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Quando e se me vejo no espelho vejo vários e vejo nenhum. Vejo aquele que se quer renegar de mim por saber apenas que é em si todo: inteiro e absoluto, perpétua finitude dos sentidos e da existência. Vejo este que se quer revoltar contra o regime das coisas e das leis do Universo e rasgar a carne e dar lustro às asas e voar.

E tudo isto somado dá um nada arredondado às milésimas de uma gota de sangue. Tudo isto, somado, e dividido, dá um nada que por ser tão absoluto se anula em si próprio; (não é o braçado de silvas que carrego às costas que me cansa, mas são, sim, os espinhos que me tormentam.) E como posso ser eu algo, se sempre estou insatisfeito com aquilo que me vejo ser?

O espelho olha-me desconfiado. Dobra-me a sobrancelha, mostra-me as gengivas: és de carne, és, diz-me ele, mas como posso eu ser da carne se me alimento do espírito?

Sou um infame paradoxo nesta insónia a que chamo vida; inteiro, uno e devorado pela mágoa de ter nascido eu mesmo e não outrem.

 

 

(A Clockwork Orange, Stanley Kubrick, 1971)

 

publicado por Gualter Ego às 15:10 | link do post | comentar