicado de branco e cinzento. O cabelo era idem de colorido, fatalidades da idade, há quem goste e não esconda. Sentava-se todo torto com uns óculos largos e quadrados na ponta do nariz, com as mãos entre as coxas, palma com palma, lambia os lábios num esgar nervoso mas gentil e mordia as bochechas, tinha ar de quem bebia demasiado café e não consegui esconder esse facto. Esperou pacientemente a sua vez, não reparou que eu o olhava, tirava as mãos de entre as coxas e esfregava-las nas pernas. Vestia um fato-de-treino dantesco de um azul medonho que feria as minhas pupilas, com riscas brancas e verdes, ninguém sai assim à rua, mas transparecia humildade por isso mesmo, humildade e indiferença, mas uma indiferença inocente, que não toca a ninguém nem fere ninguém. Não disse nada, ficou o resto do tempo olhando o espelho à frente dele, como se olhasse para um vazio que porventura estivesse para lá do espelho. Tinha um ar de desconsolo cândido. Tinha feição de quem se finca tristemente na vida dos outros, como quem acha que ofende só por dizer boa tarde, de vez em quando olhava para os lados com urgência, com medo de estar a aleijar alguém com a sua presença, depois voltava a olhar para o espelho. Parecia alguém a quem o mundo passa ao lado, a quem o mundo não chama ou esqueceu de chamar. Parecia alguém que um dia acordou atrasado e nunca mais conseguiu acertar o relógio.
O barbeiro que é da família e se chama Silvino, o senhor Silvino, penteou o senhor careca nas laterais e na nuca, e eu pensei

 

- Podia-lhe cuspir nessa tonsura que a mãe natureza lhe deu e puxar-lhe o lustre

ri-me moderadamente do disparate enquanto o senhor careca se levantava e se sacudia

 

- Quanto é?

perguntou o senhor careca

 

- Cinco euros, se faz o obséquio

 

- Isso em escudos dava quanto?

 

- Mil escudos, por aí

 

- Irra, parece menos, ainda me lembro quando pagava oitenta escudos por uma bica, isto está mesmo mal, sô Silvino, isto está mesmo mal

 

pagou em trocado certo, vestiu o casaco e colocou a boina e saiu a puxar o escarro.

O senhor Silvino virou o acento, sacudiu-o e mandou-me sentar, enquanto limpava a tesoura

- Como é que vai ser

 

sempre a mesma pergunta, sempre a mesma resposta

 

- Isto hoje é só um bocadinho, não é preciso cortar muito, ajeitar atrás e fazer as patilhas

 

que é como dizer

 

 - Isto hoje é cortar muito, ajeitar atrás e fazer as patilhas

 

começa por desbastar com pente e tesoura. Arrepia-me nos ouvidos o tique de cortar o ar três vezes seguidas depois de dar um corte no cabelo, toca-me ao de leve na cabeça, dirige-ma para onde lhe parece melhor, olha de cima, de lado, como se fosse escultor, mete o pente zás, zás, e zás, mais um naco de cabelo a cair redondo no chão. Vai buscar um pouco de água quente num púcaro e o pincel de barbear e molha-me a silhueta do cabelo, agarra na navalha e sopra para a lâmina – é nestas horas que se sabem os homens.
 
- Não te mexas, João, não te mexas, vá, tu consegues, respira fundo, não!, não respires fundo, que porra, ah

- Epá, cortei-te, desculpa lá, espera aí, ponho-te aí um penso que isso não é nada

 

e não é, mas arde, porra, há dezasseis anos que cá venho e nunca me tinha cortado, pá.
Fico despachado em meia hora, pago o que devo por um trabalho mal feito, sempre mal feito, às vezes um podia estar pior, mas sempre mal feito, mas nunca (abrenúncio!), nunca vou reclamar ou dizer mal do trabalho do senhor Silvino, nem sentado na cadeira da sua barbearia nem em lado nenhum, nem em altura alguma – não se ofende alguém que trabalha uma navalha tão perto da nossa goela. 

publicado por Gualter Ego às 23:27 | link do post | comentar