Viva a liberdade, porra.

Fui dar o nome e o número de utente, cumprir formalidades, nomes e número e burocracias, até para se queixar o enfermo tem ele que tirar senha, e sentei-me numa das cadeiras verde-gasto que se embicavam em fileira, todas seguidinhas até lá ao fundo, ao pé da máquina do café.

Sempre gostei de hospitais, do cheiro a álcool e a desinfectantes, das correrias, do sangue, das gosmas, das diarreias, dos estetoscópios ao pescoço como nas séries americanas, as portas a bater e a resvalar e, de vez em quando, quando se tem sorte, há algum mal-afortunado que se espetou num pinheiro e vem encharcado do próprio sangue a ganir na maca dos paramédicos. É como, lá está, nas séries americanas, mas em primeira mão.

Já não ia ao hospital há algum tempo. Da última vez que lá fui, fui porque achava que tinha alguma coisa a mais nos intestinos, alguma chaga, algum bicharoco a fazer-me regular mal o organismo, a fazer o meu relógio biológico fazer taque-tique em vez de tique-taque, porque, sem espinhas, andava a cagar sangue em vez de cagar merda e isso não pode ser bom sinal. Tanto era que acabou por não ser nada: o médico meteu-me o dedo no cu e por lá escarafunchou até que achar que já estava com, enquanto eu fechava os olhos com força e tentava não chorar, ao ver a minha dignidade masculina ser violada por um dedo envolto em látex. Tudo isto para voltar para casa a chá preto e caldo de arroz.

A sala-de-espera do hospital estava bem composta. Eram os idos de Março, aquela altura em que não se sabe bem se é gripe ou se é alergia aos pólenes e aos pós das árvores. Ao meu lado, uma velhinha com uma cara serena e simpática, de quem está com prisão de ventre. Na cadeira seguinte, um sujeito gordo e mal-cheiroso com uma t-shirt velha e esburacada do Intermarché e a mão esquerda ao peito, envergando um curativo encardido no polegar. Cortou-se, é o mais certo. Acidente de trabalho. Lembro-me de uma vez estar a ajudar o meu pai com uns biscates cá de casa e lhe cortar, sem querer, a ponta do polegar. Com uma rebarbadora. Foi um acidente, friso. Ah, na fila de cadeiras perpendicular à minha estava uma viúva a fazer luto com uma catrefada de exames e táques e raixis nas mãos. Facilmente se deduz que esta senhora será daquelas que passa as manhãs a ver o programa da Júlia e quando conversa com as vizinhas só sabe falar das doenças, das receitas e ao preço a que estão os medicamentos, como a da prisão de ventre, que está ao meu lado e cheira a Halibut, "pois, isto é uma carestia, diz que o país vai à falência e depois acabam-se as reformas, no tempo do Salazar não havia reformas e havia comida para toda a gente e não havia tantas doenças!", talvez porque não havia tantos medicamentos, minha senhora. No canto, a balouçar o café no copo de plástico, estava um tipo barbudo. Calçava botas da tropa, todas bem engraxadinhas, biqueira d'aço, e vestia um blusão de ganga por cima de uma camisola negra de gola alta. Já estava sentado a olhar para o café quando entrei.

O altifalante do hospital fez tu-tu-tu e alguém cuspiu um nome qualquer que ninguém entendeu senão a pessoa a quem se referia a voz. O sujeito gordo e mal-cheiroso com o dedo ligado levantou-se e entrou pela porta castanha. Provavelmente deve ter sido a ele que o chamaram.

A velha que estava sentada ao meu lado limpou a garganta, olhou para mim, eu sorri-lhe, ela retorquiu-me o sorriso e apertou a mala no regaço.

De súbito, vejo o tipo barbudo das botas da tropa levantar-se e olhar em roda. Pensei, "vamos morrer aqui todos, ele é um veterano traumatizado da guerra da Guiné vai-nos esfolar todos com facas do mato e violar as velhas". Mas não, ele apenas soltou uma gloriosa e sonora flatulência. E depois, em júbilo, exclamou:

- Viva a liberdade!

publicado por Gualter Ego às 03:30 | link do post | comentar