O Isaac e a maçã.

Estava uma manhã jubilosa e radiante, farta em cheiros e pólenes e passarinhos e brisas de suaves achegos. Os grilos cantavam e o céu estava copiosamente azul. Nem uma ponta de nuvem só se podia avistar, por mais que se olhasse para o céu. No meio de tanto regalo bucólico, no alto de um monte, repousa uma maçã. Pois que a maçã não se encontra remota e poisada na erva, que milagre tal seria esse, ou esquecimento, ou despojo, mas sim agarrada a um píncaro, que por sua vez se segurava a um galho, que por efeito se prendia num ramo, o mesmo que, pelas linhas da lógica, e por ser astuto e não vergar, e não estar no chão partido pelo vento ou por um bando de miúdos que quis jogar aos ladrões, está preso à sua respectiva e fatídica árvore. Portanto, e como vacas não parem cães, se esta maçã é, de facto, uma maçã, vermelha, brilhante e vulgar, esta árvore será uma macieira. 

Uma rajada de vento rebelde fez silvar as folhas da macieira e a maçã acordou. Do cimo daquele monte via-se muita coisa: erva, maioritariamente, em grandes e ondulados mares de verde, e algumas cabras que berravam mé umas às outras, entretidas, remoendo a grama.

Esta maçã, porém, não era como as outras maçãs que por aí se vêem. Esta maçã tem estatuto. É ambiciosa. E, por assim ser e nunca se mexer, é extremamente depressiva. Está doido, este, não toma os remédios a horas, dizem vocês. Pois bem que estão errados que é todos os dias depois das refeições, e já quase nem preciso de água para os engolir e a maçã lá continua a cismar, no alto do monte, sobre o sentido da vida.

Deixou de falar às outras maçãs, vai para alguns dias. Nenhuma delas lhe interessa, são todas umas vendidas, principalmente as que estão viradas para sul. Esta nossa maçã, e espero que já tenham criado empatia com ela, coitada, está do lado úmbrio da macieira e talvez isso explique, em parte, toda esta súbita depressão. Será que teve uma epifania? Lembrou-se que a vida não tem sentido, pronto, senão ser comida e não é algo que lhe agrade, todo o processo digestivo, os ácidos, as tripas, a merda, o húmus, que final tão vil para um fruto tão esbelto, lembrou-se que não lhe vale de nada os adornos carnudos e à árvore bastava lançar as sementes à terra, não era preciso estar aqui uma maçã na agonia do existencialismo.

Enquanto pensava e cismava, e cismava na cisma e tentava deixar de pensar nos incisivos e nos caninos e nos molares e na epiglote, no estômago e no restante sistema, alguém havia-se sentado bem por baixo dela, a rabiscar uns número e umas letras num caderno de capa dura e amarela. Tinha uma privilegiada visão aérea dele, porque estava ao fácil alcance de alguém que tivesse pouco mais que metro e sessenta de altura, no esticar do braço e, quem não os tivesse, e fosse menos composto, mais franzino, podia saltar para a agarrar, sem problemas, que a fome a tudo vale e as forças de apetite a todos acodem, só para poder sentir aquele arrepio que vem quando estamos prestes a trincar o alimento. E não havia nem folhas nem galhos nem nada a tapar-lhe a vista. Não apresentava sinais de calvície, o homem. Pelo contrário, tinha farta cabeleira. Sabia-o homem pela vestimenta e pelos traços grosseiros, o queixo puxado e violento e o nariz grande e impertinente e sabia-o inteligente por todos os rabiscos matemáticos que tinha no seu caderno; sim, que isto é maçã instruída, que, de vez em quando, poisa aqui, poisa ali e vai poisando um mocho que já esteve em França e fala francês e sabe matemáticas e ensinou-lhe muita coisa, a ler, a somar, a dividir, a multiplicar, a subtrair e ensinou-lhe a dizer uma coisa muito bonita em francês: on n'apprend pas aux vieux singes à faire des grimaces; que é como quem diz que um burro velho não aprende línguas novas e é bem verdade, que esta maçã está aqui desde o fim do Inverno, e vamos quase em Junho (já tinha dito que não é maçã qualquer, esta), e ela lê aquilo como quem fala, õ naprende paz aus viéux singés à fére dés grímaces.

