11/9/2001

Dez anos são cinco milhões e duzentos e cinquenta e seis mil minutos, ou seja, muito tempo. Dez anos foi o tempo que o Benfica esteve sem ganhar o campeonato nacional de futebol desde 1994, ou seja, demasiado tempo. Dez anos são dez anos que não se parecem dez anos, mas sim um ontem escondido, cheio de retalhos, remendos, fiado em trapos, desfeito em bocados, uma colagem de memórias do dia em que o mundo mudou para todo o mundo - e só mudou para mim porque foi a primeira vez que me lembro de ser pela primeira vez. Dez anos após a queda do World Trade Center em Nova Iorque, tenho mais quarenta quilos e mais sessenta centímetros do que tinha na altura. As minhas células já se substituíram completamente, morreu o Papa João Paulo II, as televisões deixaram de pesar dez quilos, os computadores já não ocupam uma secretária inteira, Portugal jogou uma final futebolística e perdeu contra um país sem herança nesse desporto e descobriu-se água em Marte.

 

Esta será, muito provavelmente, a narração da data mais recuada que eu me consigo recordar com exactidão e certeza.

 

Sei que acordei cedo, cheio de genica, bom puto que era, quase ao primeiro raio de sol, e gloriosamente vesti uns calções de ganga e a minha mítica t-shirt do 101 Dálmatas, usada até se romper nos ombros e se desfiar no fundo. Tinha 6 anos e faltava-me um dente daquele que constituem o frontispício dentário de cima. Era a manhã do meu primeiríssimo dia de aulas, dia onze de Setembro de dois mil e um, o que aparentava ser, apenas, mais um dia.

Minha mãe arranjou-me como se de uma menina eu me tratasse, penteou-me, perfumou-me, esfregou-me os dentes e na noite anterior fez questão de ser ela própria a dar-me banho. Ainda hoje ando a tirar água dos ouvidos. Depois de me dar o pequeno-almoço e me pentear pela terceira vez, ironia das ironias, enfiou-me um boné apertadíssimo pelas orelhas abaixo e deu-me um grandessíssimo beijo puxado numa das minhas bochechas gordas.

Minha mãe tomou-me pela mão e fomos juntos andando até à escola primária desta terra que fica longe de tudo menos da própria terra, onde se respira terra e se come da terra. Foi no meu terceiro ano que aquela escola albergou o maior número de alunos. Cinquenta e seis, bem contados, mais raparigas que rapazes, coisa que a nossa inocência, a de então, não fazia caso. Não podia ter tido educação melhor. Tanto sabia de contas de dividir - a verdade é que até hoje não as aprendi a fazer - como andava a lavrar com os dentes na gravilha do campo de futebol, onde eram dez rapazes contra dez rapazes, mais dois gordos à baliza, um em cada, e as cachopas nos alpendres a jogar ao elástico e que, muitas vezes, mea culpa, levavam uma ou outra bolada no bucho. Bem, estou a divagar, dizia eu que minha mãe me tomou pela mão e fomos juntos andando até à escola primária desta terra, terra pequena.

Diz ela, minha mãe, que meus olhos brilhavam, ao entrar pelos pequenos portões verdes da escola, sempre fui uma criança de gostos singulares e duvidáveis. A professora era alta - bem, com 6 anos 90% das pessoa é alta - muito morena e de cabelo preto, liso. Usava franja. Tinha rugas de expressão e chamava-se Beatriz.
Quando me largaram da mão, a primeira coisa que fiz foi ir ver as balizas. Mãe de Deus, eles tinham balizas verdadeiras, de ferro e tudo, isto devia ser o melhor lugar do mundo. Depois corri e saltei canteiros e muros, fiquei com as sandálias de fivela todas enterreadas, mas a minha mãe, surpreendentemente, não se zangou. Devia ser porque era menino da escola primária, agora comia nas mesas grandes do refeitório e tinha livros e uma caneta do Super-Homem e então já não podia ralhar comigo porque o respeitinho é muito bom.

Teimei em ir embora, deviam ser umas onze da manhã, já tinha brincado com o Eduardo, com o Simão, já tinha visto a Ana Rita, a minha eterna paixão de infância que durou até ao segundo ano, quando comecei a escrever cartas de amor - que infante precoce, mal sabia eu o que o porvir me reservava, suspiro - e a metê-las na caixa de correio da agora, agora então isto é, minha paixão eterna, que durou até eu perceber que das mulheres, aos 8 anos, não se tira nada senão um beijo nos lábios muito atabalhoado e uma frieza de espírito comparável a poucos bichos irracionais. Não há criatura nenhuma mais passivo-agressiva que uma miúda de oito anos, porra. Divago novamente, perdão. Vi o Duarte e o Hélder e o Carlitos e só não joguei à bola porque ninguém levou bola. Fiquei triste porque o Simão tinha ido para outra sala.

Já só me lembro, então, de fazer birra para ficar e da minha mãe a despedir-se, custosa, comigo a pesar-lhe na mão, birrento, e de imediatamente a seguir estar sentado no sofá castanho da cozinha, a olhar muito atento para a televisão que agora está no sotão. Era meio-dia. a minha mãe estava a desascar batatas no lava-loiça. Não há cheiro mais distinto do que o de batata descascada mesmo antes de pôr na panela, em ex aequo com aquele que é o do resto de almoço de domingo a resquentar lentamente no bico mais pequeno do fogão.

A minha mãe já tinha trocado de roupa e vestido uma bata fresca de andar por casa. A mesa estava posta, quatro pratos, eu e as três senhoras da casa, o pai estava a trabalhar.
Duas torres enormes num sítio longe estavam a deitar um fumo negrum terrível. Dois aviões tinha batido contra elas. Mas que raio faziam os aviões a voar tão baixo?, perguntava eu, e como é que foram logo dois?, continuava eu, calado, mas a pensar. Depois fiquei muito nervoso, diz a minha mãe que até com os olhos trémulos de lágrimas, porque havia pessoas a saltar de tão alto. E eu não percebia porquê.

Não fazia ideia do que se passava, mas sei que estava bastante aborrecido, porque as torres estavam a deitar fumo em todos os canais e eu queria ver os desenhos-animados.

 

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publicado por Gualter Ego às 00:00 | link do post | comentar