Vive la France.

E então, o homenzinho pequeno, redundância proeminente mas não menos necessária, visto tratar-se de um homenzinho, por eu ter ganho por ele afeição momentânea de caridade pelo espírito de novidade e no diminuitivo isso se poder espelhar, redundando por ele ser realmente pequeno, mas um pequeno francófono que é uma pequenez singela, sem complexo de inferioridade - é um pequeno francófono, ostentando uns largos óculos de massa na ponta do nariz delgado, vestindo um horrendo fato-de-treino branco e azul-escuro, com um cabelo salpicado de branco e cinzento, são as fatalidades da idade, e um bigode farfalhudo e imponente, ondulado, quase atrevido, a desenrolar-se-lhe no lábio superior, esticado e também acinzentado, tendo pacientemente esperado sua vez, disse, naquele tom agudo natural da língua francesa, uma das suas muitas singularidades, meio disfarçado pelo cortejamento vão da empregada-de-balcão:

 

- Une baguette, s'il vous plâit...

 

E o senhor disse aquilo com tal ternura, proferiu uma frase que me pareceu ser-lhe trivial - era uma padaria simples, entrar e sair, fila pequena, troco na hora, numa vila recatada entre os vales húmidos da Borgonha - com tal humildade e certeza na voz, o francês bem dito é como veludo a passar na epiglote que se derrete na língua, que eu próprio me senti arrebatado, quase que num filme, perdido na tradução, sei lá, naquelas ruas direitas de tão tortas e cheias de curvas, velhas e cheirosas, a cheirar a pão e a manteiga e a café e a histórias e a pessoas. Era um cheiro que quase se podia mastigar e degustar, quase que se podia entrelaçar na língua e sentir o paladar; é a sinestesia, creio eu, típica dos sítios novos.
Era como se as ruas elas próprias falassem o francês em passos e as paredes me quisessem beijar, puxando juntos os seus lábios metafóricos como quando se vai para beijar alguém à moda antiga (a mocidade de agora pouco tem que ver com a do meu tempo), ou como quando se vai para falar francês. Toda a gente sabe que o francês se fala como que estando prestes a beijar alguém. Sabes isso, certo?

Cada esquina que dobrava sentia um aperto no peito, porque não tinha sido ainda ali que a Amélie saltava para o meu lado, me dava o braço e me levava a passear, dizendo que la chance, c’est comme le Tour de France. Que on l’attend longtemps et ça passe vite. É a vida...

O homem virou-se, com a baguete debaixo do braço, quase que como segurando uma espingarda de uma maneira pouco formal, ou pouco ortodoxa, podemos dizê-lo assim, disse excusez moi e saiu por onde entrou, o sininho por cima da porta fez derlim-derlim. 

Un pain au chocolat, s'il vous plâit, disse eu, tendo sido chegada a minha vez, tentando acertar no sotaque e sorrindo ao mesmo tendo, e acho que tive sucesso que a menina sorriu para mim também, deu-me o saquinho de cartão com o pão de chocolate quentinho e crocante lá dentro, mais os vinte cêntimos do troco, disse-lhe merci beaucoup, que sou gaiato mas sou educado, sorrindo durante este gesto inteiro, o meu humilde contributo para a economia francesa, em especial para a indústria da panificação, a menina sorriu-me outra vez e acenou positivamenta com a cabeça uma vez, como que me saudando e dizendo, vai em paz, homem, país de gente simpática, este, e eu saí por onde entrei, o sininho por cima da porta fez derlim-derlim. Vive la France.

Corta.

publicado por Gualter Ego às 22:02 | link do post | comentar