Deixem-me.

Não sei se é o carro que se mexe e eu me mexo com o carro, se é a estrada que por baixo do carro desliza e corre o seu caminho de casa.

O céu está manchado de noite, pincelado de nuvens cancerosas e aleatórias que fazem escuro o índigo que corre por trás delas e se faz descobrir nos buracos do céu.

As horas, sete e meia, tira uns minutos para arredondar a conta. Faz de conta que já o insustentável peso de consciência que faz o hoje abortar o amanhã se faz sentir na cara das pessoas. E o amanhã vai perdendo bocados, ali vai um hagá, e ali vai o til e assim o amanhã perdeu o hagá e o til e só não lhe tiram mais bocados porque o despertador há-de tocar e fazer-se ouvir e o ritual vai-se repetir.

Todos os dias.

Mais um dia.

O hoje, que ontem era amanhã, e hoje é hoje e nada mais.

Estou contente por poder escolher se fico contente ou não de acordar de manhã.

publicado por Gualter Ego às 20:01 | link do post | comentar