Porém ela sabe que deve estar nalgum sítio que não na França porque não fala francês, nem nunca viu por estas bandas nem boina nem concertina. Desconfia, também, que por não saber que língua é esta que o homem escreve no caderno, que vida assim, ignorante, não é vida nem para mosca, quanto mais maçã.

Actioni contrarium semper, é a única coisa que ela consegue ler que não está naquela língua esquisita e se lê com facilidade de línguas; a frase continua, mas as maçãs sempre foram um pouco míopes.

Isto não é condição de vida - pensa a maçã, olhando de alto o homem - não tenho braços, nem pernas, nem orelhas para segurar óculos, nem cabelos. E não sabe ela que foi Deus que a criou assim, ou revoltava-se ainda mais, praguejando e blasfemando, gritando impropérios ao céu, sim, ao céu, mesmo sendo suposto Ele estar em todo o lado. Todos somos ateus com os deuses dos outros e os bichos e as plantas e as maçãs, simplesmente, não sabem em que hão-de acreditar, então acreditam na Lua, e nas abelhas, e as abelhas nas flores, e as maçãs acreditam que vão ser pintadas por algum virtuoso, mas esta não acredita em nada.

Esta maçã quer morrer. Considera-se indigna de viver e indigna da árvore. Sente-se presa, e a prisão é um estado de mente. Torce-se, revira-se, esperneia sem pernas e o píncaro faz plim em surdina e solta-se do galho, cortou-se o cordão umbilical e lá vai ela. E cai lentamente, como no cinema, e não se ouve grito nenhum, pois claro, acham vocês que eu sou maluco ao ponto de pôr uma maçã a gritar?, e todo o monte e toda a macieira pasma num suster de expiração e pum, faz a maçã a esparramar-se em prantos de suicídio botânico no cocuruto do ilustre senhor.

Ah! - exclamou ele. E levou a mão à cabeça para esfregar na dor. Já ia a maçã a querer rolar monte abaixo, ainda tonta da queda e do baque que fez no crânio do senhor, salvé ó guedelha forte e loira, que amparaste a queda do fruto e minimizaste a dor, quando ele, Sir Isaac Newton, assim é de nome e de título, anteposto, lhe chegou a mão e agarrou com violência, olhando-a com os olhos semicerrados de ganas e as sobrancelhas oblíquas de raiva.

- Que desplante vem a ser este, ó fruto? - perguntou Isaac, assim será daqui em diante, à maçã.

- Desculpai-me, não era minha intenção magoá-lo. - justificou-se a maçã.

- Pois que me magoaste e quase que fez ferida... A que razão caístes tu da macieira? - indagou.

- Não aguentei a opressão deste mundo cruel! - disse a maçã, com um óbvio teor dramático, com direito a interpretação corporal.

- Mas que se passou, ó fruto? - questionou Isaac.

- Nada mais a fotossíntese me devia, nem sequer a seiva me queria e sempre fui a maçã podre da árvore, passo a expressão.

- Passa, passa...

- A verdade é que sempre me senti humilhada. Os meus pais sempre me disseram que não ia ser ninguém na vida. E depois via as histórias como a de Adão e Eva, e a serpente, e pensava por que é que não podia ser também assim, um fruto proibido e ser eu a ficar na garganta de todos os homens, como essa, ó, que tens aí. Depois contaram-me a história da Branca de Neve e eu também tenho sonhos e não me importava de estar uns tempos a engasgar uma goela ou duas, de vez em quando. Se fosse preciso, até ia mais longe, e dedicava-me à pintura. Ouvi dizer que há agora um pintor belga muito humilde que gosta de pintar maçãs a flutuar na fronte de homens engravatados. Não me importava de pousar para um retrato, não vejo mal nenhum nisso. Mas aqui só se vêem cabras e verde e o céu azul. E depois chove e é tudo tão triste e cinzento. Então resolvi mandar-me e matar-me.

- E agora? Como-te ou não te como? - perguntou-se Isaac.

 

Pois que sabemos que o fatídico destino da maçã marcou para sempre a história da nossa humanidade. Ser comida foi o preço a pagar por fazer com que tudo deixasse de flutuar e obedecesse à lei da gravidade e por bem que assim é, para que possamos andar com os pés no chão.

Se a mais alguém acontecer cair uma maçã em suas cabeças, ou virem alguma maçã cair, levem-na a um psicólogo. É uma vida que está nas vossas mãos.

publicado por Gualter Ego às 00:29 | link do post | comentar