In Memoriam

Que o protagonista desta história, meia-verdade, meia-inventada, descanse em paz. Que quem contou a meia verdade desta história continue a envergar o xaile negro por muitos anos, com estaleca para contar histórias.

 

 

Acho bastante improvável que haja escrito nos anais da história, por entre teias de aranha e pó espesso, escrito a letra grave e gorda, bem arrepimpado e sublinhado em pergaminhos ásperos, que alguma outra vez uma história de amor tenha começado como esta, à custa de uma pasteleira em segunda mão que chiava como se a esfaqueassem, isto se tivesse carne, que tolice, dizer tal coisa de uma simples bicicleta, mas o certo é que aquilo que prendeu o ouvido de Helena Maria naquela fresca manhã de Maio, havia o sol despontado faz pouco tempo, foi o derlim-derlim maroto da pasteleira de Carlos Manuel, ia ele em mangas de camisa e bota negra bem engraxada, para agradar ao olho bovino do patrão, pedalando a bom ritmo, rua abaixo, sete e pouco da manhã, meia légua ainda para pedalar, baixou-se Helena Maria do varandim para mirar o ciclista, ai que é isto que foi que será que me está a dar, pensou ela, ficou a olhá-lo até ele ser apenas um pontinho a passar perto da torre da igreja, fechou as portadas do varandim, benzeu-se e foi torrar pão para a desjejua.

Mas não é aqui que começa esta história, como nunca é, nem pode ser, que nenhuma história começa assim tão abruptamente, tão romanticamente, tão facilmente, no seio de uma aldeia onde tudo se conhece e tudo se fala.

É o Outono de 1961 da era cristã, chove como quem a entorna, as estradas desfazem-se em lama, quem anda a pé tem de pedir licença ao corpo todo para dar um passo, espessa que esta terra fica quando assim chove em torrentes, quem anda de motocicleta fica atolado e tem que pedir que pedir licença ao corpo todo para empurrar a motocicleta cabeço acima, é Novembro e cheira a fumo. Carlos Manuel, vinte anitos feitos há pouco, espigado e de faces severas, de barba bem desfeita e bochechas vermelhas do vento gélido que desliza sem dó das carnes mal vestidas, acordou para o seu primeiro dia de trabalho a sério, depois de gastar a mocidade agarrado à sachola, comeu uma fatia de broa e uma talhada de queijo e bebeu uma caneca de café quente, deu um beijo à mãe e mandou-se à estrada, légua inteira para andar, há que dar à sola, não há dinheiro para automóveis, não há dinheiro para nada, nem para o jornal, comprou-se, uma vez, pelo Natal, uma telefonia que chega para ouvir as notícias e ouvir umas canções, entretém no serão, à luz do pavio, nada mais.


Comentavam as vozes mais grosseiras, ó Manel, chamavam-no assim, vais aí a pé, molhas-te todo mais pareces um pinto, e a chuva caía, nem dinheiro para uma bicicleta tu tens, e ele com o casaco pelas costas e as botas a fazer parecer as da tropa a talintar no chão, como um soco agudo, não ouvia nem fazia caso, não se importava de gastar sola a ir e vir, duas horas de caminhos por dia, se no fim do mês ganhava o seu cordão, dez tostões, guardava quinta parte para si, gastava outra e dava o resto aos pais, nem está a vida tão má enquanto houver dinheiro para gastar, pão para comer e vinho para beber e já dizia o meu pai, enquanto houver vinho há esperança, ponto de exclamação, gargalhada tola, murro na mesa.

 

Dezembro chegou escuro, monocromático, sombrio e gelado numa levada inesperada e repentina de farrapitos de neve, nada sério, bate no chão e derrete, mas faz bater o dente quem não ouviu as previsões das gentes mais velhas, que sabem destas coisas das nuvens altas e redondas. Carlos Manuel sabe tremer e portanto não teme frio – sai todo o santo dia porta afora, faça chuva, faça sol, pode até cair escardoça que nada o prende em casa, antes come uma fatia de broa e a uma talhada de queijo empurradas por uma caneca de café quente, veste o casaco, mete a sacola da merenda debaixo do braço, beija a mãe e sai para o trabalho. Todos os dias isto, légua inteira a pé no frio da manhã, légua inteira a pé no frio da noite precoce, é o sol que se põe a horas indecentes, oxalá chegue depressa a Primavera. Mas esta manhã é diferente, seis do doze de mil novecentos e sessenta e um, é um olhar inopinado que se encontra entre a distracção de um assobio e a timidez que se esconde atrás do vidro das portadas, defrontam-se estas faces inocentes, prolonga-se em ritmo de passeio este ensejo tão lírico e tão rude, são as histórias de amor do povo, não há paciência para mais que isto, Carlos Manuel, matreiro, desvia o olhar e enfia as mãos nas algibeiras das calças, Helena Maria persegue-o com o olhar até ele ser apenas um pontinho a passar perto da torre da igreja, fecha as cortinas das portadas do varandim, benze-se e vai passar o café para a desjejua, odeia sentir as borras na traseira da língua.


É dia da Imaculada Conceição, oito do corrente do ano já mencionado, toda a aldeia vai à missa. Vai Carlos Manuel e lá está Helena Maria, poupam-se nos olhares, mas não se negam um ao outro. Carlos Manuel não escuta coisa alguma, sai no sermão para ir fumar um cigarro com os homens ao adro, sermão é para as mulheres, elas é que precisam de educação moral, nós somos homens e tal tormento nos basta, nascidos e talhados por ordem divina a trabalhar que nem burros e a chafurdar que nem porcos apenas por termos uma picha e dois colhões entre as pernas, ah, foda-se. Dá o padre a bênção, e sai o povo para o adro, ali se sabem as novidades, quem morreu, de que morreu, a quem deixou o que tinha, se tinha, e chega-se Helena Maria discretamente à beira de Carlos Manuel e assim lhe diz, por entre um sorriso sem malícia

 

- Se tivesses uma bicicleta talvez ainda casasse contigo.

 

Carlos Manuel foi e veio do ultramar, combater pela pátria, defender as colónias e os interesses do reino republicano, em nome de Deus e de Salazar, graças a ambos voltou são e salvo para junto da mãe, do pai e dos irmãos, outros de lá vieram em esquifes de pinho que ganharam lugar honroso no cemitério, ainda hoje se lhes rezam missas, paz à sua alma.
Comprou uma bicicleta, a mesma pasteleira ferrugenta que fez derlim-derlim numa manhã fresca de Maio, agora já ia e vinha do trabalho mais folgado, com a sacola da merenda no cesto à dianteira. Carlos Manuel gastou a campainha da pasteleira a tentar que se cumprisse a profecia, botava o polegar aguda e bruscamente dedilhando, derlim-derlim-derlim debaixo do varandim, mas nada se chegou a levar em frente, outros olhos se encontraram, enquanto da sua estada em Angola, e talvez de tanto se benzer, nunca se sabe o norte da cabeça de uma mulher, Helena Maria nunca chegou a casar-se com Carlos Manuel.

publicado por Gualter Ego às 02:53 | link do post | comentar